Ridículos tiranos, por Ricardo Alcântara

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Ricardo Alcântara é escritor e publicitário. Filiado à Rede Sustentabilidade.

Na Bolívia – e com a virulência que não mostraram no Brasil porque aqui venceram nas urnas – a direita radical mostrou suas presas: invadiram a casa do vice-presidente deposto e incendiaram sua biblioteca com 130 mil obras para, no dia seguinte, fecharem vias públicas, bloqueando a passagem de ambulâncias que prestavam socorro a mais de cem feridos em atos de protesto.
A estupidez dessa gente não é apenas criminosa. É suicida: a maioria não votará neles quando as urnas das novas eleições forem abertas. Estão somente fazendo o serviço pesado para uma sucessão que tende assim para a vitória de setores liberais mais moderados, após as sucessivas reeleições de Evo Morales.
Aqui, um parêntese: foi pedagógico para desmistificar a narrativa hiperbólica do petismo, de que o impeachment de Dilma foi um “golpe”. Golpe é aquilo que aconteceu lá: um general manda o presidente afivelar as malas, seus aliados têm suas casas incendiadas e o parlamento é forçado, caso não queira ser fechado, a “escolher” um novo presidente por um processo espúrio. É isso ou sangue. Entendeu agora o que significa o termo “golpe de Estado”? Pois é. Fecha parêntese.
Alheio ao recurso maniqueísta com que a esquerda está tratando a crise da Bolívia – e sem deixar de compreender a deposição como um processo espúrio – vou botar o dedo numa ferida que eles tentam esconder: quem enfraqueceu a democracia naquele país, bem antes do que se deu agora, foi o próprio Evo Morales.
Um resumo de fatos que falam por si: ele foi eleito para um mandato de cinco anos, sem direito a reeleição. A seguir, mudou a lei magna: o mandato foi reduzido para quatro anos, com direito a reeleição. Aí, embutiu um artifício imoral: como a República mudou de nome (apenas isso), uma escandalosa decisão do Supremo definiu que o mandato então vigente não iria contar e, assim, foi reeleito.
Recorreu a nova e escabrosa manobra: o Judiciário (olha ele aí de novo) permitiu que se candidatasse indefinidamente, amparado por alegados “tratados de direito internacional”, e o resto todos sabem: veio a eleição e, percebendo que perderia em segundo turno, fraudou o resultado, abrindo margem para que parcelas mais moderadas da sociedade dessem aos golpistas o apoio que precisavam operar sua deposição.
Em suma, o homem que sofreu um golpe de Estado, condenável sob todos os aspectos, nunca foi um bom exemplo para espíritos democratas: apelou para manobras ilegítimas, adulterando o quadro de legalidade para, ao fim, cometer o pior erro que moralmente um líder popular pode cometer: fraudar a soberania popular (mais um que assalta o povo “para seu próprio bem”).
Enfim, Evo Morales foi vítima de um processo de fragilização das instituições democráticas que ele mesmo iniciou, sendo, a um só tempo, algoz e vítima do curso dos fatos que o retirou à força da cadeira de presidente, o que, a contragosto, nos traz à cabeça ”uma canção do rádio em que um antigo compositor baiano” nos interrogava:
Até quando essa América católica precisará de ridículos tiranos?

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