A Geopolítica do Budismo no Tibet. Por Igor Lucena

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Articulista do Focus, Igor Macedo de Lucena é economista e empresário. Professor do curso de Ciências Econômicas da UniFanor Wyden; Fellow Associate of the Chatham House – the Royal Institute of International Affairs  e Membre Associé du IFRI – Institut Français des Relations Internationales.

Tenzin Gyatso, 14º Dalai Lama – o líder espiritual dos tibetanos, que vive no exílio na Índia, completará 86 anos em julho próximo. A escolha de seu sucessor parece ser uma luta constante entre a Índia e os EUA de um lado, e a China do outro. Acredita-se que o Dalai Lama seja um Buda vivo que reencarnou após sua morte. Tradicionalmente, uma busca pela reencarnação de uma criança é conduzida e, uma vez que o menino é confirmado, ele estuda para se preparar para seu papel.

O atual Dalai Lama foi identificado com apenas 2 anos de idade. Não existe um método único para escolher um Dalai Lama, e o processo pode ser longo e complicado. Oficiais de segurança da Índia, incluindo o gabinete do Primeiro-Ministro, estiveram envolvidos em discussões sobre como Nova Délhi pode influenciar para a escolha do próximo Dalai Lama.

De janeiro a março, ao longo de sua fronteira do Himalaia com a China, a Índia convocou cinco assembleias separadas de monges seniores de várias seitas e escolas da região – a primeira vez em mais de 2.000 anos. O governo espera que o grupo conceda legitimidade internacional ao sucessor do atual Dalai Lama e ajude a preencher um vácuo que existe no poder, já que pode levar duas décadas ou mais para uma reencarnação ser identificada e atingir a maioridade.

Em 1959, durante a revolução comunista, agentes da inteligência dos EUA ajudaram na fuga da Tenzin Gyatso para fora do Tibete e para o norte da Índia para evitar serem capturados pelas forças chinesas de segurança.

Um decreto do próprio Dalai Lama, de setembro de 2011, previa um plano de reencarnação depois que ele fizesse 90 anos. Seu ambiente pessoal é encarregado de realizar a busca e o reconhecimento de acordo com as práticas centenárias, entretanto Pequim, que nunca se deu bem com o atual Dalai Lama, reivindica o direito soberano de determinar sua linhagem com base no fato de que foi a dinastia Qing da China que instituiu a sede do Dalai Lama, em 1653.

Alegando ser o sucessor do estado imperial, o regime comunista insiste que determinar a linhagem da reencarnação nunca foi um assunto puramente religioso ou pessoal, mas soberano e político de uma região da China, o Tibet. O governo de Pequim não contestará a busca pela alma do Dalai Lama em outro corpo, desde que ela seja encontrada de acordo com a lei chinesa e dentro do território chinês. Pequim cita as normas da era Qing compreendendo um conjunto de rituais religiosos e convenções históricas como critérios para o reconhecimento dos Dalai Lamas.

Esses foram seguidos pelo governo de Chiang Kai-shek para nomear o atual Dalai Lama, em 1940. Posto isso, Pequim está pronta para “escolher” o próximo Dalai Lama de acordo com as normas da era Qing e em conformidade com as leis e os regulamentos estaduais da China sob a ordem nº 5, que atualmente regulamenta a reencarnação de ‘Budas vivos’ tibetanos.

O Partido Comunista da China repreendeu  Dalai Lama por ameaçar encerrar o sistema que, na opinião do partido, é equivalente a “profanar” o budismo, mostrando desrespeito e traição às tradições tibetanas. Até agora, sucessivos Dalai Lamas foram encontrados no Tibete, mas o que torna a questão da reencarnação geopolítica é a ameaça do Dalai Lama de nascer fora das fronteiras do Tibete, aparentemente em um “país livre” como a Índia. Pequim reagiu fortemente a isso, todavia o Dalai Lama precisa pensar duas vezes, pois seria como jogar o bebê fora com a água do banho, o que tornaria a tarefa da China mais fácil.

Apenas os EUA, que querem contrabalançar os planos de Pequim, até agora apoiaram o Dalai Lama. O embaixador geral dos EUA para a liberdade religiosa internacional, Samuel D. Brownback, visitou recentemente Dharamshala para reafirmar o apoio de seu país. Ele também sugeriu construir apoio global por meio da ONU.

Não será fácil para Nova Délhi evitar o problema. O governo tibetano no exílio está na Índia e pode escolher seu próprio candidato nascido em uma família tibetana ou indiana. Entretanto, a instituição do Dalai Lama não está enraizada na Índia nem há qualquer precedente da Índia influenciando a seleção de um Dalai Lama. Um renascimento na Índia pode firmar laços amargos com a China permanentemente.

O atual impasse na fronteira poderia se prolongar por mais algumas gerações com o alto custo estratégico envolvido. Contudo, o Dalai Lama disse a seus seguidores no final do ano passado que não apressem seu plano de reencarnação, já que ele está com boa saúde.

Diplomatas sugeriram que qualquer solução amigável poderá ocorrer apenas se a China aceitar sua proposta de meio termo para resolver a questão do Tibete, mas Xi Jinping não aceitou um apelo à reconciliação. Pequim, em seu último movimento, pode permitir que o Dalai Lama retorne apenas como um líder espiritual e não político. O Dalai Lama pode até concordar, desde que tenha uma palavra a dizer na escolha de seu sucessor.

Dentro deste contexto, a geopolítica do budismo tibetano nunca esteve tão forte, o que coloca os holofotes sobre a China, a Índia e os Estados Unidos.

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