Ciro Gomes: o rancor como bandeira. Por Ricardo Alcântara

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O modelo eleitoral vigente oferece duas contribuições à legitimidade: se o primeiro turno permite que se proclame a identidade de cada partido, o segundo revela os campos em que atuam no espectro ideológico. A maioria absoluta, ao fim, faz inquestionável a legitimidade da vitória e dá ao vencedor, com essa afirmação, a força de que precisa para compor seu governo.

Não me incluo, por isso, entre os que cobram de Ciro Gomes (mas de Simone Tebet não?) a atitude moral de renunciar à sua candidatura para que se defina a eleição logo no primeiro turno, retirando de Bolsonaro a oportunidade, muito improvável, de uma nova oportunidade de disputa num segundo turno certamente marcado por um ambiente mais acirrado ainda.

Em Ciro Gomes, o que não é aceitável para quem se coloca em favor da civilidade, é o discurso que ele construiu, em que ignora diferenças qualitativas entre a candidatura de Lula, cuja mensagem acena com o pleno respeito às instituições democráticas, e a de Bolsonaro, cujo aceno indica a direção da violência e da intolerância. Não são filhos do mesmo ventre, não.

Se a crítica central ao lulismo é a condescendência com que o ex-presidente reagiu à corrupção em seu governo, ele precisa de pronto explicar por que indicou cinco ministros para aquele governo e permaneceu omisso sobre o assunto durante 14 anos, até que, finalmente, se deu conta de que não receberia dele apoio para disputar a presidência em 2018. Ora…

Se o mecanismo crônico da corrupção esteve presente ali, apenas reproduziu um modus operandi do qual nenhum antecessor conseguiu se esquivar. É uma questão grave, sim, e merece mesmo a atenção que a sociedade lhe devota, mas de natureza muito menos danosa do que um governo que celebra preconceito e fustiga a todo instante a cadela do fascismo.

Ciro Gomes tenta nos convencer a lhe entregar o país e assistir ao espetáculo de sua genialidade gerencial, mas não foi capaz de perceber a perda de controle sobre seu próprio discurso, agora invadido pelos posseiros da direita que saquearam suas palavras para disseminar, com o aval de um “progressista”, a versão de que Lula, sim, é o Mal encarnado.

Que não desista de sua candidatura não faz dele um ser abjeto. Que o lulismo faça campanha pelo “voto útil” e tente capturar seus votos não é menos legítimo. São resistências e pressões próprias do processo democrático. Eleição é isso aí mesmo: “quem vai pra chuva é pra se queimar”. Nada disso deixará feridas que a decisão soberana das urnas não possa cicatrizar.

No entanto, o esforço de Ciro em dissolver a fronteira de civilidade que separa Lula e Bolsonaro para estancar a sangria de sua frustração é um epitáfio melancólico para a trajetória política de quem já deu valiosas contribuições ao seu país e, especialmente, a nós, cearenses, que já bebemos a água do Canal do Trabalhador. Lamentável. Mas, se é assim, adeus.

 

Ricardo Alcântara é publicitário e escritor.

 

 

 

 

 

 

Nota do editor: os pontos de vista assinados por colaboradores não refletem necessariamente o pensamento do Focus.jor, sendo de total responsabilidade do(s) autor(es) as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.

 

 

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