
Manifesto reúne 35 religiosos e critica posições do candidato sobre armas, meio ambiente, direitos trabalhistas e soberania; carta é divulgada três dias antes do segundo turno
Um grupo de bispos católicos afirma que a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) representa uma ameaça à democracia brasileira, à soberania nacional e ao bem comum. Em carta aberta divulgada nesta quinta-feira (22), os religiosos convocam os fiéis a votar no domingo (25) em defesa dos pobres, dos valores humanitários e dos princípios da Igreja Católica.
Até a tarde de quinta-feira, 35 bispos haviam assinado o documento, que permanece aberto a novas adesões, segundo a Folha de S.Paulo. Uma reportagem da CartaCapital informou posteriormente que o número havia chegado a 36.
Embora não cite nominalmente os candidatos, o manifesto identifica Flávio como alvo das críticas ao mencionar suas posições sobre a escala de trabalho 6×1, a ampliação do acesso a armas, a crise climática e a relação do Brasil com os Estados Unidos. O texto também questiona a trajetória política da família Bolsonaro e alerta para riscos às instituições democráticas.
“Uma das candidaturas ameaça frontalmente diversos pontos centrais da Doutrina Social da Igreja, a existência da democracia, a soberania nacional e a prática do bem comum”, afirma a carta.
Armas, clima e soberania no centro das críticas
Os religiosos sustentam que as propostas atribuídas a Flávio entram em conflito com princípios da doutrina social católica, especialmente a defesa da vida, a dignidade humana, a justiça social e a proteção dos mais vulneráveis.
Na área de segurança pública, o manifesto critica a promessa de ampliar o acesso a armas, associando essa orientação à política adotada durante o governo de Jair Bolsonaro (PL).
No campo ambiental, os bispos contestam o que classificam como negação da crise climática e defendem a preservação da chamada Casa Comum, conceito recorrente no magistério católico para designar o planeta e a responsabilidade coletiva por sua proteção.
A soberania nacional também ocupa lugar central no documento. Os signatários questionam a orientação atribuída ao candidato nas relações com Washington e demonstram preocupação com a possibilidade de subordinação dos interesses brasileiros a interesses estrangeiros.
Direitos trabalhistas e combate à pobreza
A carta também critica a posição de Flávio Bolsonaro sobre o fim da escala 6×1, regime que prevê seis dias de trabalho para um de descanso.
Para os religiosos, a discussão não se limita à organização das jornadas: envolve a dignidade dos trabalhadores, o direito ao descanso e as condições necessárias para uma vida compatível com os princípios humanitários defendidos pela Igreja.
O documento ainda questiona o histórico do campo político bolsonarista em relação às políticas sociais e à proteção dos mais pobres.
A argumentação está alinhada à Doutrina Social da Igreja, que considera a dignidade humana, a solidariedade, a justiça social e o bem comum critérios fundamentais para avaliar a organização econômica e política da sociedade.
Alerta sobre riscos institucionais
Os bispos também evocam a trajetória de Jair Bolsonaro e as posições políticas de seus familiares para justificar o alerta sobre a democracia.
O manifesto menciona homenagens feitas por integrantes da família Bolsonaro ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido pela Justiça brasileira como torturador durante a ditadura militar.
Os signatários afirmam ainda que declarações atribuídas a Flávio levantam preocupações sobre o respeito à ordem constitucional. Na avaliação do grupo, uma eventual maioria parlamentar alinhada ao candidato poderia ampliar os riscos institucionais.
Essas afirmações representam a avaliação política dos autores do manifesto, e não uma decisão judicial que declare Flávio Bolsonaro responsável por uma ameaça à democracia.
Bispos rejeitam neutralidade eleitoral
O documento defende que os católicos não se omitam diante da disputa presidencial. Para os signatários, o voto deve considerar não apenas preferências partidárias, mas também as consequências sociais, ambientais e institucionais das propostas dos candidatos.
“Gostar ou não do atual governo não pode ser razão para entregar o país nas mãos de quem manifesta tamanha contradição com os ensinamentos de nossa Igreja”, afirma a carta.
Sem mencionar Lula (PT) pelo nome, os religiosos apresentam a candidatura adversária como uma alternativa que, apesar de sujeita a críticas, teria demonstrado compromisso com os mais pobres e atuado dentro dos limites da ordem democrática.
O grupo responsável pela articulação é o movimento Bispos do Diálogo pelo Reino, que já havia divulgado, em agosto, uma manifestação contra o que classificou como conservadorismo autoritário no ambiente religioso.
Carta não representa endosso oficial da CNBB
A manifestação dos religiosos ocorre em meio a uma mobilização mais ampla de setores da Igreja em torno das eleições. Em 21 de outubro, o Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou mensagem defendendo a Constituição, o Estado Democrático de Direito, o voto consciente e o respeito aos resultados das urnas.
A mensagem institucional, entretanto, não cita candidatos nem partidos. A carta contra a candidatura de Flávio é uma iniciativa do grupo de bispos que a subscreve e não deve ser confundida com um endosso eleitoral formal da CNBB.
A distinção é importante porque a Igreja Católica reúne diferentes correntes e sensibilidades políticas. O manifesto expressa a posição de seus signatários, que reivindicam a Doutrina Social da Igreja como fundamento para uma intervenção pública mais explícita no debate eleitoral.
Com o segundo turno marcado para domingo, os bispos transformam a disputa presidencial em uma questão que, para eles, ultrapassa a escolha entre dois candidatos: está em jogo o modelo de país que consideram compatível com a democracia, a justiça social, a soberania e os valores do Evangelho.
Fontes: Folha de S.Paulo, coluna de Mônica Bergamo, 22 de outubro de 2026; CartaCapital, 22 de outubro de 2026; Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), mensagem sobre o segundo turno, 21 de outubro de 2026.







