As melhores lembranças do Náutico Atlético Cearense; Por Sérgio Jaborandy

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Por Sérgio Jaborandy

Foto: Reprodução

Algumas lembranças da infância não precisam de fotografia. Basta fechar os olhos e elas aparecem inteiras: o cheiro de cloro, o barulho da água, o sol de Fortaleza, a algazarra das crianças e aquela sensação deliciosa de que o dia ainda demoraria muito para acabar.

Foi assim que o Náutico Atlético Cearense entrou na minha vida.

Mas, antes de contar como aquele clube passou a fazer parte da minha infância, vale voltar algumas décadas no tempo.

O Náutico Atlético Cearense nasceu em uma ensolarada manhã de domingo, 9 de junho de 1929, nas alvas areias da então Praia Formosa, em Fortaleza. Foi ali que um grupo de jovens entusiastas, unidos pelo amor ao esporte e pelo espírito associativo, decidiu fundar um clube dedicado à prática esportiva, à convivência social e à formação de valores.

Eram, em sua maioria, modestos trabalhadores do comércio fortalezense que, movidos pela determinação e pelo ideal coletivo, ergueram a primeira sede do clube: uma simples guarita de madeira.

Pequena no tamanho, mas enorme no significado.

Aquela modesta construção era o primeiro abrigo de um sonho que começava singelo, mas já carregava valores que atravessariam gerações: união, respeito e pertencimento.

Os homens que participaram daquela aventura pioneira são hoje lembrados com respeito e gratidão. Seus nomes permanecem ligados à história do Náutico, como os alicerces de uma instituição que, ao longo das décadas, cresceu, se transformou e se consolidou como um dos clubes mais tradicionais do Ceará.

Quase quarenta anos depois, sem que eu pudesse imaginar a dimensão que aquilo teria na minha vida, o Náutico começaria a fazer parte da minha própria história.

Comecei a frequentar o clube, junto com meus irmãos, por volta de 1968. Minha mãe, conhecendo bem a nossa paixão por piscina, entendia que havia uma providência inadiável: precisávamos aprender a nadar. E o Náutico tinha uma das melhores escolinhas de natação da cidade, que, para nós, era praticamente uma instituição de ensino superior em matéria de água.

Havia uma piscina olímpica de 50 metros que, aos olhos de uma criança, parecia não ter fim. Era uma verdadeira filial do oceano, de tão grandiosa que nos parecia.

O parque aquático contava ainda com uma caixa de saltos profundíssima, equipada com trampolins de 1,5, 3, 5 e 10 metros, além da piscina da escolinha, mais rasa, com 20 metros de comprimento. Para quem adorava água como nós, aquilo não era simplesmente um parque aquático. Era território de aventuras.

Éramos tão apaixonados por piscina que, quando nos mudamos, em 1969, para nossa nova casa, na Rua Antônio augusto, meu pai resolveu construir uma piscina. Um luxo para a época!

Meu irmão mais velho, Carlos Maurício, hoje falecido, era fera na natação. Ao lado dele, outros nomes marcaram época na natação cearense, como Constantino Frate, Oriel Mota, Marcos Alverne, Pádua e os irmãos Haroldo e Aline Amora.

Minhas irmãs também frequentavam o clube. Faziam natação, jogavam vôlei e até tênis de mesa. Eu, em determinado momento, também orbitei pela escolinha de tênis. Houve uma época em que a raquete chegou a disputar seriamente a minha atenção.

Mas surgiu um concorrente de peso — e, convenhamos, difícil de vencer.

A sorveteria do Náutico.

Entre uma aula de tênis e outra, descobri que o sorvete do Kury, a meu ver, era simplesmente o melhor da cidade. E aí a carreira de tenista começou a perder terreno para uma atividade muito mais prazerosa: tomar sorvete.

Não precisei pensar muito.

Troquei as aulas de tênis pelo sorvete.

A escolha, reconheço, talvez não tenha contribuído muito para o meu desempenho esportivo. Em compensação, proporcionou momentos de absoluta felicidade — ainda que, com o passar do tempo, tenha deixado como lembrança alguns quilinhos a mais.

Foi uma troca perfeitamente justificável.

Afinal, nem todo mundo nasceu para ser campeão de tênis.

Mas alguns nasceram para apreciar um bom sorvete.

Aos poucos, portanto, o Náutico deixou de ser apenas o lugar onde íamos nadar.

Virou uma extensão da nossa casa.

Íamos quase todos os dias. E os fins de semana tinham um ritual especial: almoço no restaurante do clube, sob a batuta do Libanês Kury, cercado por uma equipe de maitre e garçons que, sinceramente, faria inveja a muito restaurante sofisticado dos dias atuais.

Lembro especialmente do maitre Batista e do garçom Martins. Amores de pessoas.

Tinham uma simpatia, uma educação e uma presteza que pareciam fazer parte do uniforme. Atendiam a todos com aquela elegância discreta que não se aprende em manual de treinamento. Era simplesmente o jeito de ser.

O Náutico também acompanhou nossa passagem da infância para a adolescência.

E aí vieram os Carnavais da Saudade.

A festa acontecia sempre na semana anterior ao sábado gordo e, todos os anos, havia uma decoração diferente. A expectativa começava muito antes do baile. Queríamos descobrir qual seria o tema, como o clube seria transformado e, principalmente, como seria a festa daquele ano.

Recebíamos um pequeno caderno com as letras das marchinhas que seriam tocadas pela banda — e que banda! — e aquilo já era suficiente para transformar a espera em parte da própria festa.

As fantasias também exigiam planejamento.

Nada dessa facilidade de hoje, em que basta entrar numa loja ou procurar alguma coisa na internet. As fantasias eram encomendadas com bastante antecedência e confeccionadas por costureiras que muitas vezes iam até nossas casas para fazer as peças.

E havia ainda a missão obrigatória de comprar confetes e serpentinas na Lobrás.

Pronto!

O Carnaval já começava dentro da nossa cabeça muito antes de chegarmos ao salão.

A ansiedade fazia o resto.

Mais tarde vieram os Mingaus Pops, aos domingos, embalados pelo som de Roberto Gibbs. Para nós, aquilo era quase uma passagem secreta para outro mundo.

As músicas de discoteca, muitas delas inéditas, misturavam-se aos efeitos das lâmpadas estroboscópicas e aos spots coloridos. Era a nossa versão cearense dos sonhos deSaturday Night Fever e dos tempos de Grease, sem direito à brilhantina, obviamente.

O Náutico não era apenas um clube; era uma parte importante da nossa formação.

Mas nem tudo permanece igual.

Ao longo dos anos, o clube enfrentou um período difícil, quase um ostracismo, lutando contra as dificuldades e contra a impetuosidade — e a ganância — da especulação imobiliária que tantas vezes ameaçou a memória urbana de Fortaleza.

O velho Náutico, porém, resistiu!

E talvez essa seja uma das características mais bonitas de uma instituição que atravessa gerações: ela pode mudar de aparência, enfrentar crises, perder prestígio por algum tempo, mas não necessariamente perde aquilo que a torna reconhecível.

Hoje, é gratificante perceber que o clube vive um novo momento.

A atual equipe de gestão, formada por pessoas que cresceram dentro do próprio Náutico, parece compreender que administrar um clube como esse não significa apenas cuidar de suas instalações. Existe algo muito maior em jogo: identidade, memória e pertencimento.

E isso se percebe.

O velho Náutico está se reinventando.

Os resultados começam a aparecer com clareza solar, e essa reconstrução merece nossa admiração e nosso respeito.

Talvez porque, para quem viveu aquelas piscinas, aqueles almoços, aqueles carnavais, aqueles sorvetes e aquelas tardes de música, o Náutico nunca tenha sido apenas um endereço.

Ele foi cenário de uma parte da nossa vida.

E há lugares que, mesmo quando mudam, permanecem exatamente onde sempre estiveram:

dentro da nossa memória.

Quando penso no Náutico daqueles anos, vejo novamente meus irmãos correndo para a piscina, ouço o barulho da água, lembro dos domingos, dos confetes, das serpentinas, das fantasias, das músicas e daquela alegria simples que parecia não ter hora para acabar.

Naquele tempo, nós não sabíamos.

Achávamos que estávamos apenas nos divertindo.

Hoje sabemos que estávamos, sem perceber, construindo algumas das melhores lembranças de nossas vidas.

Sérgio Jaborandy é Engenheiro, foi aluno do Colégio Militar de Fortaleza e Oficial da Marinha Mercante.

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