Dia 3 da NRF: e essa tal de Inteligência Artificial? Por Pádua Sampaio

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“Clickbait” é um termo da internet para se referir a chamadas sensacionalistas, que têm o objetivo de fisgar a atenção das pessoas, sem muito compromisso com a verdade. “Click” é clique, claro, e bait é “isca”.

Você já deve ter visto pela internet links de matérias do tipo: “Inacreditável que o Sílvio Santos tenha dito isso do Faustão”. Ao acessar o link (gerando engajamento), a matéria não traz nenhuma revelação bombástica ou exclusiva. Isso é um clickbait. Neste ano, a programação da NFR estava repleta de palestras com o tema AI (Artificial
Intelligence).

À medida que eu ia avançando nos painéis, aumentava a sensação de que o uso do termo AI era muito mais para estar alinhado com o assunto do momento do que por conhecimento e domínio. E quanto mais alta a posição na empresa, menor a profundidade. Compreensível.

Antes de mais nada, a Inteligência Artificial é algo extremamente novo. Há um ano, a bola da vez, o queridinho dos gurus de marketing e vendas, era o Metaverso. Pouco ou nada se falou sobre esse assunto na NRF 2024. Cadê o Metaverso que estava aqui? O gato comeu.

Em segundo lugar, porque não parece mesmo razoável que um presidente – dentro das atribuições que tem – esteja por dentro das minúcias tecnológicas sobre o hype do momento, quando existem departamentos na empresa dedicados a isso.

Por fim, talvez a ausência de um mergulho profundo sobre o tema nas palestras se explique pelo fato de que as aplicações da AI mencionadas são muito similares àquilo que já usamos no nosso dia a dia.

Para que você tenha uma ideia: o uso mais comum da Inteligência Artificial no mundo, entre as empresas, é a criação de textos e geração de insights (35%), seguido pela implantação de chatbots (31%) e em terceiro, geração de imagens (24%). Tecnologias bastante acessíveis para cada um de nós, convenhamos.

A resposta, talvez, não estivesse nos auditórios e nem nos Powerpoints mostrados nos mega telões de led das salas. E sim nos pavilhões em que estandes de várias marcas disputavam a atenção de quem passava ali. É apenas quando damos uma volta pelo terceiro andar da NRF que temos a dimensão dessa revolução, do tsunami que já começa a subir até o joelho.

Um desavisado que visitasse o Javits Center, onde acontece a NRF, não saberia dizer se é um evento de varejo ou de tecnologia. Havia robôs que analisam e contam estoques sozinhos; câmeras capazes de ler cada um dos clientes e funcionários de uma loja, mapeando praticamente tudo que se passa nesse ambiente; havia drones de entrega de produtos (Google, sempre o Google) de forma automatizada, sem que haja a necessidade de controle humano desses dispositivos.

Em relação a ponto de venda, avança o mapeamento de produtos nos checkouts que não só dispensam os códigos de barras como fazem aqueles tracinhos parecerem algo de quando o Chacrinha era bebê.

Google, Amazon, T-Mobile, Microsoft, Shopify e dezenas (ou talvez uma centena) de participantes lideram essa grande revolução no varejo. A Inteligência Artificial não é o metaverso. Chegou, já é uma realidade e não vai mais voltar.

Se havia uma certa desconfiança sobre a longevidade da onda do e-commerce no início
dos anos 2000, como comentou Haw Lawton, CEO da Tractor Supply, não há essa dúvida quanto à inteligência artificial.

Ao mesmo tempo, as dificuldades do varejo, nesse mundo cada vez mais conectado, persistem. Obstáculos muito bem elencados em um debate sobre jornada do consumidor, com profissionais do Google e da Macy’s:

1. Equalizar a necessidade de venda em escala com a personalização do produto e da
comunicação. Como oferecer produtos e atendimentos personalizados para um grande
número de pessoas, gerando a rentabilidade necessária, mas valorizando a
individualidade?

2. Como ser relevante em todas as etapas da jornada do cliente, que tem a atenção cada
vez mais disputada por inúmeros apelos comerciais e sociais?

3. Como oferecer uma experiência de compra única, inclusive nos canais digitais,
mapeando e diminuindo toda e qualquer fricção (um drone que cruza os céus da cidade
para entregar um remédio, sem se submeter ao trânsito, é um exemplo);

4. Como receber feedbacks e inputs dos clientes e tratar esses dados de forma adequada
para que o processo de melhoria seja contínuo na experiência de compra?

5. Como conquistar a fidelidade do consumidor, que hoje tem acesso a uma gama de
marcas e produtos em todo o planeta, acirrando ainda mais a concorrência?

A notícia boa é que o tsunami da Revolução da Inteligência Artificial cada vez mais trará luz a essas questões, assim como novas oportunidades surgirão. A má notícia é que
aparecerão também outros obstáculos, igualmente desafiadores.

Foram três dias de debates, apresentações, painéis. Uma das poucas certezas que se tem
é que estamos diante de uma jornada. E jornada, ao contrário de uma corrida, não tem uma linha de chegada, não tem um vencedor. Cada dia é uma nova história.

Leia os outros artigos da série NRF
– Tem cearense na maior feira de varejo do mundo, a NRF, em NY
– Dia 2 da NRF: Com direito a 3 pontos do Magic Johnson, a lenda viva da NBA

Pádua Sampaio é publicitário, empresário, professor e colaborador do Focus.jor, no qual assina artigo às quintas-feiras e outros dias a depender dos acontecimentos.

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