Conhecimento, paixão e polarização. Por Rui Martinho

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Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

O mundo está polarizado, encolerizado. A intolerância encontra arrimo na denúncia da intolerância do outro. As redes sociais são apontadas como a grande culpada pela conflagração das sociedades pelo mundo afora, apresentando-se de modo desigual entre diferentes países. Não se trata, todavia, de fenômeno tão novo quanto as tecnologias digitais, embora a difusão massiva e instantânea de (des)informação e de opiniões exerça influência muito relevante. As crises que se seguiram a Primeira Guerra Mundial polarizaram a Europa. Os anos trinta foram marcados por radicalização e polarização da sociedade brasileira. Os ânimos se exaltam mais facilmente em tempo de crises.

A conflagração das sociedades resulta da confluência das crises de (i) referências valorativas, (ii) do descrédito dos tradicionais formadores de opinião, (iii) do desgaste dos modelos de organização política, (iv) da súbita e ampla transformação cultural e de inumeráveis fatores. Abaladas estas referências a comunicação é prejudicada pela diversidade que os significantes adquirem em razão da multiplicidade de significados, prejudicando o fenômeno social básico que é a comunicação. Não há sociedade sem comunicação entre os seus possíveis integrantes. Signos linguísticos formam os sistemas em que cada um deles é o que o outro não é, conforme Ferdinand de Saussure (1857 – 1913). A inobservância da demarcação dos significados dos signos gera uma verdadeira babel e convida ao conflito.

Os gregos decidiam, na ágora, sobre problemas como fazer a guerra ou a paz, além de sacrifícios aos deuses por ocasião de epidemias. A complexidade da sociedade contemporânea nos coloca diante de problemas que desafiam a compreensão até dos eruditos e especialistas. Os candidatos a herdeiros dos reis filósofos de Platão (428/427 a.C. – 348/347 a.C.) propõem uma reengenharia social. O fracasso do filósofo citado, quando tentou aplicar em Siracusa os princípios de sua famosa obra “A República” não desanimou seus prosélitos que insistem no empreendimento demiúrgico, apesar da revisão do pensamento do autor citado em obra posterior “As leis”. O fracasso de todas as tentativas posteriores não abala os pretensos criadores de uma nova sociedade e por meio dela um novo homem.

Parece haver o que Thomas Samuel Kuhn (1922 – 1996), na obra “A estrutura das revoluções científicas” descreve como o fenômeno da incomunicabilidade dos paradigmas, também conhecido como cegueira dos paradigmas. Gaston Bachelard (1884 – 1962), na obra “O novo espírito científico”, mencionou obstáculos epistemológicos aos novos conhecimentos. Thomas Kuhn usou, ainda, a expressão “vacina contra a realidade”, que tem sido divulgada como imunização cognitiva. Tudo isso se restringe aos aspectos epistemológicos como entrave à percepção e ao entendimento da realidade. Outros fatores relevantes são: (i) paixões e (ii) interesse, fenômenos ligados às (iii) transformações das línguas vivas, (iv) cosmopolitismo, (v) mobilidade social e geográfica e (vi) manipulação por parte de comunicadores, (vii) de intelectuais e (viii) de líderes políticos.

A incomunicabilidade dos paradigmas gera o diálogo de surdos, exaspera e estimula conflitos. O exame de cada um dos aspectos aludidos exige um esforço de síntese. Aqui apenas formulamos um esboço de alguns aspectos relevantes como indicação para futuros estudos, procurando perspectivas não muito lembradas. Os obstáculos epistemológicos da Bachelard e a imunização cognitiva de Kuhn resultam de convicções e de instrumentos teóricos de apreensão da realidade. Rubem Alves (1933 – 2014), em um de seus escritos, disse com propriedade que quem usa anzol grande só pesca peixes grandes e pensa que isso confirma a hipótese de que naquele lago só existem peixes grandes. Conscientemente ou não ele explicou didaticamente a cegueira dos paradigmas e o obstáculo epistemológico. A hegemonia de um paradigma impõe o uso de categorias de análise e métodos, a exemplo do anzol grande que só pega peixe grande alimenta os pressupostos da tradição teórica, metodológica e política com um forte viés de confirmação.

A confusão entre (i) o positivismo de Auguste Comte (1798 – 1857) e positividade; (ii) a Teoria da Relatividade e o relativismo cognitivo e axiológico; (iii) liberdade de agir e de fazer (negativas) e liberdade de ser (positivas); (iv) desejos e direitos; direitos potestativos e direitos dotados de exigibilidade contra terceiros; desigualdade e diferença são considerações que serão abordadas oportunamente em sequência.

Fortaleza, 11/8/22.

Rui Martinho Rodrigues.

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