A gota d’água. Por Angela Barros Leal

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“Ser um híbrido pode significar que se é os dois, ou nenhum dos dois” – reflete o escritor luso-islandês Pedro Gunnlaugur Garcia, na bela revista portuguesa Ler, publicada quatro vezes por ano pela Fundação Círculo de Leitores da Livraria Bertrand, a mais antiga do mundo. O híbrido mantém um pé aqui e outro lá, o que o autor considera não ser “necessariamente uma coisa má”.

Li isso antes de embarcar no transporte anfíbio que nos levou a passeio pelas ruas de Lisboa, e em seguida para as águas históricas do rio Tejo. Estava ciente, é claro, de que aquele ônibus amarelo, fruto do cruzamento entre um tanque de guerra e uma embarcação de pequeno porte, mais cedo ou mais tarde iria descer para o rio.

Estava ciente, também, de não ter sido aquele o dia mais adequado para usufruir a totalidade da experiência, devido à chuva fininha de Primavera, a encobrir o brilho do sol, e às rajadas de vento previstas pela meteorologia.

Calendário de turista não abre muitas opções. E lá embarcamos nós, pouco mais de uma dúzia de visitantes, para realizar o duplo tour iniciado em terra, a partir da Doca de Santo Amaro, avistando não muito distante a ponte 25 de abril.

Durante uma hora chacoalhamos pelas ruas e avenidas da cidade, sob o comando de uma guia poliglota, agitada e desinibida, a embaralhar os pontos turísticos com detalhes de sua vida pessoal, e a demandar de nós, os constrangidos passageiros, oriundos de quatro diferentes nações, um nível similar de manifestação de entusiasmo público.

O clima chuvoso refletia-se no rosto desanimado dos clientes do passeio tinha suas razões. O vento e a chuva se intensificaram, em uma borrasca que exigiu o fechamento das janelas panorâmicas do veículo, encobertas por cortinas de plástico, açoitadas pela água, não nos permitindo enxergar os detalhes descritos por ela em tom de entusiasmo, saltando de um idioma a outro com invejável flexibilidade.

Havia lá fora uma Lisboa de prédios e praças, de pórticos e pessoas, invisíveis para nós. Avançamos pela cidade como cegos ouvindo o guia, e como cegos mergulhamos no rio Tejo.

Uma hora se passara do passeio urbano regado a palavras, submissos ao bom humor da jovem à nossa frente. Com o microfone na mão direita, sustentara o corpo com a mão esquerda no impacto da transição entre a terra e a água amarronzada do rio, sem se calar um só instante durante o processo de mudança do mecanismo terrestre para o motor aquático.

O vento criava ondas, que erguiam a proa do recém-nascido barco, e a chuva entrava por onde fosse dada a oportunidade. Dois passageiros abriram seus guarda-chuvas para serem repreendidos pela guia: É apenas água! – protestou ela, em várias línguas.

A mesma água continuou a lavar as janelas de plástico, através das quais aceitamos o que ela nos dizia, de estarmos navegando próximo aos monumentos que orlam a margem do Tejo: a Torre de Belém, o Padrão do Descobrimento, o Mosteiro dos Jerônimos e a própria ponte 25 de Abril.

Enxergamos através do plástico, com os olhos de quem estuda uma tela de pintor pontilhista – aqui, o contorno da Torre à qual acenaram em despedida os desbravadores; ali, o desenho pontudo do monumento aos descobrimentos, homenageando três dezenas de personagens; acolá, os arcos fragmentados do mosteiro, e a estrutura da ponte suspensa entre uma nuvem e outra.

No retorno à terra, a guia silenciou em todas as línguas. Gastara seu estoque de palavras, imagino. Preservava-se para nova viagem, quem sabe se com passageiros mais vibrantes, sob um céu mais limpo.

Ergui uma pontinha da janela de plástico e inúmeras gotas d´água salpicaram meu rosto. Uma delas pousou ao lado esquerdo da minha boca. Pode ter sido água da chuva, mas prefiro dizer que era água do Tejo, e dela bebi. Quem sabe se, ao incorporar a água do rio de onde partiram as naus para a conquista do mundo, ao engolir uma gota do rio que serviu de estrada aos nossos ancestrais, eu venha a me sentir tão híbrida quanto o veículo que nos transportava, tão híbrida como somos nós, descendentes daqueles aventureiros anfíbios que desbravaram terras enfrentando a corrente incessante das águas. Quem sabe.


Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.

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