Revestido de um outro, de um heterônimo se pode dizer qualquer coisa. Foi então que Fernando Pessoa escreveu como quem fala pela boca de alguém ou simplesmente disse:
Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.
Seguindo o raciocínio do poeta, lembro do profeta, do sábio que, perambulando pelos caminhos dos corações humanos, fez uma declaração muito parecida: “quem tem ouvidos de ouvir e olhos de ver” que ouça, que veja, uma metáfora bíblica. Como das tantas que o Cristo utilizava porque ao dizer das coisas simples: ovelhas, montanha, luz, pão… que fazia parte da realidade de quem o ouvia.
Jesus tinha uma doçura enérgica de ensinar por meio de parábolas. Para separar aqueles que apenas assistiam ou escutavam de forma superficial daqueles que realmente compreendiam a essência da mensagem. Do que ele disse, não do que ele quis dizer.
Lembro do mito genesíaco de que ao pronunciar cada palavra as coisas e as pessoas passaram a existir. Bastou um Fiat Lux e a luz se fez. Dizer uma palavra faz com que as coisas existam? E depois delas existirem e terem formas e nomes dizem que elas são elas mesmas? Como pode um unicórnio ter forma e tamanho e eu não poder tocá-lo ou montá-lo como fazia na mula que meu pai comprou quando era criança e caía tantas vezes. Preferi andar de bicicleta, mula não era meu forte. A mula sempre ia para onde ela queria, a bicicleta precisava pedalar, girar o guidão. Não basta só pensar. Deve existir uma conexão entre o pensamento e a ação. Deve de haver uma palavra que eu diga e a pessoa que eu amo ao ouvir pegar uma flor e a colocar entre os seus cabelos, ou não. Dela, ao ouvir entender que a sua existência é respeitada, que sua voz independente se concorda ou discorda de mim é respeitada. Que ela se sinta viva e sem medo quando está perto de mim.
Onde quero chegar é um passo além disso. É necessário um gesto a mais. Dizer que as palavras são sutis é um eufemismo, uma metonímia, uma hipérbole, uma anistia ou uma condenação. É preciso mais do que saber ler, é preciso ter ouvidos capazes de ouvir e de entender as estrelas, como Bilac.
Tomo como exemplos duas palavras que os treinadores de subidores de montanhas gostam: rígido e rigoroso. E aponto para uma diferença principal que basta pesquisar que encontraremos o que está no cerne da questão: rígido refere-se à falta de flexibilidade, resistência a mudanças e dureza (física ou de gênio), enquanto rigoroso refere-se ao cuidado com exatidão, atenção a detalhes, disciplina e cumprimento estrito de regras ou padrões. O rígido não dobra, aprendeu a não se dobrar. Feito dobradiça que não se verga, vai para lá e para cá, para onde a mão aponta. Rigoroso é diferente tem profundidade. Não tem a ver com quebrar todas as regras tem a ver com conservá-las, dura lex sed lex, a lei é dura mas é a lei.
De um lado temos o rígido, aquilo que é estático, inflexível, dogmático e sem vida. Sem poesia, sem música, muito próximo ao que Manuel Bandeira disse: do que importa a glória, a paisagem, a baia, a linha do horizonte se só vejo o beco? O rígido impõe respostas prontas, regras cegas e estruturas imutáveis ao que Rubem Alves chama de escolas que são gaiolas. O rígido paralisa o pensamento, impede a criatividade, pune o erro e força o indivíduo a se adaptar a um molde preestabelecido, a um lema perigoso: Deus, pátria e família.
Passo agora ao outro termo, rigoroso. Tem rigor. É aquilo que tem profundidade, compromisso e busca pela verdade, que não se contenta com o pouco. Mas mantém-se flexível e vivo. O rigor não está em seguir normas burocráticas, mas sim na precisão do pensamento, na arte de saber fazer boas perguntas e na honestidade intelectual de explorar o que resta desconhecido, que ensina a pensar de forma livre, responsável e poética. É como receber uma ligação inesperada de uma paixão que ainda nasce e você tem a certeza: “você ligou naquela tarde vazia e me faz valer o dia”, como a música do Ira.
Ou como aprendi de um santo que gostaria de ser Instrumento que fez numa noite de jejum e penitência. Quando um dos frades ao fazer longa caminhada de evangelização começou a chorar de fome no meio da noite. O Serafim de Assis acordou, e sabendo que mesmo em dia de jejum precisava ter olhos de ver: acordou todos os frades e foi fazer uma sopa, porque viu que não era bom alguém pregar tanto o jejum e oração e chorar de fome na madrugada.
“É inacreditável não enxergarem”. Li essa frase hoje de manhã:E ela me toca profundamente. Quem não enxerga, pode ter vários sentidos, mas tem também uma contradição. Pode estar dormindo, disperso, hipnotizado.
Repare que disse anteriormente doçura enérgica. Um algo de tenebrosamente belo, terrivelmente lindo, que ultrapassa os limites estreitos das palavras e suplantam ou fortalecem as contradições dos extremos opostos, postos lado a lado não como escolhas, mas paradigmas, oráculos de uma esfinge: decifra-me ou te devoro!
Pensei nas contradições, nos silogismos e categorias de palavras que dão base ao pensamento moderno. Nossa moral é judaica, nossa lei é romana e nosso pensamento é grego. Escrevo que é por causa de seu fundamento, da raiz que moldou as regras, princípios e conceitos-ideias.
Alguns verbos sobressaem aos outros. Não porque soam melhores ou são mais bonitos. A beleza não elimina a tragédia. E o que digo do que sei e do que não sei é mais forte do que eu mesmo sei, ultrapassa os limites da minha cognição. O mundo existe além de mim.
Ainda que Protágoras de Abdera, no século V a.C tenha dito que “o homem é a medida de todas as coisas”, das que são e das que não são, são apenas duas faces da mesma moeda. Ou seja, não existe uma verdade absoluta e imutável.
Pode-se acrescentar um outro ponto de vista, segundo o qual os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo” do filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein.
Ou ainda para expandir as ideias trago o pensamento de Arthur Schopenhauer, que para ele a representação é tudo aquilo que é percebido e conhecido pela mente, correspondendo ao mundo tal como ele aparece para o sujeito o que a filosofiachama de o mundo fenomênico.
Para explicar melhor, a representação só existe porque há uma relação entre o sujeito que percebe e um objeto que é percebido. Muito próximo do que Kant afirmava, que o ser humano não conhece a Coisa em Si. Se o si fosse apenas uma nota musical teria um outro tom, embora o si de kant fala da realidade última.
Juntar todos os verbos não formaria uma frase. Não teria uma harmoniosa melodia. Não basta ter olhos, é preciso ter olhos de ver, não basta não ser cego. Não basta ter ouvidos. É preciso ter ouvidos de ouvir, e não de mercador. Quem lê sabe o que quero dizer.
Ter ouvidos de ouvir está além da capacidade da audição. Significa entender a mensagem no coração, despertar a empatia e aplicar os conhecimentos no dia a dia.
Entre poesia, filosofia e teologia lembro de uma assertiva que aponta para a ideia de que “cada um lê com os olhos que tem. E interpreta a partir de onde os pés pisam. Todo ponto de vista é a vista de um ponto e adiante acrescenta que a cabeça pensa a partir de onde os pés pisam. Finaliza dizendo que para compreender é essencial conhecer o lugar social de quem olha.
Não a toa se diz que ultimamente requer três condições básicas para escolher: A memória crítica, a interpretação de texto e a consciência de classe. E um pouco de compaixão ou misericórdia, dois termos muito esquecidos. Olhar com a minha miséria a miséria do outro. Ter a capacidade de sentir a dor do outro, como olhamos a de Jesus. Me colocar no lugar dele, na paixão da sexta-feira santa, não como seu algoz, mas como José de Arimateia, um homem rico do Sinédrio.
Outro dia conversando com um amigo ele disse algo interessante: ” quando um renomado filósofo soube da morte do amigo do autor de A servidão voluntária, lembrou de uma pergunta que lhe fora feita, por que amava tanto o amigo e ele disse: porque ele era ele e eu era eu. Meu dileto amigo, por quem nutro grande afeição, resumiu o pensamento dizendo que a grande dádiva da existência consiste em cada um ser quem é. Da raridade se poder ser quem de fato a gente é.
Mas, e o mas não é só palavra “mas” funciona principalmente como uma conjunção coordenativa adversativa, indicando oposição, contraste ou quebra de expectativa (com o sentido de porém, todavia, contudo), conforme pesquisei na web, o mas indica que se pode dobrar, que se pode virar, seja o voto, a ideia ou a direção. Muito próximo ao que O poeta lembrou:
Faz escuro mas eu canto,
porque a manhã vai chegar.
Vem ver comigo, companheiro,
a cor do mundo mudar.
Vale a pena não dormir para esperar
a cor do mundo mudar.
Já é madrugada,
vem o sol, quero alegria,
que é para esquecer o que eu sofria.
Quem sofre fica acordado
defendendo o coração.
Vamos juntos, multidão,
trabalhar pela alegria,
amanhã é um novo

Esse artigo é parte de um debate de ideias referentes aos textos de Assis Ciríaco e Alana Alencar






