O drama da Venezuela, por Catarina Rochamonte

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Catarina Rochamonte é graduada em Filosofia pela UECE, Mestre em Filosofia pela UFRN e Doutora em Filosofia pela Universidade Federal de São Carlos (Ufscar).

Por Catarina Rochamonte

Venezuela: intervenção militar era a última opção, mas pode se tornar a única.

A enormidade dos crimes cometidos pela ditadura de Nicolás Maduro contra o povo da Venezuela só é equivalente à ignomínia dos que ainda apoiam esse regime criminoso. Sem nenhuma preocupação com as vítimas da repressão, o PT, PSB, PCB, CUT, MST e os outros de sempre, emitiram, despudoradamente, nova nota em apoio ao regime genocida. Os contornos gravíssimos dessa crise humanitária, com continuadas investidas criminosas de militares e milícias chavistas contra os resistentes, estão de tal forma escancarados em todas as mídias que nos dispensam a renovação dos relatos. Todavia, queremos ainda pontuar nossa revolta com o assassinato recente, na fronteira com Brasil, de índios venezuelanos que buscavam viabilizar a entrada de ajuda humanitária; ajuda essa que foi destruída pelos asseclas de Maduro. Se o chavismo levou a Venezuela à indigência com a estatização das indústrias e a aplicação de todas as outras políticas econômicas equivocadas próprias da mentalidade coletivista estatizante, Maduro deu provas cabais de que a miséria à qual seu povo está relegado não é resultado apenas de sua ignorância como político, mas também da sua crueldade como indivíduo.
Dentre tantos relatos, um nos chamou muita atenção; por quem o fez e pela situação na qual o fez: o prefeito da cidade venezuelana de Santa Elena de Uairén, Emilio González, fugiu para o Brasil e relatou ataques de forças militares e de milícias contra a população civil com resultado de 24 mortos e 84 feridos. Um desertor das forças armadas venezuelanas, ao cruzar a ponte Francisco de Paula Santander, denunciou que o governo deu ordens para que massacrassem as pessoas; informação que foi confirmada pelos habitantes das cidades fronteiriças que acrescentaram, ainda, a perseguição dos paramilitares às famílias dos desertores, que estavam sendo feitas reféns. Isso não é normal, nem é aceitável. É abominável e precisa ser combatido. O momento é o da mais absoluta pressão sobre o regime de Nicolás Maduro, inclusive para que seja contida a escalada de assassinatos.
O Grupo de Lima tem desempenhado ação muito relevante na campanha de solidariedade internacional ao povo da Venezuela, com corajoso protagonismo do chanceler brasileiro Ernesto Araújo. No documento resultante da sua última reunião, o Grupo condenou como um crime de lesa humanidade as ações do regime de Maduro para impedir a entrada de ajuda humanitária e denunciou tal regime criminoso à Corte Penal Internacional. Sob que pretexto a comunidade democrática internacional permitirá que o ditador Maduro continue cometendo crimes de lesa humanidade? Não pode ser o pretexto de autodeterminação dos povos, pois está claro que o povo venezuelano já se autodeterminou construindo, inclusive, uma solução pacífica e democrática ao demonstrar massivo apoio a Juan Guaidó como presidente interino.
Após o dia de terror provocado pelas investidas de Maduro para impedir a chegada de ajuda humanitária ao seu povo famélico e doente, Guaidó escreveu no seu Twitter: “Los acontecimientos de hoy me obligan a tomar una decisíon: plantear a la Comunidad Internacional de manera formal que debemos tener abiertas todas las opciones para lograr la liberatión de esta Patria que lucha Y seguirá luchando.” O recado do presidente interino está claro: TODAS as opções devem estar abertas. Não é possível que essa desgraça que se abate sobre nossos irmãos venezuelanos continue.
O deputado Rubens Bueno, do PPS, porém, declarou recentemente que “uma intervenção militar na Venezuela não deve nem sequer ser cogitada”. Com todo respeito, discordamos e colocamos essa opção como primeira cogitação deste artigo; como está no título. Entendemos mesmo que anunciar que não se cogita dessa opção é uma ingenuidade que mostra que ela já está sendo cogitada. Se Maduro tiver certeza de que ninguém cogita de tal opção para demovê-lo dos seus crimes e do seu ofício de ditador, jamais cogitará em não praticar crimes e em renunciar. Que a intervenção militar seja cogitada e anunciada como possibilidade cada vez mais próxima de execução será mesmo a única possibilidade de que não seja efetivada. Isso se chama dissuasão.
O nobre deputado não cogita a intervenção militar; o nosso general vice-presidente também não. Mas os Estados Unidos cogitam e o presidente Trump já declarou que “todas as opções estão na mesa” contra Maduro. Em sendo assim, caberá ao Brasil – no caso de os Estados Unidos passarem da cogitação à ação – decidirem de que lado do muro ficarão; ou se ficarão se balançando em cima do muro. O vice-presidente Mourão defende “a volta da democracia na Venezuela sem nenhuma medida extrema”. Mas se ficar insofismavelmente comprovado que o ditador criminoso não se afastará sem uma “medida extrema”? Será correto permitir que ele siga, ainda por mais tempo, nas suas próprias medidas extremas contra os mais básicos direitos humanos?
Para libertar a Venezuela da ditadura assassina de Nicolás Maduro será necessária uma articulação entre os Estados Unidos – que é o país democrático mais poderoso – e os países democráticos sul-americanos, que são geograficamente estratégicos; e alguns deles – Colômbia e Brasil especialmente – já estão seriamente afetados pela crise no país fronteiriço. A tragédia que se abate sobre a Venezuela não dá mais espaço para negociações alongadas; requer diplomacia dura, com a opção militar sobre a mesa: sempre como última opção, mas sempre como uma opção; bem à vista.
É claro que é necessário o máximo de prudência em relação às questões de política internacional. Essa prudência, porém, não pode ser simplesmente a prudência pragmática cujos argumentos de ordem econômica ou política menoscabam o argumento maior da afronta à dignidade humana e da afronta à soberania de um território democrático por parte da tirania que mata seu próprio povo de fome e de bala.
É, de fato, estranho escrever a palavra “guerra” em um sentido atual e próximo, não histórico ou espacialmente distante. Talvez porque seja quase ausente no nosso território o sentimento de pertencimento a uma história de valores e de conquistas que se pretende preservar. E o problema da guerra não é vencê-la nem perdê-la, mas por que travá-la. Se não se trata, no caso em questão, de uma agressão direta e abusiva ao território brasileiro – o que conflagraria imediatamente a resposta – trata-se, porém, do socorro humanitário a um povo que padece e clama por uma intervenção externa. Quanto mais nos desobrigamos do confronto – como se o confronto por si só fosse mais pesaroso do que a ignomínia imposta a um povo massacrado – mais o massacre desse povo irmão pesará sobre nós como nação.
Não se dá espaço ao mal nem que seja separado por uma fronteira. O mal se combate, não se escamoteia. Por mais que os discursos hipócritas daqueles que não conseguem atinar para a diferença entre uma guerra de conquista e uma guerra de salvação possam adiar o momento da decisão, chegará um momento em que será necessário decidir entre o discurso forjadamente pacifista banhado com o sangue das vítimas de um holocausto pós-moderno e o discurso supostamente belicoso daqueles que compreendem que a terra não é apenas lugar de verborragias ideológicas, mas de difíceis decisões morais que se fazem prementes em momentos precisos da história.
 

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