O diários de Maria João. Por Angela Barros Leal

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Por estar à procura, acabei por encontrar. A vendedora me oferecera dois pequenos cadernos artesanais, dois diários de formatos únicos, ambos pelo preço de um só. De 10 euros cada, o valor inicial, a 5 euros os dois, sem uma negociação sequer da minha parte. Eram recentes, a vendedora bem sabia, e em nada lembravam alfarrábios de passado distante, nada haveria neles de mistérios a encontrar que não tivéssemos vivido também nós mesmas – a autora dos diários, a vendedora, e até mesmo eu, que àquele país sequer pertencia –, entre os anos de 2021 e 2022.

Sob a sombra de um plátano outonal, em uma ponta de praça até onde se estendia a feira, folheei brevemente os diários, postos nas minhas mãos pela insistência da vendedora. Havia neles o registro de pouco mais que 20 meses na vida da autora dos diários, que julguei ser também responsável pela construção física deles. 

O primeiro diário era de feitura simples. Uma capa vermelha, de papel grosso, com quatro perfurações simétricas na borda esquerda, atravessadas por uma corda estreita, atada por delicados nós. Quase inteiramente preenchido por textos em tintas de várias cores, a letra oscilando entre o cursivo e as capitulares, escrito quase todo em inglês.

O segundo era formado por três seções, cada uma compondo um conjunto de 30 páginas de papel amarelado. A primeira seção trazia linhas horizontais. A segunda vinha despida de recursos para alinhamento do texto. E a última utilizava o quadriculado, como as páginas de planilhas. As tríplices lombadas prendiam-se à capa única por um elástico amarelo. O envelope colado à última contracapa, com um barbante fino atando dois círculos com espaço em relevo, e ocultando algo, foi o que me fez fechar negócio.

Como vieram parar nas mãos da vendedora é a pergunta inicial que me faço. Deixados para trás em mudanças, esquecidos em um vagão do metro, quem sabe sobre um assento apressado dos comboios. São hipóteses que só posso imaginar.

Mais tarde, com calma, vi que haviam pertencido à mesma dona, pelo que pude deduzir da letra. Ou nem tanto da letra – pois, na verdade, as páginas traziam diferentes grafias, mas principalmente pela uniformidade do conteúdo.

O segundo caderno datava de 2021, no final da pandemia. “O mundo abriu”, escrevera a autora no dia 2 de outubro. “E eu pergunto-me quando será a época da apanha da azeitona este ano”. No bilhete oculto no envelope da contracapa, registrara ela: “Just 11 days before you came back to me, and I came back to you, there was a picture of a curtain of clouds, fading away from the sky”.

Havia, portanto, a imagem de uma cortina de nuvens a se desfazer no céu, e havia um senso de liberdade nas palavras dela, dessa pessoa desconhecida, que ao pé da sétima página assinara com letra miúda: Maria João.

Não perdi tempo em buscar, na internet, quem poderia ser Maria João, artista gráfica, compositora, apreciadora de música eletrônica, interessada em performances que estendam os universos mentais, voltada a “escrever, dançar e pesquisar sobre arte”, a dado momento preocupada em alugar morada na rua Estefânia, ou na rua Santa Maria Maior, temerosa de aranhas e de velocidade, focada na qualidade de sua saúde, no aperfeiçoamento espiritual e na condição humana.

Uma Maria João a anotar sonhos e preocupações em Lisboa ou na Ilha de São Miguel, de onde escrevera que “viajar é conhecer para além dos limites de uma fronteira”, e que por detrás dessa viagem “queria-me certificar de que sabes que já levantei mais canetas por ti do que por qualquer outra pessoa”. 

A mesma que dizia a si própria, em trocadilho bilingue, “you need to be the extra-vagant”, e que rangia os dentes: “Gosto de escrever sobre coisas destrutivas, porque as coisas aqui podem parecer tão pacatas, tão adormecidas”, e que revelava suas ambiguidades ao afirmar: “Ao mesmo tempo que me agarro, ao mesmo tempo que me afogo, ao mesmo tempo que sufoco, ao mesmo tempo que te dou um soco”.

Encontro muitas Maria João, nome não muito raro em Portugal. Em nenhuma delas reconheço o perfil que busco. Caso deseje de volta seus diários, com os registros de um período inquieto para todos nós, ela pode descansar tranquila: estão eles bem guardados comigo, à disposição de sua legítima dona.

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