O monopartidarismo discreto III (ou A revanche do sagrado)

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Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

Por Rui Martinho 
rui.martinho@terra.com.br
A hegemonia ideológica (a conquista de um quase consenso político na sociedade), alcançou as igrejas. Universidades, imprensa e indústria cultural muito contribuíram para tanto. A sensibilidade política das lideranças, o ativismo de infiltrados e a ingenuidade de muitos fiéis facilitaram a influência secular. A aproximação entre os cristianismos e doutrinas políticas foi propiciada pelo desconhecimento, de grande parte dos fiéis, do que seja a doutrina que professam.
O segundo pós-guerra trouxe o fortalecimento dos partidos comunistas e socialistas na França e na Itália, crescendo a cada eleição. A cúpula do Vaticano era majoritariamente formada por italianos e franceses. A impressão de que estes países seriam dominados pelos partidos citados influenciou a cúria metropolitana. A secularização das sociedades, agudizada na segunda metade do século XX, deu credibilidade à ideia de uma civilização inteiramente secularizada.
A sensibilidade política adotada desde o concílio de Niceia (325 a.D.), quando as lideranças do cristianismo renderam-se ao Império Romano, aceitando a direção do Imperador Constantino, que impôs até um nome que adjetivava o cristianismo como universal (católico) e romano, mais uma vez se fez presente. Era hora de aderir aos vencedores da guerra fria, a tempo de chamar a si parte dos méritos pela vitória. A América-Latina parecia inclinada a seguir a revolução cubana. Os soviéticos saiam à frente na corrida espacial, com o primeiro satélite e o primeiro homem lançado ao espaço. Ao vencedor as batatas.
O Concílio Vaticano II adotou a dialética. A unidade dos contrários permitiria juntar o teocentrismo com o antropocentrismo; a não violência do cristianismo com a filosofia de guerra dos revolucionários; o reino que não é desse mundo com as lutas políticas; a proposta de fazer o bem, socorrendo necessitados e assumindo o ônus da iniciativa, com a “luta pelo mundo melhor”, que aponta culpados contra quem propõe castigos; conciliar o amor aos inimigos com o ódio aos “opressores”; além de suprimir a responsabilidade individual do cristianismo, transferindo-a para os condicionamentos econômicos, sociais e culturais.
Já não era preciso fazer o bem com uma mão sem que a outra soubesse, nem sem olhar a quem. A luta pelo poder, “só para fazer o mundo melhor”, legitimava tudo. Sobrava uma pose de superioridade moral e intelectual dos “esclarecidos”, embora nem sempre soubessem sequer o que diziam. Assim, o público ilustrado, doutrinado pelas escolas e universidades aparelhadas, seria contemplado. Os templos vazios, na velha Europa, teriam de volta o público secularizado. Nascia a Teologia da Libertação, entre os católicos; e a Teologia da Missão Integral, entre protestantes tradicionais.
Sabedoria é um bicho que quando cresce muito engole o dono. A revanche do sagrado não tardou. Um novo sagrado, na forma de religiões políticas, levou os “esclarecidos” para os movimentos políticos, abandonando as igrejas tradicionais secularizadas. O sagrado do tipo espiritual levou parte do público para o islã, na Europa onde as conversões se fazem aos milhares; e para os neopentecostais na América Latina. Estes também foram alcançados pela ideologia do “mundo melhor”, mas pelo ativismo da nova moral sexual, das teses abortivas e outras mais, rompeu o namoro com os movimentos “politicamente corretos”.
A hegemonia ideológica apresenta assim uma primeira fissura.
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