Sem lavar as mãos. Por Angela Barros Leal

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Na saleta cabem, no máximo, quatro pessoas, além das duas que controlam o local. Não há janelas laterais: apenas a porta de entrada e, ao fundo, uma escada em espiral que parece conduzir a um mezanino. Entramos juntos, três desconhecidos, e adaptamos nossas pupilas ao ambiente de semiobscuridade. Percebo meia dúzia de aparelhos e artefatos de grande porte ocupando a sala. São todos eles de formato invulgar, todos de função desconhecida para mim, que chego pela primeira vez, e sob coação, àquele lugar.

Usamos roupas diferenciadas, capazes de facilitar os movimentos que iremos fazer. Logo na parede da entrada há um relógio, ali colocado certamente para acompanhar os longos minutos de sofrimento que nos aguardam. No som, alguém aumenta o volume da música, talvez para emudecer nossas queixas. Somos obrigados a remover sapatos e sandálias, encobrindo os pés com meias especiais. 

Sou a primeira a ser colocada sobre uma cama alta, de madeira, à qual a orientadora dá o nome de “cadilaque”. Percebo cheiro de álcool, resquícios de umidade. Deito-me temerosa, atenta ao que está em volta, sobre um colchonete fino recoberto de plástico ou vinil, resguardando um estofo rígido. 

Acima de meu corpo está armada uma estrutura de barras em metal, da qual pendem alças, molas, estranhos apoios. A orientadora me ordena posicionar as mãos sustentando a nuca. Coloca meus pés e coxas em pares de alças, uma bola entre meus joelhos, e a tortura começa. Estique a perna. Alongue a coluna. Estenda o pé. Respire. Dez vezes disso, dez vezes daquilo, repita. Erga uma perna, erga a outra. Inspire. Cresça a coluna. Contraia o abdômen. Afaste o queixo do peito. Levante a cabeça. Olhe para a frente. 

Olhando para a frente, obedecendo à prescrição da voz autoritária, leio dezenas de vezes uma frase inscrita na parede – qual fosse a expressão latina “mane, thecel, phares” descrita no Livro de Daniel (“contado, pesado e medido”) surgida, em letras de fogo, na parede do salão no qual o Rei Baltazar promovia mais um de seus festins sacrílegos. 

Leio e releio, a cada vez que ergo a cabeça: “Seu corpo é seu maior bem, ele guarda e reflete sua alma. Cuide dele como se fosse uma pedra preciosa e nós o lapidaremos.” Assinado Joseph Pilates, o responsável pelo martírio que enfrento agora. Aliás, mais um dos responsáveis, juntamente com o médico que me fez vir, à força, até esse lugar onde gemo e protesto e reclamo.

Importante se exercitar, o médico disse na consulta, sem ouvir meus argumentos sobre minha inexistente vocação para exercícios físicos. Vocês – generalizou ele, abrindo um círculo no ar, o braço musculoso abarcando o que estou segura de ser um grupo imenso de preguiçosos –, vocês que evitam até mesmo ver essas atividades na tela da televisão, não podem deixar o corpo ficar parado. Precisa sim se exercitar, determinou sem dó.

São várias e criativas as etapas do processo voltado a fazer com que o corpo aprenda a sustentar o próprio peso. Depois do tormento na cama, para a qual contribuí com dose razoável de suor e lágrimas, sou posicionada sobre outro aparelho, uma espécie de sela acolchoada, acoplada a uma pequena escada com degraus em alturas irregulares. Ali prossigo no estica-empurra-puxa-estica, pernas e braços em ação ininterrupta, para ser arrastada, em seguida, a uma prancha longa, móvel, com o sugestivo nome de Reformer.

Sobre ela a orientadora coloca uma caixa reforçada, de tamanho suficiente para sentarem duas pessoas, e põe em minhas mãos o que parece um par de rédeas longas, presas a roldanas, a serem puxadas até à altura do peito e à lateral da cintura, visando fortalecer os músculos dos braços. 

Esse equipamento estimula uma fonte oculta de endorfina. Puxo as rédeas dezenas de vezes, incorporando o espírito de um cocheiro de antigas diligências, acossado por vilões mascarados, erguendo nuvens de poeira em sua fuga. Repuxo ambas as cordas alternadamente, assumindo a alma de um condutor de trenó, voando sobre um lago congelado em luminoso dia de inverno, vencendo distâncias no galope alegre dos cavalos. 

Ainda assim, considerando o padecimento prévio nas outras máquinas, e meu longo histórico de aversão militante a qualquer esforço físico, persiste a relutância em assumir o compromisso – dúvida que se desfaz na hora em que vou deixar a sala. No instante simbólico de lavar as mãos, a consciência desse ato me ilumina com uma epifania decisiva. Decido não lavar as mãos. Em sentido figurado, é claro.

De lá para cá, embora confessando que cada aula continua uma tortura, já se vão cinco anos que troquei Pilatos por Pilates, lapidando a duras penas essa antiga pedra preciosa que é meu corpo. 

 

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus.jor.

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