
À memória de Gregório Bezerra.
Mire veja: sete décadas de Grande Sertão: Veredas, 1956.
Imaginar apagando esse livro de nossas letras? Nonada. Seria irreparável. O livro repousa no Pico da Neblina da nossa literatura. Uma pessoa, uma apenas, fala no livro: Riobaldo. Página por página, Riobaldo inteiro contando sua vida.
Riobaldo carrega na alma o batismo de fogo das tropas de jagunços, repassa a um visitante sua história, no sossego folgado da fazenda. O visitante escuta. Nada fala. Nada sabemos desse ouvinte, exceto seu estofo de “toda leitura e suma doutoração”.
Adiante me ocorre: o outro, o anônimo ouvinte, meu caro, é você. Sou eu mesmo. Guimarães Rosa toma assento ao nosso lado; escritor realizado, vai nos mostrar sua obra-prima, na voz de Riobaldo, e Riobaldo é personagem indelével em nossa memória.
A cláusula primeira de um diálogo – gostaria de deixar registrado – não seria a que, qualquer que seja nosso eventual interlocutor, não falamos, no existencial, é para nós mesmos? O ouvinte primeiro não é exatamente aquele que fala, aquele cuja necessidade do conteúdo escolhido, conteúdo denso ou de ocasião, reflete-o? “O senhor é de fora, meu amigo mas meu estranho. Mas talvez por isto mesmo. Falar com o estranho assim, que bem ouve e logo longe se vai embora, é um segundo proveito: faz do jeito que eu falasse mais mesmo comigo”.
Falamos para nós mesmos, incontornável imperativo a nos percorrer, conscientes ou não. Caso atentos, nos chega estalo, indício inesperado, associação, resistência, acúmulo que afinal descortina. Molda nossa identidade no decurso da vida. Espelho que, quem sabe, se torna aliado.
Minas Gerais. 1908. Cordisburgo. Em 27 de junho nasce, na casa contígua à mercearia do jovem Florduardo, o primeiro filho do casal. Chiquitinha é sua mãe, então aos dezesseis anos. Trisavô seu chegou ao Brasil vindo de Guimarães, Província do Minho, de onde nasceu Portugal. Bisavó sua, Graciana, negra, foi escrava. A homenagem do bisneto tinhoso: o nome dela, da bisavó, projetado em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras.
“O espírito sopra onde quer”, expressão bíblica (João 3,8) consagrada pelo uso popular. E o espírito soprou gosto naquela criança. Desde cedo apaixonou-se pelos livros. Lia, devorava, seguidos livros, como quem quer de tudo saber.
Ao mesmo tempo saboreava prosas e prosas de moradores e viajantes que passavam pela mercearia do Seu Florduardo, seu pai, os cheiros de mercearia, as vozes nutrindo seu imaginário.
O avô materno, de mais recursos dispondo, deu-se conta do gênio e da determinação do neto. O avô aposta no neto.
Partiu em busca da capital, Belo Horizonte, ao seu lado a criança, aos nove anos de idade. João chorou ao deixar a mãe, o lar, doce lar. Partiu para Belo Horizonte. E estaria destinado a perlustrar o Mundo.
Aos 16 anos entra na Faculdade de Medicina. Aos 22 forma-se médico, casa com Lygia, vai morar no interior de Minas. Nascem suas duas filhas. Aos 26 anos é aprovado no concurso do Itamaraty. Aos 29 anos vai a seu primeiro posto em outro país, Alemanha, macabramente ensandecida.
Apaixona-se na primeira semana por brasileira, funcionária do Consulado, Aracy, mulher companheira, com quem a partir daí para sempre viveu. Oferece-lhe Grande Sertão: Veredas — “A Aracy, minha mulher, Ara, pertence este livro”. Escreve cartas de amor: “sempre a minha Vênus, a minha cocaína, o diabinho carnal que se apoderou da minha pele”.
Juntos, em corajosos atos, contrariando tenebrosa atmosfera, garantiram dezenas e dezenas de vistos a judeus em risco, transformando exceção burocrática em regra de solidariedade.
No Rio, esteve à frente da Chefia do Gabinete do Chanceler, prestigiosa posição na carreira. Depois designado para servir em Paris. Pela caneta de seu amigo JK é promovido ao mais alto posto da carreira, Embaixador.
É eleito à Academia Brasileira de Letras. Em 1967, aos 59 anos de idade, seu coração parou: partiu ao outro lado do tempo.
Vida repleta. Marido apaixonado. Pai que mesmo divorciado acompanhou as duas filhas. Filho amigo do pai, com quem manteve diálogo corrente, a quem perguntava pela mercearia, pelas pessoas, pelas conversas. Diplomata pontual. Colocações destacadas dentro do Itamaraty.
Bastava.
Mas que nada, o homem queria mesmo era escrever livros. Desde cedo sabia-se escritor. Veio ao Mundo e ao Brasil decretado ao destino de escritor. “porque: passarinho que se debruça — o voo já está pronto!”.
Onde arrumou tempo para escrever sua prodigiosa obra?
Onde arrumou energia para escrever sua prodigiosa obra?
Elegantíssimo, excêntrico, reservado, simpático, observador de pouca fala, riso aberto: equilibrava-se bem entre a dimensão cotidiana e a dimensão existencial.
Exigentíssimo consigo mesmo ao escrever. Nasceu com alergia à flor da pele, alergia ao mau uso da linguagem, ao falar banal. Escrever, miraculosa arte. Exuberante. Ousado. Profícuo. Enigmático.
Linguagem-inconsciente, dupla entrelaçada, entidades que guardam linha direta; elucidadora conclusão da Psicanálise, esse fértil campo do conhecimento.
Não sei qual o seu grau de concordância sobre esse entrelaçamento entre linguagem e inconsciente. Entretanto, sei, sim, que a linguagem, o estilo de falar e escrever, joga luz sobre a pessoa.
E Grande Sertão: Veredas é o máximo de nossa prosa poética, arrojada inspiração de estilo:
“O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, desassossega depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”.
Riobaldo vive aberto nos largos horizontes do sertão. “Desespero quieto às vezes é o melhor remédio que há. Que alarga o mundo e põe a criatura solta. Medo agarra a gente é pelo enraizado”.
O impulso é continuar aqui transcrevendo excertos espalhados pelo livro que me regozijaram e que memorizei. O que me vem primeiro são aqueles trechos da relação de Riobaldo com seu padrinho-pai, Selorico Mendes, que, ao final, deixou-lhe em testamento a fazenda; e tanto quanto sua relação com seu perene-doce-proibido-desejado amor: Diadorim.
A tensão do amor irrealizado no mais pungente encontro entre duas pessoas: o encontro dos corpos.
Entretanto, não é o caso. Esse inventário classificado por temas nos foi presenteado em precioso capítulo de inspirado livro, “A confissão na literatura”, de autoria de Marcelo Navarro Ribeiro Dantas.
Aqui passo ao que é para mim o ponto crucial de Grande Sertão: o julgamento. O julgamento suscitando questões universais.
Quem será julgado? O líder de grupo adversário, Zé Bebelo, capturado vivo por outro bando, o qual Riobaldo integra.
Quem dispõe de competência para julgar o homem capturado? Todos os jagunços, de diferentes grupos, reunidos sob o comando de Joca Ramiro, participam, com voz assegurada na sessão de julgamento.
O veredito, ao final, é de Joca Ramiro, o Chefe dos chefes.
O livro todo nos transmite o depoimento de Guimarães Rosa sobre a sabedoria das pessoas simples. É o pressuposto do livro. Então vamos ver como se comporta essa suposta manifesta sabedoria no grave momento de julgar outra pessoa.
E aqui peço licença para lembrança pessoal: convivi de perto com pessoas simples do interior do Ceará, quando advogado do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Redenção. O que constatei, o que permaneceu na memória, materializa-se na parcimônia e na resistência dessas pessoas simples. No seguir em frente, apesar de tudo. São naturalmente impregnadas desses atributos: necessidade da vida. E nelas, o pouco é muito. Estar desperto lhes é decisivo.
Este é Riobaldo. Riobaldo observa. Riobaldo não se demite da faculdade de pensar. De tirar suas conclusões.
À semelhança, nessa perspectiva, vem-me de pronto meu tão querido Presidente do Sindicato, Pedro Fernandes, com quem aprendi, a quem atribuo o título de Professor, o mesmo atribuído a Riobaldo.
De onde lhes vem tanta sabedoria?
Imagino meu pai, Luís, antropólogo que nos idos de 1967 nos levou para morar um ano em uma aldeia pesqueira do Ceará, Almofala, lendária Almofala, onde os ventos cobriram a Igreja, onde o mar transmite a amplitude negada pelas condições sociais, onde os índios tremembés dançavam seus rituais. Tenho certeza de que faria depoimento nessa perspectiva das pessoas simples. O acervo fotográfico, vencedor, tempos depois, de prêmio, nos transmite a fisionomia dessas pessoas, nos transmite toda uma época de pequena comunidade pesqueira. Tendo partido cedo, deixou-nos o diário de campo de antropólogo e seu livro, “Almofala: trabalho e subsistência em uma aldeia pesqueira”.
Assim, tendo essa história pessoal comigo, li Grande Sertão: Veredas.
Essa sabedoria prevaleceu no julgamento de Zé Bebelo, esse grave intervalo naquele cotidiano de armas e combates corpo a corpo.
A primeira intervenção decisiva de Riobaldo (que convivera com Zé Bebelo em outra fase de sua vida) é quando evita em um grito a execução sumária de Zé Bebelo.
Forma-se sessão de julgamento, “para mais de uns quinhentos homens” (no julgamento de Sócrates, o júri era composto de 501 cidadãos atenienses) de tendências não coincidentes, de grupos vários, formam círculo. Zé Bebelo, o que está sendo julgado, senta em frente ao juiz, aquele a quem compete o veredito, Joca Ramiro.
Vou resumir aqui páginas desse julgamento.
Inicialmente, o réu toma a palavra e advoga em causa própria:
“Reajo é com protesto. Rompo embargos! Porque acusação tem de ser em sensatas palavras – não é com afrontas de ofensa de insulto”.
Joca Ramiro inicia o ritual com luzes de razão: “Agora é a acusação das culpas. Que crimes o compadre indica neste homem?”
O compadre responde: “Crime? … Crime não vejo. É o que acho, por mim é o que declaro: com a opinião dos outros não me assopro. Que crime? Veio guerrear, como nós também. Perdeu, pronto! A gente não é jagunços?”.
A palavra é concedida a quem uso dela queira fazer.
Dois chefes de grupos, parceiros, apresentam convincente discurso requerendo pena de morte. Era o resultado provável, ia dizendo natural, afinal a atmosfera era de guerra, de perigos, de mortes, de eliminação.
A tranquilidade do julgador: “Joca Ramiro era homem de nenhuma pressa”.
Riobaldo, para surpresa dele mesmo, vai se pronunciar, iniciando por ressaltar sua anterior proximidade com o réu, digamos, seu dever de revelação:
“Eu conheço esse homem bem, Zé Bebelo. Estive do lado dele, nunca menti que não estive, todos aqui sabem”.
Depois o argumento maior: a grandeza dos que ali estão, daquela assembleia:
“A guerra foi grande, durou tempo que durou, encheu este sertão. Nela todo o mundo vai falar, pelo Norte dos Nortes, em Minas e na Bahia toda, constantes anos, até em outras partes…..Vão fazer cantigas, relatando as tantas façanhas. Pois então, xente, hão de se dizer que aqui na Sempre-Verde vieram se reunir os chefes todos de bandos, com seus cabras valentes, montoeira completa, e com o sobregoverno de Joca Ramiro – só para, no fim, fim, se acabar com um homenzinho sozinho – se condenar de matar Zé Bebelo, o quanto fosse um boi de corte? Um fato assim é honra? Ou é vergonha?”
O primeiro ponto: o homem capturado deixa de ser inimigo e passa a ser réu.
E a voz dos romanos chega-me: “Reus sacra res est”. (O réu é coisa sagrada).
Não mais sendo inimigo, a vingança subsiste mas não é o mais alto sentimento. A civilização vai abrindo seu espaço.
O veredito prolatado por Joca Ramiro: a pena do réu Zé Bebelo é deixar o cangaço e ir embora para Goiás.
Aqui duas altas perspectivas.
A primeira: os vencedores um dia serão julgados.
Segunda: nosso projeto social não pode ser vingança.
Na história brasileira: Gregório Bezerra, o camponês nordestino que por milagre não feneceu de fome na infância, “homem feito de ferro e de flor”, foi feito inimigo pelo Exército e arrastado pelas ruas de Recife, amarrado em um corda puxado por jeep, logo depois do golpe de 64, espetáculo dantesco que macula nossa instituição. Era o inimigo odiado. Era o militante social odiado. A casa-grande esmagando a senzala. A medicina não entende como ele sobreviveu, tamanha foi sua tortura.
O binômio “amigo-inimigo”, na política, não foi o escolhido por Carl Schmitt, o genial teórico jurídico do nazismo?
Acontecimento histórico com delineamento próximo: o Rei Luís IX da França, São Luís, foi capturado pelos inimigos sarracenos (árabes) em uma das cruzadas.
Jacques Le Goff, o medievalista por excelência, na biografia que escreveu sobre São Luís, destaca esse cárcere: “a mais vexatória situação que poderia ocorrer a um Rei: ser capturado vivo pelo inimigo”.
E olhem que ele, líder da Cruzada, era o invasor, o devastador. Os bárbaros gauleses…Passou um mês preso, maravilhou-se com a biblioteca dos árabes, foi bem tratado… ao final de negociações, de contrapartidas, foi liberto.
As cruzadas eram (e continuaram a ser depois desse episódio) refratárias, como regra, salvo raras exceções, a qualquer diálogo. Era matar e tomar as terras, “conquistar a Terra Santa”. São Luís veio a morrer em outra Cruzada. Difícil a vida ensinar a um rei….eis o rei morto em terra infiel.
Quem foi o bárbaro? O árabe invadido que poupou o invasor capturado? Quem foi o civilizado? O francês que se armou para tomar as “terras santas”?
Hiroshima, 6 de agosto de 1945. Nagasaki, 9 de agosto de 1945. A Guerra de fato havia acabado.
O Japão, embora ainda não se tivesse formalmente rendido, estava nocauteado no chão.
A população civil japonesa foi vista como inimiga e foi assassinada, foi colocada nas labaredas do inferno.
Riobaldo via a imagem do grupo no futuro.
Os americanos queriam ser os donos do futuro, os senhores do planeta.
A devastação da bomba atômica era menos a vingança, menos o passado, mais o futuro, o futuro deles; mais a ameaça sobre todos, sobretudo aos russos, e a inauguração de nova era.
Do mais, Hollywood imporia sua versão a nós outros, telespectadores infantis.
E quanto à regra – intacta à prova do tempo – de que os vencedores um dia também serão julgados? A resposta americana é: e daí?
John Rawls escreveu célebre texto em 1995: “Cinquenta anos após Hiroshima”, rebatendo cabalmente a fantasiosa necessidade da bomba. “O grande erro moral dos EUA”. “Injustificável”.
Lampião, o cangaceiro, movido por vingança pessoal, por fato pessoal que o marcou, que foi injustiçado, criou marca própria: a crueldade. Queria ser o Estado, que ilusão.
Lenin conseguiu ser o Estado: o assassinato de seu queridíssimo irmão mais velho pelo Tsar, movia-o: “vou por outro caminho”.
O caminho de seu irmão foi o terrorismo, primeiro impulso de quem quer tentar golpes. E foi mesmo por outro caminho. Tornou-se Estado e fuzilou toda a família do Tsar (outro Tsar, não aquele que ordenou a morte de seu irmão) incluindo as crianças. Concluiu sua vingança pessoal, revestida do discurso marxista.
Outra situação clássica sobre o arbítrio, em momento grave, de poderosos: Antígona e Creonte.
Os direitos humanos, inafastáveis, contrapondo-se às razões de Estado.
Antígona via-se no dever e no direito de sepultar seu irmão, as honras fúnebres, as quais garantiriam ao morto a entrada no outro reino. Creonte, o poderoso, era implacável: não haveria sepultamento, o morto havia atentado contra o poder.
Hegel, ao analisar o caso, nos ensina que o trágico reside exatamente na irreconciliação dessas duas vertentes: de um lado o direito pré-polis, sagrado; de outro lado as razões de Estado.
Hoje deu-se revolução copernicana: o Estado tem obrigação de garantir os direitos fundamentais.
Ocupando vara federal competente para execução penal, jamais neguei ida de preso a sepultamento de familiar: estava diante do mistério da vida, intangível.
E o Tribunal de Nuremberg, composto pelos vencedores? O julgamento exigiu fatos precisos, graves e prova de autoria.
Dos 22 réus julgados, 3 foram absolvidos. 12 foram condenados à morte. 3 foram condenados à prisão perpétua. 4 foram condenados à prisão entre dez e vinte anos.
Cabe lembrar que esse julgamento ocorre – após – Hiroshima e Nagasaki.
O nazista Adolf Eichmann vivia fugido, debaixo de outro nome, na Argentina.
Em 1960 é abduzido pelo Estado de Israel: não existe mais fuga. Julgado. Condenado à morte.
Ok Hannah Arendt, presente no julgamento, cunhou a expressão “banalidade do mal”, tão comentada: a indiferença do burocrata. A indiferença é “a rejeição à humanidade comum”. O objetivo do burocrata passa a ser a sobrevivência da instituição e dele mesmo.
Um outro lado desse julgamento em Grande Sertão: a semelhança com o nosso tribunal do júri.
A pedra de toque que inspira a origem do julgamento pelo júri: ser julgado por iguais.
Somente os iguais entendem humanamente nossos motivos. Radicalmente: somente os iguais dispõem de competência para julgar alguém.
E esse ponto é inafastável na formação de um juiz, evitando-se a primeira, difusa, indemonstrável tecnicamente, parcialidade.
A condenação pelo tribunal do júri exige prova do crime cometido.
A absolvição pode vir mesmo provado o ato na lei tipificado como crime. Eis a soberania do júri.
O juiz singular dispõe também dessa soberania, tanto quanto, sob o pressuposto da fundamentação.
Pode existir prova do fato e da autoria. E mesmo assim o ato em exame não ser crime, na perspectiva dos valores constitucionais.
E aqui necessita-se do lastro argumentativo, cada dia mais raro, porque a cada dia o juiz criminal, azafamado, contenta-se com a mecânica da subsunção, acomodando-se aos parâmetros da mais simplória IA.
Situação existencial aflitiva, acusação criminal com possibilidade de perder a liberdade, estigma, é tratada como questão lógica.
“Lógico pode significar o que é corretamente coerente com os pressupostos”. “Faltam ao lógico a indicação e o peso do verdadeiro”. “O apelo de lógico é em toda parte sinal do pensamento que não pensa” (Heidegger, “Heráclito”, editora Relume Dumará, p. 126).
Onde deveria, de maneira decisiva, ter início a fase nobre do julgamento, a saber, se a conduta provada merece, na perspectiva constitucional, condenação, encerra-se o caso.
E vejam que essa perspectiva há de ser considerada, caso haja condenação, na fixação da pena.
A redução – e a fragmentação – levam ao vazio da verdade. Toma-se o fragmento pelo todo.
A verdade requer mais, requer contexto, requer ampliação.
Lembro aqui um caso que julguei. Não participei da instrução. Os autos chegaram-me na fase de conclusão. A acusação era de fraude ao seguro-desemprego. Estava provado que o réu durante três anos cometeu essas fraudes, sempre pequenas fraudes, ganhando, com elas, o correspondente a aproximadamente dois salários mínimos por mês.
Entretanto, não condenei o réu.
O réu foi empregado em uma fábrica. Foi despedido. Partiu para extrair o sustento de sua família (quatro filhas) no lixão. Estava havia quatro anos assim. O lixão foi fechado. Mais uma vez viu-se desempregado. Engendrou essas fraudes, sempre de modesto valor.
Transcrevo aqui parte da argumentação-fundamentação da sentença:
“Quem sofreu a experiência da pobreza radical, a ponto de buscar seu sustento nos dejetos, aprendeu a ver o mundo com outros olhos. O lixo foi sua escola, seu doutorado. O que merece ser amplamente destacado é que, privado até mesmo do lixo, o acusado, homem forte, não desistiu, não entregou os pontos, não abandonou os seus, tampouco agiu com violência ou grave ameaça a outrem”. A acusação – “Ministério Público” (pomposo nome, me lembra aqueles filmes de ficção, data venia) – não recorreu.
Riobaldo fez uso da palavra. A palavra certa na hora certa é mágica. “Abre-te sésamo”.
Daí minha admiração pelas palavras que transformam a realidade, que marcam consciências.
Daí seguidos achados de nossa MPB, vem-me de pronto: “o Estácio acalma o sentido dos erros que faço”.
O J’accuse de Zola, desencadeando mudança de julgamento no caso Dreyfus, na França dividida.
A expressão “cortina de ferro” propagada por Churchill.
“Olhai os lírios do campo”, de Jesus.
Ou a mais linda frase da Bíblia: “eu sou o que sou”, de Deus para Moisés.
Ou, na última intimidade, quando, rendidos, completamente rendidos, chega em nossa alma a doce declaração: “eu te amo”.
O uso primoroso da palavra, a fé na palavra, o mister dos profissionais: do advogado, do psicanalista, do professor, do político e de tantos outros, cumprindo, assim, o maior desafio da humanidade: a comunicação.
Saber ouvir e saber falar.
Last but not least: a força da fala coletiva, uníssona, repetida, cadenciada, alastrando-se, potencializada e multiplicada hoje nas redes sociais: o coro grego agigantou-se.
Esse é o lado que ressalto, nesse momento, das redes sociais.
Discorrendo sobre julgamentos, termino lembrando os dois julgamentos que moldaram a consciência ocidental: o julgamento de Sócrates e o julgamento de Jesus.
Com o registro: a oportunidade de fugir existiu para os dois.
Não fugiram.
Foram sentenciados. Moldaram nossa consciência.
Tempos depois, no Brasil, o Presidente Lula repete o ato de Sócrates e de Jesus: mesmo tendo condição, não foge.
Insiste em sua inocência.
Submete-se à sentença, mesmo ilegítima.
All things considered, a conclusão máxima: vivemos em nossas instituições, inescapavelmente. Temos que reforçar a energia institucional. Deus esteja.








