
O ex-prefeito de Sobral e hoje consultor da Fundação Lenman, Clodoveu Arruda, foi um dos primeiros a contrair a COVID-19 no Ceará. Há quase um ano, pouco se conhecia acerca do tratamento. A Europa já vivia o terror dos hospitais colapsados e das mortes em série.
A seguir, pela primeira vez, “Veveu” faz um tocante relato dos difíceis dias que enfrentou para superar a doença.
14 de março, 2020. À noitinha, uma morrinha no corpo.
Estava em Sobral. Nem desconfiei. No dia seguinte, já à noite, febril. Tomei um remédio de combate à febre.
Na manhã da segunda-feira, dia 16, sem sentir nada, recebi na minha casa a visita de dois amigos. Ao nos cumprimentarmos e sentir minha mão quente, Paulo Flor disse: “Você devia fazer o exame para Covid”. Alertado, resolvi fazer. À noite, febre de novo. Na tarde da terça-feira, por telefone veio a confirmação. Deu positivo, era mesmo COVID-19.
Permaneci em casa, isolado no quarto, aos cuidados de minha filha Clara, meu genro João, com meu netinho Joaquim e da Lourdes, com as suas rezas e água benta. Na rede, passei sete dias. Leitura, filmes e comidas. Sempre no quarto. E sempre com febre, que só era vencida por Tilenol. Minha filha fez vir um infectologista. Ela se comunicava com Izolda e outros filhos, em Fortaleza. Estava mais preocupada do que eu.
Febre todo dia, o dia todo. Izolda e filhos insistem pra eu vir pra Fortaleza, no sábado. Chego e vou direto pro hospital. Lá, faço um tomografia. Presença de infiltração no pulmão. Já estava internado. Duas outras tomografias foram feitas e, com meu pulmão com 50% comprometido, não tinha outros sintomas que não a febre. Depois ouvi na BBC sobre a traiçoeira pneumonia silenciosa.
Febre….
No 2o dia, o médico diz: “Veveu esses medicamentos que vc está tomando, não sabemos se vão funcionar. Não há evidências científicas disso. O que vai resolver é seu organismo “
Pela manhã, a copeira perguntava se eu estava acompanhado. Mesmo sozinho, respondia logo que sim. Ela deixava dois cafés
Comia os dois… comida boa!
Depois, andava um hora dentro do quarto. Contei, dava 10 passos. Andava que suava!!
Se é meu organismo, decidi cuidar dele. Fazia exercícios de respiração. Puxava fundo e soltava pela boca. Demorava nisso.
Meu celular só funcionava para Izolda e meus filhos. Foquei em minha saúde. Fazia das visitas das enfermeiras e técnicas de enfermagem e das zeladoras um momento agradável. Fiz amizades.
Tudo gente muito boa, dedicadas e atenciosas. Ali eu já sabia do que rolava no hospital e mesmo fora de lá: “quase nada se sabia dessa doença”, “o paciente do quarto vizinho saiu ontem pra casa e o do outro quarto foi pra UTI, que está cheia”. Chega- me a notícia de que o sogro em Crateus foi internado.
Teve uma que trouxe um pedaço de bolo, que havia feito em casa. Saboroso. Da janela, no terceiro andar, eu via o quase nenhum movimento na rua, o movimento das nuvens no céu, o por do sol entre os prédios.
A febre agora marcou hora pra chegar: 19.30/20.00 hs!! Todo dia. E o médico dizia que a tomografia piorou. Por mais duas vezes. E além da febre eu não sentia nada!! Como pode ter piorado?
Observei, que, antes da hora da febre, quando fazia a respiração profunda, eu agora tossia ao puxar pelos pulmões. Um sinal, que acontecia para anunciar a febre. Mesmo com a tosse, insistia no exercício da respiração (sem puxar tanto para evitar o incômodo de tossir).
O médico numa visita comentou: “Seu vizinho querendo ter alta, porque se sente melhor, mas a tomo dele não indica isso”. Era um recado pra mim. “Doutor, não tenho pressa. Tenho calma para ficar bom!
E ele: “Você precisa de três dias sem febre para ter alta”.
Na quinta, já 19 horas, torcia para não ter febre. Quando a enfermeira examinou estava 37.3… depois 37.6. Ela diz que se chegasse a 37.7 teria que me dar a medicação.
Aí decidi também cuidar do meu espírito. Destreinado, resolvi fazer uma oração. Fechei os olhos e com a imagem da mamãe, bem viva, também da Izolda, dos meus quatro filhos e netos, duas irmãs e a mãe Teresa, rezei. Pedi à mãe pra cuidar de mim, como sempre fez a vida toda. Que ela conversasse com Jesus Cristo. Que a febre não subisse, mas diminuísse para 37.5. Juntei outras companhias na reza.
Pedi água à enfermeira, que já voltava para medir novamente a minha temperatura Bebi, concentrado no desejo de que a água lavasse a febre e não subisse.
A enfermeira exclamou: “Baixou para 37.3. Voltou depois e agora 37. Sorri e agradeci à mamãe e sua turminha. Comi a fruta da ceia.
Amanhece. Os dois cafés e depois para o “cooper”.
Na sexta à febre não veio.
No dia seguinte, final da manhã, o médico disse que eu estava de alta. Almocei e fui pra casa.
Era sábado!







