Proficiência médica: um debate necessário; Por João Macedo Coelho Filho

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O cenário atual da formação médica no Brasil reflete, sobretudo, a forma como as políticas públicas educacionais e de saúde são concebidas e implementadas no país, traduzindo-se na dificuldade recorrente de construir decisões convergentes, ancoradas em evidências, orientadas por critérios técnicos e sustentadas por planejamento de longo prazo, capazes de enfrentar problemas estruturais.

Era amplamente previsível que a expansão acelerada e desordenada de escolas médicas, muitas delas sem infraestrutura adequada e obedecendo a critérios nem sempre técnicos, resultaria na precariedade da formação de parte dos profissionais nelas graduados. Ainda assim, o problema foi sendo tolerado e postergado, sem enfrentamento consistente.

Diante desse cenário, a decisão do Ministério da Educação (MEC) de avaliar a formação médica por meio do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) apresenta-se como correta e necessária. Ao confirmar aquilo que já era esperado, o Enamed trouxe à tona um desafio concreto: o que fazer com cerca de 13 mil concluintes classificados como não proficientes para o exercício da profissão?

Alguma estratégia, por certo, precisa ser pensada antes que esses concluintes recebam o registro profissional para exercer a medicina. Esse debate deve ocorrer de forma sensata, e quaisquer medidas a serem adotadas precisam preservar a dignidade dos egressos, sem estigmatização, ao mesmo tempo em que assegurem a proteção da sociedade e a qualidade da assistência em saúde.

Embora a maior parte dos concluintes sem proficiência esteja concentrada em cursos avaliados nas faixas 1 e 2 — majoritariamente instituições privadas —, cerca de 6% desses estudantes pertencem a escolas que obtiveram conceitos de excelência (faixas 4 e 5). Isso indica que a questão da proficiência não se restringe a um tipo específico de instituição, mas constitui um desafio que deve ser incorporado à agenda de todos os educadores médicos, independentemente da natureza administrativa da escola.

Outro ponto central é a necessidade de fortalecer o acompanhamento e a avaliação das próprias escolas, e não apenas dos estudantes. Instituições sem infraestrutura adequada, com fragilidades em seus projetos pedagógicos ou em seus campos de prática apresentam maior probabilidade de formar profissionais sem a proficiência esperada. Intervir nessas escolas de forma precoce é, portanto, mais eficaz do que lidar, a posteriori, com os efeitos de uma formação deficiente.

Por fim, impõe-se a pergunta que não quer calar: o ritmo atual de abertura de cursos e ampliação de vagas será mantido? Continuaremos autorizando a criação de novas escolas e o aumento de vagas, seguindo os mesmos processos e critérios? Ou chegou o momento de pausar, refletir e recolocar a qualidade da formação médica no centro das decisões de políticas públicas?

João Macedo Coelho Filho é Diretor da Faculdade de Medicina da UFC. Fez Residência em Clínica Médica no Hospital Universitário Walter Cantídio, tem Mestrado em Epidemiologia pela Universidade Federal de São Paulo, Fellowship em Geriatria pela University of Oxford, Reino Unido, e Doutorado em Farmacologia pela UFC.

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