Recolho a pena de palpiteiro; Por Paulo Elpídio de Menezes Neto

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Venho negociando comigo mesmo o próximo passo, em seguida a tantas e reiteradas intenções declaradas para o que se poderia chamar de adoção de conveniente silêncio obsequioso. De “obsequioso”, guarde-se o apelo de evidente inspiração teológica que o vocábulo sugere. Obsequioso é, afinal, o que se cultiva, calando-se, para não despertar remorços por fraqueza eventual, esquiva simulação ou por mera insegurança e medo.

As palavras, o equilíbrio sintático, as sobras de vigor racional e lógico, os conceitos e definições, parecem ter
perdido substância e significado em face dos cenários em que fomos enredados nestes anos recentes.

A dúvida e a suspeita tolhem qualquer esforço legítimo para a compreensão da realidade que a nossa consciência moral aponta como a verdade na qual pretendemos crer. Dos fatos e da realidade de que somos servidos, o pressentimento de uma verdade relativa e de mentira contumaz que os contamina (as fake e as truth thinking) retira-lhes a compostura e a credibilidade.

O medo fez calar os bons e as criaturas sensatas, porém concedeu voz e poder aos néscios e ignorantes. Dos medíocres fez agentes do poder público e lhes conferiu precedência nas instâncias do governo. Os sentimentos de solidariedade e as afeições seguiram a polarização ideológica de instintos primários.

Assistimos a ampliação dos controles sobre as manifestações comezinhas da Liberdade, conformamo-nos com a redução dos espaços de juizamento e de opinião. Seguimos, como no passado, assujeitados ao autoritarismo, sob a ameaça de um Estado totalitário em franca construção. E a tudo e por tudo assistimos e calamos.

Como cidadão participante que tenho sido, recolho-me às minhas próprias circunstâncias. O meu silêncio e o de mais outras pessoas, pressionadas pelas mesmas condições, assumo-os com relutância. De temas mais leves, conquanto relevantes, continuarei, entretanto, a ocupar-me. Haverá sempre alguém disponivel para essas aventuras descuidadas da leitura.

Poucos, dentre os que ocasionalmente me leem, perceberão essa saída discreta. Melhor assim.

Paulo Elpídio de Menezes Neto é articulista do Focus, cientista político, membro da Academia Brasileira de Educação (Rio de Janeiro), ex-reitor da UFC, ex-secretário nacional da Educação superior do MEC, ex-secretário de Educação do Ceará.

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