
Meu caro Vandré, que saudade imensa da tua arte.
A alma brasileira guarda um silêncio que só a tua presença é capaz de preencher. Sabemos, com a certeza dos que amam a verdadeira música, que a fonte da tua inspiração jamais secou; teu talento é como nascente antiga que continua a fluir no subterrâneo da alma. Se precisar, ressuscitaremos os antigos festivais, reergueremos os palcos sob as luzes da esperança, só para te ver subir os degraus novamente.
No teu tempo, a palavra era prisioneira e não se podia dizer quase nada. Hoje, ironia do destino, pode-se dizer tudo, até mesmo com a triste licença da santa ignorância. E a pergunta que nos inquieta, noitadas adentro, é justamente esta: será que, por estar tão banalizado o ato de falar, você se recusa a voltar para dizer?
Traga contigo os velhos colegas de vanguarda, teus parceiros de protestos, cantos e lutas. Será mesmo que a poesia de vocês só sabia marchar para um único lado da história?
Vandré, meu amigo, saia da toca! Deixe de lado os óculos escuros, desfaça-se da barba longa e do boné pesado que te escondem do mundo. Não há necessidade de nos contar tudo o que guardou nesses anos de recolhimento ou, se preferir, não nos conte absolutamente nada. O simples gesto do teu retorno já trará consigo todo o discurso que o país precisa ouvir.
Vem! Vamos outra vez caminhar e cantar, ou talvez só caminhar, ou quem sabe apenas cantar! Você uma vez nos disse que aprendeu a dizer não e a encarar a morte sem chorar. Pois saiba que, no Brasil de hoje, temos motivos de sobra para dizer não, para negar as sombras e, sim, muito pelo que chorar. O nosso extenso cardápio de dores e contradições contempla todos os olhares, dos mais inocentes aos mais calejados.
Nas tuas raras aparições, tuas entrevistas continuam lacônicas, marcadas por uma quase má vontade. Você tergiversa, esquiva-se, desconversa com a sagacidade de quem ainda se sente cercado por censores invisíveis. Com tuas respostas nebulosas e enigmáticas, você põe à prova a paciência e a boa vontade da imprensa. E que imprensa fraca a nossa, e quão caótico se tornou o nosso Poder Judiciário!
As agruras que o povo brasileiro atravessa continuam a merecer a tua garra, tua luta, tua trincheira. Estamos sufocados por um establishment penoso, cinzento, terrivelmente pobre de valores sociais e humanos. Tornamo-nos uma nação rica apenas em corrupção, vaidades e traquinagens de homens pequenos.
E na música… ah, meu amigo, na música estamos “nuzinhos”. Traga o teu baú de preciosidades guardadas, pois todos nós sabemos que a tua mente lírica nunca deixou de criar. Ajude-nos a vencer essa massificação estéril e barulhenta que um dia te afastou dos palcos. A nossa arte e o nosso cinema clamam por tuas melodias profundas, pelas tuas harmonias que arrepiam a pele.
Vem para a tua Paraíba. Ela te ama com um amor eterno e te acolherá com o abraço das tuas origens. Tua arte maiúscula e teu senso crítico cabem com perfeição no nosso cenário atual.
Vandré, meu caro, vem lutar conosco mais uma vez. Acredite: enquanto houver canção, teremos chance.
Helder Ferreira de Moura — 30-09-2026
— ACAL (Academia Cajazeirense de Artes e Letras).
— Instituto Histórico, Geográfico, Antropológico do Ceará (Sócio Colaborador).






