Deadline. Por Angela Barros Leal

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Tenho um deadline – digo aflita a quem me chama, mal erguendo os olhos da tela do computador. Tenho um deadline – repito, andando pela casa em busca de um livro que me ajudará no caminho para seguros e efetivos resultados. Tenho um deadline – insisto, qual o Coelho Branco preso aos intermináveis compromissos junto àdespótica Rainha de Copas, na história de Alice no País das Maravilhas.

Tenho um deadline. Um prazo final, eu poderia dizer em bom português. Um prazo limite. Uma data imutável, cujo descumprimento causaria a todos os envolvidos um turbilhão de transtornos. As expressões em português justificariam, sim, meu ostensivo desespero, especialmente por se tratar da produção de um livro, com data marcada para entrar em gráfica, e com dia e hora e convidados definidos para o lançamento.

Claro que funcionaria o uso na língua pátria. Mas não soaria tão dramático, tão impactante e importante quanto soa a palavra em inglês. Talvez porque deadline possa ser lido, palavra por palavra, ao pé da letra, como linha da morte, linha mortal – essa que, oficialmente, se denomina flatline, a linha reta e plana do eterno silêncio cardiológico.

Ter um deadline é outra conversa. Por alguma razão, penso que não receberia eu o mesmo respeito se estivesse repetindo, diante do computador, ou andando apressada pelo meio da casa, revirando livros e papeis, anunciando que “tenho um prazo final”, um “prazo limite”, uma “data imutável”.

Deadline parece tão mais poderoso, capaz de mover montanhas e abrir ao meio o Mar Vermelho. Moisés tinha um deadline, avistando o redemoinho de poeira procedente da cavalgada do exército egípcio, querendo de volta seus escravos israelitas. Tinha um deadline o barbudo Noé, olhando o ajuntamento rumoroso de nuvens a sinalizar a aproximação do Dilúvio, aflito ante o vagar do casal de tartarugas, do par de caracóis. Deadline têm os quatro Anjos do Apocalipse, lustrando seu arsenal de batalha.

O que vivencio é um deadline soft. Light. Deadlight. Pode-se sempre dar um jeitinho e cumprir os prazos, sem mortos nem feridos. Mesmo assim, prossigo empenhada em fazer melhor uso do termo no ambiente doméstico, para obter, do pessoal de casa, o indispensável respiro.

Importei o deadline das agências de publicidade nas quais trabalhei, e onde quase tudo era dito in English, a linguagem da Matriz da atividade. Os pedidos dos clientes sempre eram “para ontem”, uma exceção linguística no jargão da propaganda, e a brevidade dos prazos colocadospesava sobre nossas cabeças como as serpentes na cabeça da Medusa.

Recebíamos o briefing, e com o job nas mãos realizávamos ou não o brainstorming coletivo, dependendo da disponibilidade do timing concedido. Mergulhávamos no universo do target, criávamos o slogan, desenvolvíamos os layouts de folders, o storyboard, os spots, jingles, outdoors, busdoor, blimps, a mídia out-of-home, buscando o recall que fortalecesse as estratégias de brandingclaro que sem deixar de manter a criatividade dentro dos limites do budget pré-determinado.Mantínhamos opções em stand by, caso o primeirofeedback não fosse positivo.

O deadline da apresentação ao cliente, ou ao prospect, era como uma bandeira vermelha diante de um touro ensandecido, como um trem fora dos trilhos disparando, irreversível, ao nosso encontro. Depois de apresentada a campanha, ao final teríamos pelo menos mais um case, ainda que sofrido e suado, para fazer o nosso próprio merchandising, nosso networking em busca de melhores ofertas, em paragens menos intensas.

Isso tudo que digo já tem algum tempo. Aconteceu quando o marketing digital não se fazia tão dominante como hoje, introduzindo termos como os que me passou uma amiga, ainda atuante no mercado: inbound e outbond marketing,landing page, link building, backlink, buzzmarketing, e um batalhão de letrinhas reunidas em buquês de duas, de três, que substituem mais palavras em inglês: CTR (a taxa de cliques), CRO (otimização da taxa de conversão), até uma estranha sigla UX (para designar a experiência do usuário).

Mantenho, portanto, o uso do deadline para o livro, de tanta utilidade para me fazer de respeitável, de alguém premido pelo girar dos ponteiros, um ar de quem não pode se distanciar da tela por se encontrar no meio da travessia de um longo túnel, ao fim do qual tanto pode reluzir a data do lançamento, quanto novo deadline...

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