Neutralidade ou vulnerabilidade? O dilema da política externa brasileira em um mundo em tensão. Por Aldairton Carvalho

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Por Aldaiton Carvalho

Durante décadas, a neutralidade foi tratada como uma virtude da política externa brasileira. Em um sistema internacional marcado por disputas entre grandes potências, manter distância de conflitos, preservar canais de diálogo e evitar alinhamentos rígidos parecia não apenas prudente, mas estratégico. Essa postura ajudou a consolidar a imagem do Brasil como mediador confiável, defensor do direito internacional e promotor de soluções pacíficas.

Hoje, o mundo está diferente e esse posicionamento não mais pode ser visto da mesma forma. A guerra deixou de ser apenas militar e passou a operar também nos campos econômico, tecnológico e financeiro. Sanções, restrições comerciais, controle de cadeias produtivas e disputas por domínio tecnológico transformaram o ambiente global em um espaço de escolhas inevitáveis. Nesse cenário, a neutralidade começa a perder eficácia e, em alguns casos, passa a representar uma forma silenciosa de vulnerabilidade.

A história da diplomacia brasileira mostra que essa neutralidade nunca foi absoluta. Durante a Guerra Grande, no século XIX, conhecida no Brasil como Guerra Contra Oribe e Rosas, o país adotou uma postura oficialmente distante do conflito na região do Prata, mas interveio quando seus interesses estratégicos foram ameaçados. Já na Guerra das Malvinas, em 1982, o Brasil declarou neutralidade, mas inclinou-se, na prática, a favor da Argentina, oferecendo apoio logístico e diplomático.

Mais recentemente, na guerra entre Rússia e Ucrânia, o país optou por uma posição pública de equilíbrio, evitando condenações diretas mais duras ou alinhamentos explícitos. A justificativa passa por fatores econômicos, como a dependência de fertilizantes russos e pela tradição diplomática de não intervenção. Ainda assim, analistas apontam que essa neutralidade contemporânea é mais retórica do que efetiva.

O problema é que o século XXI vem reduzindo o espaço para esse tipo de ambiguidade. A crescente rivalidade entre Estados Unidos e China, a reorganização das alianças militares e o avanço de conflitos híbridos tornam cada vez mais difícil “não escolher lados”. Mesmo decisões aparentemente técnicas, como adotar um sistema tecnológico, estabelecer parcerias comerciais ou definir padrões regulatórios, carregam implicações geopolíticas.

Na prática, a neutralidade deixou de ser um território confortável. Países que tentam manter equidistância entre grandes potências frequentemente descobrem que já estão inseridos em zonas de influência, seja por dependência econômica, tecnológica ou institucional. A ausência de posicionamento claro pode gerar desconfiança e reduzir a previsibilidade, um ativo essencial nas relações internacionais.

Há ainda um fator frequentemente ignorado: a neutralidade exige alto grau de coesão interna e capacidade de resistir a pressões externas prolongadas. Em um ambiente global polarizado, poucos países conseguem sustentar essa posição sem sofrer custos políticos ou econômicos relevantes.

Isso não significa que o Brasil deva abandonar sua tradição diplomática ou aderir automaticamente a blocos de poder, mas transformar prudência em estratégia ativa. Ser prudente não é se omitir, mas avaliar riscos, definir prioridades e agir com clareza quando necessário.

A insistência em uma neutralidade ampla e permanente pode limitar a ambição brasileira de maior protagonismo global. Potências relevantes não se destacam apenas por sua capacidade de dialogar com todos, mas por sua disposição de assumir posições, ainda que calculadas.

Em um mundo mais instável, a neutralidade deixa de ser apenas uma escolha e passa a ser um risco. Países que evitam decisões estratégicas podem acabar submetidos às decisões dos outros, não por imposição direta, mas por dependências silenciosas que moldam seu espaço de atuação.

Para o Brasil, a questão central não é escolher entre neutralidade ou alinhamento automático, mas redefinir sua inserção internacional. Isso implica reconhecer que a clareza estratégica, hoje, vale tanto quanto a capacidade de negociação.

A neutralidade, como mito confortável, pode persistir no discurso. Mas, na prática, o mundo já não oferece espaço amplo para quem pretende permanecer à margem das disputas centrais. Em tempos de tensão global, não decidir também é uma decisão, e, muitas vezes, a mais arriscada.

Aldairton Carvalho é advogado, pós graduado em Ciência Política, mestrando em Ciência Política pela Universidade de Lisboa, presidente do IBGOV- Instituto Brasileiro de Governança e CEO da Infinity Tokens tecnologia.

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