Aliança PDT-PT: só Cid salva?

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Por Ricardo Alcântara*

Como todos sabem, recente encontro do PDT em Fortaleza expôs, mais do que seria conveniente, as fraturas internas do processo de escolha do seu candidato a governador, quando o presidente do PDT, Carlos Lupi, sugeriu, na presença de outros dois pré-candidatos, que o indicado seria o ex-prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio. Evandro Leitão, presidente da Assembleia Legislativa, distribuiu nota pública condenando a atitude deselegante de Lupi.

O lendário Ulisses Guimarães costumava dizer, antes de ir aos microfones: “Já escrevi meu improviso”. De pessoas com experiência política deve-se esperar gestos públicos pensados. Nessas ocasiões, a espontaneidade é um fator de risco. Logo, certamente Lupi previa o impacto que suas palavras teriam ou foi induzido a crer que a autoridade moral do presidenciável Ciro Gomes no Ceará seria suficiente para silenciar manifestações de desagrado.

Mas, de todos os rumores, o mais efetivamente expressivo não foi causado por quem esteve presente, mas pela ausência, no evento, do senador e ex-governador Cid Gomes, que se encontrava no Ceará e sem compromissos sociais na ocasião. Só há duas leituras possíveis para o caso: Cid está incomodado com o processo de decisão ou se resguarda para colocar, no momento certo, seu nome como uma opção conciliadora entre as partes litigantes.

Salvo a alternativa Cid, nada mais seria capaz de conter o ânimo interno no PT de lançar candidatura própria ao governo, oferecendo a Lula um palanque próprio no Ceará. Nisso, deverá contar com o apoio do MDB de Eunício Oliveira que, por sua vez, também cogitaria postular a cabeça de chapa, estribado em pesquisas eleitorais de seu agrado e por aspectos de seu perfil compatíveis com o que essas sondagens apontam como favoráveis.

Os dois fatores determinantes desse cenário contencioso na aliança governista PDT-PT, que perdura já por 16 anos contínuos no Ceará, estão claros agora: com o favoritismo de Lula na corrida presidencial, para os petistas a prioridade é recuperar o governo federal. Deste, decorre o outro: o enorme potencial de transferência de votos de Lula para um candidato apoiado por ele ao governo do Ceará, como indicam as pesquisas internas dos partidos.

Mesmo a alternativa Cid Gomes não dissipa todas as inquietações. Os longos 37 anos de presença contínua no poder local já provocam desgaste na imagem política da família. Há fadiga de material, acúmulo de rejeição. O reincidente protagonismo de um Ferreira Gomes daria à oposição do candidato bolsonarista, Capitão Wagner, um reforço extra em seu discurso centrado na necessidade reclamada de derrotar o que chama de “oligarquia”.

Enfim, a corda vai, mais uma vez, arrebentar do lado mais fraco. Qual? No início de outubro saberemos.

Ricardo Alcântara é publicitário, escritor e colaborador do Focus.

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