Coisas estranhas. Por Angela Barros Leal

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Vamos caminhar na Beira-Mar – convida minha irmã ao telefone. São 4 e meia da tarde de uma terça feira, e o mundo reluz em amarelo e dourado do lado de fora da janela. Ainda faz calor, mas sabemos que em uma hora e meia o sol irá esfriar, como dizemos nós tão anticientificamente, despedir-se e ressurgir do outro lado do mundo.

Estou ocupada com o meu trabalho remoto, mas não o suficiente que não possa me desligar durante essa hora e meia, e descer para uma saudável caminhada. A atividade aeróbica que os médicos tanto prescrevem, acrescida dos pulmões inflados pelos benefícios do iodo marinho, seria tudo de bom.

Vou não – digo a ela, e entramos em um repetido diálogo, já conhecido de ambas, com argumentos positivos por parte dela, e recusas cada vez menos firmes da minha parte. Não vou, porque toda vez que desço na Beira-Mar, alguma Coisa Estranha acontece.

Foi assim quando decidimos caminhar até o Mercado dos Peixes, e um carro acelerou subitamente, cruzou a rua na diagonal, derrubou dois daqueles pequenos balizadores de cimento, e tentou escalar um poste. Lembra disso? – pergunto a ela, que não esqueceu a visão do veículo em ângulo de 45 graus, nem dos fios elétricos descendo em curva, como colares, de um poste a outro, do alto ao chão.

A gente só pegou o final da história – ela replica. O pessoal do Trânsito já estava lá.
É verdade. Mas não me dou por vencida.

E aquela vez que apareceu um tubarão faminto, ainda vi a ponta da barbatana dele, rondando as pedras ao lado do espigão onde a gente caminha, disseram que parecia um megalodonte – ataco.

Era um filhote de tubarão lixa – ela rebate. Um filhotinho, eu vi na TV.

E aquele outro dia, do bate-boca que vimos de longe entre a subcelebridade carioca e uma das vendedoras dos boxes de artesanato, caso clássico da Síndrome de Caramuru, que impele tantas criaturas não nordestinas a se julgarem deuses, e nos quererem prostrados diante de suas grandezas? – insisto.

Não deu em nada – ela rebate. Acabou tudo bem.

Ok – cedo aos argumentos dela. Vou, mas por sua conta e risco. Dou um pause no trabalho, troco de roupa, calço os tênis, e nos encontramos na esquina do Náutico.

Minha irmã não para de conversar. Eu olho em volta, alerta como um guerreiro em território inimigo. Vindo em sentido oposto, vejo uma moça jovem e bonita, sem o antebraço, caminhando descontraída com uma amiga.

Minha irmã não vê, ocupada em narrar mais uma de suas desventuras em cartórios, tema frequente de sua vida por esses dias.

Mais adiante, vejo uma mulher em uma cadeira de rodas. Falta a ela, à mulher, o pé esquerdo. A cadeira é empurrada com cuidado por alguém da família, com quem ela dialoga, ocupada em comer pipoca de um balde que traz ao colo.

Nada disso distrai minha irmã de seu monólogo em torno de procurações e petições.

Paramos para comprar tapioca, a minha com queijo e leite de coco, a dela simples, com um cafezinho. Enquanto aguardamos, sentadas em duas cadeiras oscilantes, vejo um dos muitos pombos, dos que cercam a carrocinha em busca das migalhas, saltitar sobre sua única e solitária pata cor de rosa.

Você viu? – questiono minha irmã, que toma tranquila o cafezinho. Ela nada viu.

Nem mesmo o urubu, negro como a noite, que achou de pousar em um dos balizadores de cimento, à minha esquerda, esperando Deus sabe o quê, os olhos oblongos em sua cabeça estreita na altura dos meus olhos, indiferente até mesmo ao homem que se aproximou, rindo, para fazer uma selfie com a ave carniceira.

Viu como não aconteceu nada? – celebra minha irmã quando retornamos à esquina do Náutico, ao final da caminhada, o sol já desaparecido na risca do mar.

Volto para casa tentando estabelecer qual a ligação existente entre o que vi, da vida vibrando, apesar da ausência de pés e braços e patas, do abutre estático e deslocado, esquecido de seus voos de planadores, da cegueira temporária de minha irmã. E a cada passo, fico mais certa de que esse passeio, sim, vai entrar na minha lista de Coisas Estranhas que acontecem quando desço para a Beira-Mar, a ser apresentado como argumento no próximo convite que minha irmã vier a fazer.

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