Você confia ou não confia nas seguintes instituições

Fonte: AtlasIntel/Estadão. Pesquisa realizada de 17 a 21 de setembro de 2026, com 1.852 respondentes, população adulta brasileira, por recrutamento digital aleatório (Atlas RDR). Margem de erro de ±2 pontos percentuais, com nível de confiança de 95%

Há um dado da pesquisa AtlasIntel (contratada pelo Estadão) que merece ser olhado com atenção. A Polícia Civil aparece como a instituição de maior confiança entre todas as avaliadas, com 60%. A Polícia Federal tem 55% e a Polícia Militar, 50%. A Igreja Católica também registra 50%.
O resultado ganha ainda mais significado quando colocado diante de uma realidade conhecida por todos: a insegurança pública está entre as maiores preocupações do brasileiro.
Existe, portanto, uma aparente contradição. De um lado, a polícia é frequentemente submetida ao escrutínio da imprensa e da sociedade, sobretudo diante de operações, abordagens e episódios em que há suspeita ou comprovação de excessos. De outro, quando o brasileiro é perguntado sobre em quais instituições confia, as polícias aparecem no topo.
Talvez exista aí uma mensagem que o debate público precise compreender melhor.
Criticar o erro policial é uma obrigação de uma sociedade democrática. Mas valorizar o policial que cumpre corretamente sua missão também deveria ser.
A grande maioria dos policiais civis e militares está todos os dias nas ruas, exposta a riscos que fazem parte da profissão. São profissionais que atendem ocorrências, protegem pessoas, enfrentam situações de violência e, muitas vezes, são chamados justamente quando todas as outras alternativas já falharam.
Por isso, resgatar a autoestima das polícias não é um gesto corporativo. Pode ser uma política de segurança pública.
O policial precisa ser incorporado ao cotidiano do cidadão como uma âncora de proteção e confiança, e não aparecer apenas no momento da ocorrência ou da controvérsia. A relação cotidiana entre polícia e sociedade é parte da própria construção da segurança.
E há um dado objetivo que não deveria ser desprezado: a população parece preservar uma reserva importante de confiança nas polícias, mesmo em um ambiente de forte cobrança institucional.
A pesquisa ouviu 1.852 brasileiros adultos entre 17 e 21 de setembro, por meio do sistema de recrutamento digital aleatório Atlas RDR. A amostra foi pós-estratificada por sexo, idade, escolaridade, renda, região e comportamento eleitoral anterior. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com 95% de nível de confiança.
O dado, portanto, não pede uma polícia acima da crítica. Pede algo mais simples e talvez mais difícil: uma sociedade capaz de cobrar seus policiais quando necessário, mas também capaz de reconhecer aqueles que fazem corretamente um trabalho essencial.
No debate sobre segurança, confiança também é patrimônio público.
Um drama democrático no Congresso
Há um dado que merece uma atenção especial: apenas 8% dos brasileiros dizem confiar no Congresso Nacional. É, de longe, o menor índice entre todas as instituições pesquisadas. Ao mesmo tempo, 81% afirmam não confiar no Parlamento.
É difícil não enxergar aí um drama democrático em curso. O Congresso é a instituição que expressa, por excelência, a representação política da sociedade. E esse resultado aparece justamente em um momento em que as duas Casas legislativas estão diante de um processo de renovação pelo voto popular.
A eleição pode mudar a composição do Parlamento. Mas há uma questão anterior: a dimensão da crise de confiança na própria instituição. O dado não autoriza concluir que o brasileiro rejeite a democracia ou a representação parlamentar. Autoriza, sim, constatar que existe uma distância extraordinária entre o cidadão e o Congresso que precisa ser compreendida.
É uma distância que não se resolve apenas com troca de nomes. Recuperar confiança é, antes de tudo, uma questão de funcionamento, representação, transparência e capacidade de o cidadão reconhecer no Parlamento uma instituição que faça sentido em sua vida cotidiana.
E as igrejas evangélicas?
Outro número que chama atenção, talvez até mais do que se poderia imaginar, é o das igrejas evangélicas. Apenas 33% dizem confiar nessas instituições, enquanto 50% afirmam não confiar. O resultado coloca as igrejas evangélicas entre as instituições com menor nível de confiança na pesquisa, acima apenas do Congresso Nacional.
É um dado particularmente interessante porque a presença evangélica na sociedade brasileira é ampla e sua influência no debate público é conhecida. Ainda assim, quando a pergunta deixa de ser sobre identidade religiosa e passa a ser sobre confiança institucional, o resultado é bastante diferente do que talvez se pudesse supor.
Há aqui uma distinção importante: a pesquisa mede confiança na instituição, não religiosidade, fé ou pertencimento religioso. Uma coisa não necessariamente traduz a outra.
E talvez seja justamente essa a chave para compreender o resultado. A sociedade brasileira continua profundamente marcada pela religião, mas isso não significa que transfira automaticamente essa relação de fé para as instituições religiosas.
No conjunto, a pesquisa produz um retrato curioso do Brasil: as instituições mais próximas da vida concreta do cidadão, como as polícias, preservam níveis elevados de confiança; as instituições do poder político, especialmente o Congresso, encontram-se no extremo oposto. E, entre esses dois polos, as igrejas também enfrentam uma perda significativa de crédito institucional.







