A imprensa da crise e o auspício para o futuro, por Igor de Lucena

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Igor Macedo de Lucena é economista e empresário, professor do curso de Ciências Econômicas da UniFanor Wyden, Fellow Associate of the Chatham House – the Royal Institute of International Affairs e Membre Associé du IFRI – Institut Français des Relations Internationales.

Nas duas primeiras décadas do século XXI acompanhamos a triste realidade da crise econômica no mercado da imprensa jornalística mundial. O que se vê hoje em todas as redações de jornais, rádios e televisões são a redução de quadros, a fusão de redações e tornou-se comum um jornalista produzir matérias para dois ou mais veículos.
Acredito que uma das causas dessa crise no Brasil se dá por uma teórica imparcialidade que a grande maioria dos meios de comunicação fazia e ainda faz questão de afirmar, de que não existe lado na redação, nem partido. Com as redes sociais e a habilidade de analisar diversos vídeos e posicionamentos ao longo do tempo, ficou óbvio que isso nunca existiu no Brasil, mas o que irritou mesmo os brasileiros foi a tentativa de se apresentarem como isentos durante anos.
Em países como os Estados Unidos, o Japão, o Canadá, a Itália, a França e em muitos outros a imprensa não é imparcial. Existem jornais de esquerda, televisões de direita, rádios socialistas e revistas ultranacionalistas. Isso não é errado, muito pelo contrário pois esses veículos falam para seu público e expõe opiniões claras sobre a maioria dos temas.
O segundo problema que abateu esse mercado foi a incapacidade sistêmica dos meios de comunicação de se transformarem em meios digitais. Com vendas em papel em baixa e a queda dos anúncios de radiodifusão, começaram os cortes de custos em produção e pessoal e assim encontramos hoje uma grande quantidade de estagiários e bem menos jornalistas nas redações. O resultado é uma queda vertiginosa na qualidade de textos e programas produzidos, acarretando em menos vendas e assim recompõe um ciclo vicioso.
As fake news criadas por “pseudo-jornalistas” com um celular e um canal de youtube criaram notícias as quais parte do público queria ouvir, não importando em muitos casos a veracidade das informações ou suas fontes, contanto que pudessem monetizar seus likes. Alguns jornalistas com grande credibilidade criaram canais e programas on-line com grande qualidade e temas fantásticos, e assim a imprensa tradicional não conseguiu rebater essas ameaças, sendo esmagada pela internet.
Grandes grupos nacionais passaram a não renovar concessões de rádio e televisão com o governo, grupos editoriais nacionais quase centenários entraram em recuperação judicial e assim a crise vem se expandindo ao longo de diversas empresas e setores que publicaram a história do Brasil em sons, imagens e textos.
Acredito que uma luz está sendo acesa no fim do túnel e ela é bem diferente de tudo que já vimos antes. Sempre tive a convicção que pessoas que conseguiram empreender de maneira surpreendente e se tornar bilionários possuem algo que a maioria das pessoas não tem, uma habilidade especial de enxergar investimentos de longo prazo com um grande potêncial de retorno, principalmente em mercados que a grande maioria das pessoas julgam como acabado, tal qual a imprensa tradicional.
Em agosto de 2013 Jeff Bezos adquiriu por US$ 250 milhões o importante jornal norte-americano The Washington Post, fundado em 1877 e em posse da família Graham há gerações. O jornal vinha perdendo dinheiro há décadas e também era incapaz de aumentar sua receita, mesmo passando por diversas administrações e restruturações. A importância deste jornal para os Estados Unidos é tão grande que já havia conquistado 6 prêmios Pulitzer e publicou o escândalo de Watergate, responsável pela queda do ex-presidente Richard Nixon. Hoje ao assinar o serviço Amazon Prime por meio do tablet Kindle Fire, o mesmo já impulsiona o usuário a assinar também o jornal.
Em março desde ano com a venda do grupo Abril algumas publicações foram descontinuadas, outras serão reformuladas e uma chamou muito a atenção de investidores. O CEO e fundador do banco BTG Pactual, André Esteves, passou a ter o controle da revista Exame, uma das principais revistas de negócios e finanças do Brasil, que passará a ser incorporada a plataforma BTG Pactual Digital, sistema de venda de investimentos online do grupo.
A pergunta que muitos fazem é porque pessoas que são grandes players do mundo digital estão comprando jornais e revistas em decadência financeira? Não é por filantropia e nem mesmo por amor a democracia e a liberdade de expressão. Existe um valor intrínseco a essas publicações que não é possível criar do nada e isso é a credibilidade. O nome que vem junto com essas publicações há décadas e séculos tem um simbolismo que trás confiança ao leitor, é algo que proporciona informações com credibilidade, matérias com premiações internacionais,  valores que serão um forte ativo em um futuro próximo.
Da mesma maneira que a internet foi capaz de criar um sistema disruptivo responsável por destruir a fonte de renda principal de jornais e revistas, também foi capaz de criar algo com um potencial gigantesco, a capacidade de distribuição mundial. O problema é que fazer isso é caro e precisa de uma grande quantidade de estratégia, algo que não é tão complicado para o Sr. Bezos e o Sr. Esteves.
A era da fake news vai passar e logo vão surgir mecanismos e elementos que serão capazes de excluí-las das redes sociais de tal modo que não serão mais úteis a ninguém.
A proliferação de canais do youtube também deve ser vista como um mercado, alguns serão vitoriosos e criarão suas marcas ou migrarão para novos veículos como por exemplo a CNN Brasil que está sendo montada no país por outro bilionário, o Sr. Rubens Benin, atual proprietário da MRV Engenharia e do Banco Inter.
Se dizia no passado que informação era sinônimo de poder e, segundo a lógica geoeconómica, quem tem poder consegue obter dinheiro. Para o novo mercado jornalístico quem tem poder é quem tem credibilidade e credibilidade é o que gera dinheiro.
 

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