Duas praças. Por Angela Barros Leal

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Antônio Rodrigues Ferreira de Macedo (Vila Real da Praia Grande, atual Niterói, 1800 – Fortaleza, 29 de abril de 1859), conhecido como boticário Ferreira, foi um político, farmacêutico e militar que exerceu imensa influência nos destinos urbanos da Capital do Ceará.

O desembarque no Ceará de Antônio Rodrigues Ferreira se deu em mês não sabido do ano de 1825, momento de mais uma seca e de desmedida convulsão política na província e no Brasil. Pouco antes, ou pouco depois de sua chegada na Fortaleza acontecera, ou aconteceria, o fuzilamento de cinco revolucionários da Confederação do Equador. O Tenente Coronel Conrado Jacob de Niemeyer, vindo da Corte de Pedro I, trazia ordens severas para exterminar os que haviam liderado o movimento separatista no Norte.

Tristão Gonçalves já havia sido morto na fazenda Santa Rosa, seu corpo deixado insepulto e sua mão amputada levada às autoridades para comprovar o sucesso da missão. O Padre Gonçalo Inácio de Albuquerque Melo Mororó, que convencera a Câmara de Quixeramobim a declarar extinta a Dinastia de Bragança; o Coronel João de Andrade Pessoa Anta; o Tenente Coronel Francisco Miguel Pereira Ibiapina; o Major Luiz Inácio de Azevedo Bolão; e o Tenente Coronel Feliciano José da Silva Carapinima foram as vítimas seguintes. Caíram ao chão do Largo do Paiol, logo atrás da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, fuzilados em seguidas manhãs ensolaradas de abril e de maio. Espetáculos tão sangrentos que levaram a própria Corte a pausar futuras execuções.

Imagine-se como seria, em 1825, essa quadra a ser denominada Praça dos Mártires, mais tarde Passeio Público. Sob um céu sem nuvens, apenas o Forte centenário imperava na paisagem acima do nível do mar. Apague-se da mente a visão do edifício da Santa Casa de Misericórdia. Delete-se a imagem do prédio da Cadeia Pública. Ponha-se no patamar dos sonhos a Estação Ferroviária. O cemitério São João Batista.

Caso houvesse vegetação no espaço árido, seria a essa altura da seca formada por árvores resilientes, moitas de mato ressecado, pés esparsos de cajueiros, coqueiros. O cheiro de fogueiras queimando lixos domésticos, cheiro de pólvora, de maresia. E o terreno arenoso, poeirento, sedento de água ou de sangue, ocupado por depósitos guardados a mão armada, preservando munições para aquela e outras batalhas.

Passeio Público Foto: Thiago Matine

Se Antônio Rodrigues Ferreira esteve próximo ao cenário da execução, se presenciou ou não tais fatos, são questões a discutir. Certo é que a vila devia ainda estar sob o impacto daqueles meses fatídicos de 1825, e que o recém-chegado niteroiense, aos 25 anos, era experimentado o bastante para saber a conveniência do não envolvimento imediato em questões políticas locais, ele próprio tendo fugido de prisão injusta na Corte, acusado de Liberal quando se sabia Conservador “por princípios e por simpatia”.

A prioridade era estabelecer seu negócio, uma pequena botica diante da Praça Municipal, fazendo uso da licença concedida em Recife para a prática da atividade na qual se iniciara, como balconista, no Rio de Janeiro. Moraria a vida inteira no mesmo endereço, onde casaria com Francisca Áurea de Macedo, e onde faleceria em 29 de abril de 1859 de um “aneurisma da aorta pectoral”, conforme diz o jornal Pedro II. Viveria 59 anos.

Farmácia era sua prática, mas politica era seu destino. Tornou-se figura popular e querida de grande parte da população, o Ferreira boticário. Venceu eleições para a Câmara de Vereadores, da qual fez parte e a qual presidiu durante 18 anos. Aproveitou o período na administração pública para contribuir com o “aformoseamento” da capital cearense, na expressão do historiador Paulino Nogueira.

Praça do Ferreira. Foto: Governo do Estado

Arborizou a Praça Municipal, que teria seu nome. Comandou a escavação de “grandes poços de pedra”, como descreve o cronista João da Praia, ali e nos largos de Pedro II (Praça da Sé), Garrote (Cidade da Criança), e Carolina (Praça da Assembleia). Apressou o projeto de construção da Santa Casa e coloriu de verde a Praça onde se deram as execuções no ano de sua chegada ao Ceará. Alinhou as ruas, fazendo valer a planta traçada pelo engenheiro português Antônio José da Silva Paulet. Conferiu a Fortaleza “tudo quanto de melhor, profícuo e belo o viajante vê e admira numa pequena capital do Norte”.

Duas praças, Passeio Público e Praça do Ferreira. Costuradas em raízes e histórias na vida breve do Boticário Ferreira.

 

Angela Barros Leal é jornalista e escritora. Autora de 18 livros. 

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