Central de embarque. Por Angela Barros Leal

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A que senta à minha esquerda é irmã da que está com água no coração. Um caso triste, por ser pessoa tão jovem, mas há indicativos positivos para recuperação desse pobre músculo indevidamente ilhado, como informou a médica. A que senta à minha direita, preparando-se para visitar a mãe, não tem a mesma sorte: trata-se de um certo tumor cerebral, terrível desde o nome a ele conferido, uma dessas excrescências agressivas que visualizo como um porco espinho esfomeado, cheio de pontas perfurantes e incontrolável crescimento.

A que senta à frente aguarda notícias do irmão, recém operado de um tumor no pâncreas. Não era a primeira cirurgia dele, e possivelmente não será a última, ela cochicha para nós três, alongando o tronco a nosso encontro para explicar melhor a complexidade do caso. Usamos máscaras, todas nós, por exigência do local, e a comunicação não se faz tão fácil.

Fomos chegando aos poucos nessa tarde de domingo, gotejando de uma em uma, a cada vez que abriam as portas do elevador de acesso à sala de espera da Central de Embarque, nomeada Unidade de Terapia Intensiva. Quinze minutos antes da hora da visita, dez minutos, em cima da hora, fomos entrando, sentando, ouvindo, perguntando e aguardando notícias de quem estava lá dentro.

A abertura da porta do elevador me interessa menos que a esperada abertura da porta de acesso à Unidade, motivo que nos trouxe a esse local, a essa hora determinada – e por não mais de uma hora, conforme determinado pelo Alto Comando. 

Arrisco o olhar para dentro, quando a porta dupla se entreabre em fresta anunciando o início das visitas. Vejo um longo corredor, um interminável corredor iluminado em prata e cinza. Transitam por ele, em passos inaudíveis de borracha e pano, seres vestidos de azul, mascarados como nós que aguardamos do lado de fora. 

Não vemos os rostos. Desconhecemos as expressões dos que zelam pelos nossos, que se encontram do lado de dentro. Não temos como dizer se ri ou se chora aquele que começa a chamar os nomes de quem viemos visitar, dando início ao acesso pela porta até então impenetrável.

Há um Centro de Comando Central, entronizado no meio do amplo espaço, controlador de todas as pequenas cápsulas onde repousam os que nos aguardam. Monitores zumbem, reluzem, apitam. Metais se chocam e seu tinido ressoa em meio ao som dos nossos passos, menos familiarizados com silêncios.

E lá estão eles, os nossos, ansiosos, impacientes, esperando nossa presença – ou pelo menos alguns deles, os que despertaram, pelo breve intervalo de uma hora, de seu sono real ou induzido. São como astronautas desencantados, todos eles, tentando retardar o embarque e a decolagem nas naves de onde partiriam sem companhia, e sem retorno. 

Estão presos a fios – um, dois, três fios, ou mais –, que os nutrem de alimento ou de oxigênio, que os prendem à solidez da Terra, que os ancoram para que não alcem voo tão já.

Estão cobertos com lençóis brancos, embora pontilhados, aqui e ali, de manchas de sangue, de produtos químicos, de sinais prévios de outros sofrimentos que não nos foi dado testemunhar. Estão fisicamente contidos pelas abas laterais dos leitos onde nos aguardam, uma prevenção a mais para evitar fugas pelos lados, ou escapadas imateriais pelo alto, qualquer uma delas indesejada.

A luz do fim de tarde de um domingo, esse “dia desterrado da Eternidade”, nas palavras de Baudelaire (citação que roubei há pouco de um livro de Javier Marías), lambe de leve o topo da parede e a curva do teto, ofuscada pelas luzes de led que evitam noite e dia a chegada da escuridão. 

De pé e a postos, qual sentinelas a serviço, temendo encarar os olhos deles, buscamos palavras amenas, catamos frases feitas, emitimos ruídos tranquilizadores, resgatamos o que nos foi dito pelo Controlador Chefe, no Centro de Comando Central, assegurando ter sido adiada a viagem: não agora, não tão cedo, não dessa vez.

Finda a hora, nos despedimos aliviados, apressados em deixar aquele ambiente de vida em suspensão, arrancando as máscaras e enchendo de ar nossos pulmões.  Por vontade própria vamos esquecer que, embora nos distanciemos qual sonâmbulos do Comando Central, em qualquer lugar e a qualquer momento podemos encontrar, de um minuto a outro, o atalho para uma dessas Centrais de Embarque.

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus.jor.

 

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