A Seleção Italiana de Futebol, a Azzurra, ostenta quatro Copas do Mundo (1934, 1938, 1982 e 2006). Acompanhou a evolução do esporte desde os tempos em que ele ainda engatinhava até a era do futebol moderno e inflacionado. Pouco a pouco, o futebol perdeu o glamour, o amadorismo e deu lugar ao profissionalismo de mercado, transformando-se em um negócio de valores estratosféricos. Ouso dizer que não existe outra atividade no planeta com remunerações e volume de recursos tão astronômicos.
O que intriga, porém, é a decadência da Azzurra: fora de três Copas consecutivas (2018, 2022 e 2026) e eliminada ainda na primeira fase em 2010 e 2014. O título da Eurocopa em 2020 serviu apenas como uma cortina de fumaça para encobrir um problema profundo.
Analistas de sentinela apontam diversas causas:
Falta de renovação estrutural;
Presença excessiva de estrangeiros (o intercâmbio, que antes somava, passou a sufocar a base);
Crise institucional e instabilidade política;
Fatores demográficos e econômicos.
Não existe diagnóstico único para cravar a causa exata. Em décadas recentes, o futebol italiano, financiado por grandes corporações, era o mais atraente para os craques e referência em modelo de negócios. O cenário atual, contudo, é fruto de gestões fraudulentas em clubes e federações, salários inflacionados e queda drástica nos patrocínios. O fato é que a Azzurra continua a patinar.
E nós? Estaríamos na mesma situação se as nossas eliminatórias não fossem tão generosas?
O Brasil é pentacampeão mundial (1958, 1962, 1970, 1994 e 2002), mas vive hoje o seu maior jejum desde a conquista do primeiro título. Em 2023, registrou seu pior aproveitamento histórico (apenas 37%) e acumulou derrotas vergonhosas. Nas últimas
Copas, a Seleção não venceu um adversário de primeira prateleira. Em 2014, veio o inesquecível 7 a 1 no Mineirão, com 5 gols em 18 minutos.Na época, dizia-se que a Alemanha havia desenvolvido um modelo de formação imbatível que a manteria no topo por décadas. Não aconteceu. O futebol ignora a lógica matemática e é extremamente desobediente a modelos engessados.
As perguntas que não calam: Quais são as causas do nosso péssimo momento?
Descalabro na gestão da CBF e instabilidade administrativa (trocas constantes de comando e escândalos);
Falhas graves na formação de atletas e escassez em posições fundamentais;
Perda de identidade no estilo de jogo e jejum nos torneios de base;
Êxodo precoce de jovens atletas, que se distanciam da cultura e das raízes do futebol brasileiro;
Substituição do futebol intuitivo e de rua por atletas “industrializados” pelo marketing global.
Para qualquer atividade humana, exigem-se normas, regras e planejamento. Mas será que nas conquistas do passado o Brasil tinha tudo isso? Não. As reclamações da época eram gritantes: brigas entre Rio e São Paulo por hegemonia, falta de estrutura, desassistência aos jogadores, entre outros problemas.
Ainda assim, chamo a atenção para um ponto crucial: só ganhamos Copas quando tínhamos verdadeiros gênios , algo que hoje nos falta. Meu amigo Wilton Bezerra, grande comentarista, diverge dessa tese. O jogador que sai muito cedo do ninho não consegue voar alto; a pressão financeira pesa e falta maturação. Soma-se a isso a péssima gestão e uma imprensa que endeusa atletas de currículo raso.
Coincidência ou não, se a Azzurra e a Seleção Brasileira estivessem no mesmo continente, estariam trocando figurinhas na mesma sarjeta.
Helder Ferreira de Moura é Cirurgião Dentista, especialista em saúde pública, prótese dentária e ortodontia e ortopedia dos maxilares. Membro Fundador da Academia de artes e letras de Cajazeiras.






