A reconstrução da realidade como criação midiática dos fatos. Por Paulo Elpídio

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Paulo Elpídio de Menezes Neto, é articulista do Focus, cientista político, membro da Academia Brasileira de Educação, Rio de Janeiro; ex-reitor da UFC, ex-secretário nacional da Educação superior do MEC; ex-secretário de educação do Ceará.

A medicina deu passos gigantescos no campo da saúde pública nesses arrastados meses de pandemia. Os avanços da ciência superaram, em um ano, o esforço perseverante de décadas. Erros e acertos abriram trilhas insuspeitadas pelos desvios da genética, da imunologia e pelas caixas pretas desse aparelho no qual fizemos morada, o nosso corpo. O desconhecido parecia desvendado, a quebra do enigma da vida, rompido pela nossa astúcia e pela fragilidade de uma obra inacabada. Não nos livramos, todavia, dos anátemas que nos condenam e dos desafios guardados pelos tempos anunciados.

A obra da Criação, a vida racional posta neste prosaico planeta, parece ter sido esquecida, largada à própria sorte, consequência de imensa fadiga acumulada pelo divino artesão, em seis dias de trabalho intenso. Estaremos nós à beira de um “recall” agendado para a revisão dos mecanismos da vida, que nos foi dada em consórcio de maus pagadores?

Seja como for, as grandes mudanças esperadas nesses domínios terráqueos de homens e mulheres (e de outros gêneros criados por aqui mesmo, sem que o Criador se desse conta dessas novidades) estão em outro plano. Na extensa planície da política e dos poderes do Estado e das ideologias.

A pandemia pôs o governo dos homens sob o foco do otimismo e da incerteza, da verdade e da mentira, e fez desmoronar verdades há muito consolidadas na sociedade dos humanos.

Como um castelo de cartas assinaladas, assistimos ao desmoronar dos argumentos da fé, à fragilidade das instituições do Estado, ao ruir das condições de governabilidade. As ideologias aposentaram as ingênuas utopia da revelação nas quais buscaram certezas e armaram as suas distopias, sob o peso inevitável da gravidade das humanas contradições. Ato contínuo, ideias e ideologias lançaram tribo contra tribo, aspirações e disputas em um conflito sem fim, tomado pela intemperança, pelo ódio e pela destruição das milícias do mal. Uma guerra visceral e bárbara, que não conhecíamos desde a expulsão da família de Adão do Paraíso e a obediente resposta ao chamado de “Deus quer!”) dos Cruzadas em busca do Santo Graal, para os confins de Jerusalém.

Não são os canhões, os tanques, os mísseis, os vírus e as bactérias ou outros guardados da arca na Criação que ameaçam a vida no planeta. Mas a mentira — as “political lies, as “fake News”.

A estratégias de Estado Maior cederam o passo a urdiduras hábeis. A reinvenção da realidade é potencialmente mais letal do que o emprego de armas que julgávamos insuperáveis nas campanhas de conquista ou extermínio, de outros tempos.

Da construção de uma realidade estrategicamente útil depende o aparato bélico das ideologias encravadas no poder do Estado. Governos servem-se desse arsenal, a oposição desenvolve os seus próprios artefatos de ataque e persuasão. Empresas defendem-se e avançam no ataque ao bem público com estratégias sofisticadas de convencimento, apoiadas nas operações inconfessáveis (por óbvias) do público-privado, relação incestuosa que muitos associam à modernidade do Estado liberal.

Todas essas potestades, o Estado, as instâncias do governo, os partidos e as militâncias, o grande empresariado e as ideologias salvadoras recorrem aos mesmos estratagemas.

A intermediação entre o real e o imaginário das suas intenções, e a contrafação do real operadas pela mídia segue a mesma lógica operacional, compreendida como instrumento de informação dos fatos e a sua conveniente explicação.

A mídia-empresa privada, tem a sua sustentação na publicidade privada e na propaganda pública.
A mídia-pública, modelo “relações-públicas”, hoje designada de “marketing” político é arma de informação menos sutil, embora eficaz, a serviço do governo em suas diversas ramificações políticas e burocráticas.
Torna-se evidente que as exceções, honrosas por serem poucas e acanhadas, sobrevivem. Não seria justo omiti-las. Reconhecemo-las à primeira vista. Mas a quanto esforço para distingui-la em um mercado de altíssima competitividade, como o da compra-e-venda da realidade.

De tantos riscos anunciados, algumas improváveis possibilidades dispõem, apesar de tudo, de razoável capacidade para infundir esperança aos mais céticos.

Até mesmo os menos cuidadosos hão de concluir, vítimas contumazes que se tornaram de exposições a bombardeios midiáticos de bom calibre que, por trás da informação que lhes é servida há verdades ocultadas — os fatos reais, dissimulados, esquecidos ou negados.

A mídia, “lato sensu”, viveu muitas revoluções, desde os manuscritos, dos primeiros impressos e dos tipos móveis de Gutemberg. Goebbles reinventou a propaganda e fez da mídia o seu cavalo de Troia: deu-lhe força nas fímbrias do Estado totalitário e impôs o seu monopólio. Mussolini dela serviu-se a seu modo. Lenin, Stálin, Mao, Lula, Dilma e Bolsonaro domesticaram-na e a amarraram ao seu discurso de conquista do poder.

Assistimos, ao longo de cinco séculos, a mais de uma revolução midiática, de Gutenberg às redes de jornais, rádios e tevê. As redes sociais, controladas por “hackers” a soldo, são uma espécie de milícia SS; diferenciam-se da grande imprensa “democrática” no método, mas são muito semelhantes nos interesses que as movimentam.
A opinião não é mais resultado imediato do senso comum ou das informações ordenadas logicamente pelos indivíduos. É o lacre de verdades provisórias, postas ao serviço de grupos movidos a ideologia – “ideolopatas”, em um certo sentido –, aqueles que não se articulam entre si, dividem-se em campos hegemônicos, solidários por estratégia convincente, gesto heroico que os leva a ímpetos de solidariedade, vagos e fugazes.

Não se conquista e destrói a identidade de uma nação, de um país, de um povo, com armas de fogo. A destruição e a ocupação da consciência das pessoas ocorrem por inoculação de certezas absolutas, do desmonte de instituições fragilizadas e da insensatez de um povo pobre e carente de educação.

O poder imunizante das vacinas que entram no país provavelmente nos salvará do “coronavirus”. Mas não impedirá a colonização ideológica que nos abrirá as portas para os novos tempos.

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