Ciro Gomes: Os ventos da hora não sopram a seu favor. Por Ricardo Alcântara

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Ricardo Alcântara é publicitário e escritor.

Em outubro, Ciro Gomes já fazia pesadas críticas a Lula e tinha 6% de intenções de votos. Em janeiro, mantinha o oponente na mira e alcançava 7% nas pesquisas. Agora, em abril, o ex-ministro de Lula ainda desancava o outro candidato e obtinha 8% nas sondagens. Se o objetivo for iniciar a campanha eleitoral com 10% na preferência dos eleitores e tentar somente ficar bem na fita, devo admitir que sua estratégia segue um roteiro exitoso.

Porém, se a pretensão for, como suponho e seus apoiadores sugerem, ultrapassar Bolsonaro e se projetar para o segundo turno, está usando um garfo para arar um latifúndio. Estratégia é um ordenamento favorável do esforço empreendido entre objetivo e meta. Sua medida é o resultado e o obtido até agora no posicionamento que escolheu não tem alimentado grandes esperanças. Mas o jogo é jogado e está apenas começando. A ver.

O favoritismo de Lula — à parte o legado positivo de seus oito anos de governo — se alimenta de duas fontes inesgotáveis de energia: o desastrado governo de Bolsonaro, que fracassou na tarefa fundamental de reverter a prolongada crise de emprego, e a falta de substância orgânica no segmento liberal das organizações partidárias, que preferem aguardar o vencedor para se compor com ele na formação de uma necessária maioria parlamentar.

Ao fim, a liderança de Lula na corrida presidencial resulta de uma vitória de Lula sobre si mesmo: o Lula, no que ele é “um político diferente dos outros”, supera o Lula no que ele é “um político como os outros”. Em bom português, os fins prevaleceram sobre os meios: a maioria da população parece disposta a pagar a conta amarga dos terríveis conchavos políticos que ele faz para obter as vantagens que ele entrega.

A linha opositiva que Ciro Gomes traça ao projeto petista — à parte o pote de mágoas que ele derrama toda vez que toca no assunto, e toca nele todo dia — se sustenta sobre argumentos razoáveis: o reformismo moderado do Lulismo não arranha os problemas estruturais do país. Nele, banqueiros fazem a festa e os pobres continuam pagando mais impostos do que os ricos. A única reforma que 14 anos de Lulismo fez nesse país foi a tomada de três pinos.

No entanto, a mensagem de Ciro encontra resistência em dois fatores. Primeiro: para se impor, requer estar sob a condução de uma liderança cuja dimensão ele não conquistou. A outra: passa ao largo das expectativas da massa assalariada, cujas pretensões são mais modestas (um emprego e preços compatíveis) e dos setores mais esclarecidos que, no momento, se darão por muito satisfeitos simplesmente em dar fim ao pesadelo Bolsonaro.

Ricardo Alcântara é escritor e publicitário

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