
Levantamento da Associação Brasileira de Supermercados aponta expansão das vendas de alimentos após a proibição das apostas on-line. Os primeiros números reforçam uma preocupação que o Focus Poder acompanha há dois anos: o dinheiro destinado às bets deixa de circular no comércio, pressiona o orçamento doméstico e compromete o consumo das famílias. A relação de causa e efeito, contudo, ainda exige comprovação estatística.
O fato. Menos dinheiro nas plataformas de apostas, mais compras de arroz, óleo, macarrão e café. Essa é a transformação que a Associação Brasileira de Supermercados (Abras) identifica no comportamento do consumidor brasileiro após a proibição das bets, determinada pelo governo federal em 25 de setembro.
Segundo reportagem publicada pelo UOL nesta quarta-feira, 28 de outubro, o consumo nos supermercados, atacarejos e mercearias cresceu 6,5% na semana de 5 a 11 de outubro, em comparação com o mesmo período de 2025. Na semana seguinte, de 12 a 18 de outubro, a expansão nacional foi de 6,3%.
+6,5%
Brasil, de 5 a 11 de outubro
+6,3%
Brasil, de 12 a 18 de outubro
+6,5%
Nordeste, primeira semana
+4,5%
Nordeste, segunda semana
Fonte: Abras, conforme reportagem do UOL. Variações em relação às semanas correspondentes de 2025.
Por que importa. Os resultados começam a oferecer uma dimensão concreta de um problema que, até recentemente, era discutido principalmente sob os aspectos da dependência do jogo, do endividamento e das perdas individuais.
O que está em questão é também o destino da renda nacional. Cada real gasto em apostas deixa de estar disponível para outras despesas familiares. Quando o dinheiro fica concentrado em plataformas de jogos, pode reduzir a demanda por produtos e serviços de setores que empregam milhões de brasileiros.
É nessa perspectiva que os números da Abras ganham relevância. O crescimento nas vendas de produtos essenciais coincide com o fechamento das plataformas legais de apostas, mas ainda não permite quantificar quanto desse aumento decorre diretamente da proibição.
O Focus Poder já havia mostrado o tamanho do problema
Em setembro de 2024, quando a expansão das bets ainda era tratada sobretudo como um desafio regulatório, o Focus Poder publicou reportagem sobre os efeitos das apostas no endividamento e no consumo.
O texto apresentou pesquisa da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo segundo a qual 19% dos entrevistados haviam reduzido compras em supermercados por causa das apostas. Outros 23% deixaram de comprar roupas e 11% relataram dificuldades para pagar contas.
A reportagem também registrou estimativa do Itaú de perdas de R$ 23,9 bilhões dos apostadores brasileiros entre junho de 2023 e junho de 2024.
Dois anos depois, a discussão ganhou outra escala.
Em agosto de 2026, o Focus Poder noticiou levantamento do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz), segundo o qual as famílias brasileiras haviam perdido R$ 62,5 bilhões em apostas no período analisado, considerando a diferença entre os depósitos e os prêmios recebidos.
A movimentação financeira das bets via Pix aproximou-se de R$ 351 bilhões entre outubro de 2024 e março de 2026.
A distinção é essencial: movimentação financeira não corresponde a perdas dos apostadores, assim como perdas líquidas não representam, necessariamente, todo o impacto das bets sobre a economia.
O estudo que antecipou o impacto econômico
A conexão entre apostas e enfraquecimento do consumo ganhou sustentação acadêmica em setembro de 2026.
No dia 16 daquele mês, o Focus Poder publicou os resultados de uma pesquisa do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da Universidade de São Paulo.
O trabalho estimou que as apostas esportivas podem ter retirado entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica brasileira em 2025, o equivalente a 0,9% a 1,1% do Produto Interno Bruto.
IMPACTO ESTIMADO DAS BETS NA ECONOMIA EM 2025
R$ 120 bi a R$ 141 bi
Redução estimada da atividade econômica, segundo estudo do Made/USP.
0,9% a 1,1%
Perda estimada de arrecadação
R$ 31,1 bi a R$ 54,8 bi
São estimativas de efeitos econômicos, não valores diretamente observados nas contas das famílias. Fonte: Made/USP, divulgado pelo Focus Poder em 16/09/2026.
Segundo os pesquisadores, as apostas produzem efeitos que ultrapassam a relação entre empresas e jogadores. A renda transferida para as plataformas pode representar menos consumo, menor atividade produtiva, redução da arrecadação e ampliação das desigualdades.
O estudo apontou ainda uma possível perda de receitas públicas entre R$ 31,1 bilhões e R$ 54,8 bilhões.
Os resultados agora divulgados pela Abras são coerentes com essa hipótese econômica, embora não comprovem, isoladamente, as estimativas do Made.
A sociedade já havia percebido
Não foram apenas os economistas que identificaram os efeitos das apostas sobre a renda.
Em maio de 2026, pesquisa Meio/Ideia divulgada pelo Focus Poder mostrou que 59% dos brasileiros associavam as bets ao agravamento do endividamento doméstico. Outros 62% relacionavam as plataformas ao desenvolvimento de comportamentos compulsivos.
O levantamento mostrou ainda que 44% defendiam a proibição das apostas on-line, enquanto 24% eram contrários e 32% estavam indecisos.
Um dado revelador: 25% dos entrevistados afirmaram ter apostado nos 30 dias anteriores à pesquisa.
O que esses números revelam. A discussão sobre as bets já não se limitava à liberdade individual de apostar. Havia se tornado um problema econômico, social e de saúde pública.
No Ceará, a preocupação também se manifestou institucionalmente. Em março, o Ministério Público estadual, por meio do Decon, divulgou nota técnica alertando para práticas potencialmente abusivas, publicidade enganosa e riscos de superendividamento. O levantamento apontou a presença expressiva de jovens entre 16 e 34 anos entre os usuários de plataformas de apostas no estado.
Focus Poder
A proibição e a mudança de comportamento
A Medida Provisória 1.394, publicada em 25 de setembro de 2026, proibiu a oferta, exploração, intermediação e publicidade de apostas de quota fixa em todo o território nacional.
A proibição de novos depósitos começou imediatamente. O prazo para saques voluntários terminou em 5 de outubro e, a partir do dia 6, as plataformas deveriam ficar indisponíveis. O governo também estabeleceu procedimentos para devolver os saldos remanescentes dos apostadores.
Ministério da Fazenda
O movimento observado nos supermercados começou justamente nesse intervalo.
Segundo a Abras, o número de transações via Pix recuou inicialmente 10% após a proibição, estabilizando-se posteriormente em uma queda de 7%.
A coincidência temporal chama atenção: a redução das movimentações bancárias ocorreu simultaneamente à ampliação das compras no varejo alimentar.
Entretanto, há uma ressalva importante. O Banco Central não confirmou que a redução agregada das transações por Pix resultou diretamente da proibição das apostas. Tampouco demonstrou que os recursos anteriormente destinados às plataformas foram redirecionados aos supermercados.
O contraponto: crescimento não significa necessariamente causalidade
A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) contesta a interpretação da Abras.
O advogado Bernardo Cavalcanti Freire, consultor jurídico da entidade, argumenta que o crescimento das vendas pode decorrer de outros fatores, como o desempenho do mercado de trabalho, restituições do Imposto de Renda, pagamentos de benefícios sociais e devoluções de valores anteriormente depositados nas plataformas.
O argumento central é metodológico: sem isolar os efeitos de cada variável, não é possível afirmar que a proibição das bets foi responsável pelos 6,5% de crescimento.
Uma análise publicada pelo BNLData também questionou a ausência de metodologia pública detalhada do levantamento da Abras, particularmente quanto à distinção entre aumento do volume físico de mercadorias e crescimento nominal das vendas.
A objeção é relevante e não deve ser ignorada.
Mas há uma diferença entre não demonstrar a causalidade de um fenômeno e negar a plausibilidade econômica de sua existência.
As pesquisas anteriormente divulgadas pelo Focus Poder já apontavam que os gastos com apostas competiam com despesas essenciais das famílias. Os dados recentes da Abras são compatíveis com esse diagnóstico, embora ainda não permitam medir a contribuição específica da proibição.
Vá mais fundo: o dinheiro que volta à economia real
Existe uma questão estrutural por trás dos números.
O comércio de alimentos, vestuário e serviços depende da capacidade de consumo das famílias. Quando parte dessa renda é absorvida sistematicamente por perdas em apostas, os efeitos podem se espalhar pela economia.
Uma família que reduz as compras no supermercado também afeta, indiretamente, a demanda por produção agrícola, transporte, distribuição e trabalho no comércio.
O mesmo raciocínio vale no sentido contrário.
Se a diminuição das perdas com apostas permitir que as famílias ampliem o consumo, os efeitos positivos podem ultrapassar o caixa dos supermercados.
O problema ganha importância num país em que, segundo dados da Confederação Nacional do Comércio divulgados pelo Focus Poder, 82% das famílias estavam endividadas em agosto de 2026, recorde da série histórica. A questão, portanto, não é apenas moral. É essencialmente econômica.
O que vem a seguir
A proibição ainda depende de consolidação legislativa. Conforme o registro do Congresso Nacional, a Medida Provisória 1.394/2026 permanece em tramitação, com prazo de deliberação previsto até 23 de novembro.
Congresso Nacional
Do ponto de vista econômico, será necessário acompanhar os próximos levantamentos de consumo, o comportamento da renda disponível, o endividamento e a eventual migração de apostadores para plataformas clandestinas.
A persistência de resultados positivos nos supermercados fortaleceria a hipótese de recomposição do orçamento familiar. Uma desaceleração rápida, por outro lado, indicaria a necessidade de investigar fatores transitórios, como pagamentos extraordinários e devolução de saldos.
Em síntese. Durante anos, o debate sobre as bets concentrou-se no dinheiro que os brasileiros perdiam apostando. Agora, começa a surgir uma pergunta talvez ainda mais importante: quanto a economia brasileira deixou de ganhar enquanto esse dinheiro não chegava ao comércio, à indústria e à mesa das famílias?
O Focus Poder acompanha essa questão desde 2024. Os primeiros dados posteriores à proibição não encerram o debate, mas tornam ainda mais relevante investigar uma hipótese de profundas consequências econômicas e sociais: menos dinheiro perdido no jogo pode significar mais renda disponível, mais consumo e mais atividade produtiva.







