Nordeste no banco dos réus: 27 milhões de ataques em três dias

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Foto: Reprodução/UOL

O número assusta — e deveria constranger: levantamento da Ativaweb DataLab aponta que 27 milhões de manifestações hostis ao Nordeste e aos nordestinos foram registradas nas redes sociais nas primeiras 72 horas após o 1º turno.

Foram 32,8 milhões de menções, links e compartilhamentos relacionados ao voto nordestino. Desse total, 82,2% tinham conteúdo crítico à região. É uma média de 456 mil manifestações por hora, ou 7.600 por minuto.

Não foi apenas crítica política

O estudo mostra que a onda ultrapassou a divergência sobre candidatos e resultados eleitorais. O discurso identificado associou nordestinos à pobreza, dependência, ignorância, fraude eleitoral e inferioridade.

Entre as manifestações classificadas como hostis, aparecem:

  • 26,9% — vergonha e autodepreciação;
  • 22,1% — associação com pobreza e dependência;
  • 18,3% — ataques à capacidade intelectual;
  • 12,5% — desumanização;
  • 12,5% — defesa de segregação territorial.

É aqui que a discussão muda de patamar. Criticar o voto é parte da democracia. Transformar milhões de brasileiros em alvo por causa do lugar onde nasceram é outra coisa.

O dado que mais incomoda

O estudo identificou também manifestações de próprios nordestinos reproduzindo o discurso de desprezo contra a região, com frases de vergonha da própria origem.

É um fenômeno especialmente preocupante porque o preconceito deixa de ser apenas uma agressão externa e passa a ser reproduzido pelo próprio grupo atingido.

Por que isso importa

O resultado eleitoral pode — e deve — ser debatido. Voto se critica. Governo se critica. Candidato se critica. Ideologia se critica.

O que não pode ser confundido com crítica política é a tentativa de transformar uma região inteira em caricatura eleitoral.

O Nordeste não é um eleitorado homogêneo. São nove estados, centenas de municípios e milhões de brasileiros, com escolhas políticas diferentes, histórias diferentes e interesses muitas vezes divergentes.

A democracia não termina quando o eleitor vota diferente. É justamente aí que começa o teste de tolerância de quem perdeu — e de responsabilidade de quem ganhou.

Vá mais fundo: o levantamento da Ativaweb DataLab foi baseado em dados públicos de Facebook, Instagram, TikTok, X, Kwai e comentários do YouTube. Os números representam o universo monitorado pelo estudo e sua classificação de conteúdo; não significam que todas as manifestações críticas tenham sido produzidas por uma mesma organização ou coordenação.

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