O perigo sinuoso dos verbos, dos sinônimos, dos homônimos… Por Alana Alencar

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Provocada pela questão levantada em um artigo sobre “o desafio de construir um ‘nós’ e uma reflexão sobre as suas consequências”, qual seja saber se “aceitamos também a mudança quando ela contraria nossas expectativas?”, decidi escrever sobre o tema. Não apenas por se tratar de um assunto sobre o qual tenho pensado e estudado intensamente no último ano (para além do ‘nós’, seja pronome, seja substantivo), mas por concordar ativamente com a necessidade de enfrentá-la, discuti-la e repensá-la tantas vezes quantas forem necessárias, sobretudo nos dias atuais, quando o cenário geopolítico nos convoca a refletir sobre os rumos da humanidade e as formas de convivência que temos construído, além dos laços sociais aos quais estamos enodados.

Escrevo, então, sobre o perigo dos verbos, dos sinônimos, dos homônimos e de suas correlatas conjugações. Sobre o uso das palavras e suas significações dentro dos discursos.

Debater é parte de um dos movimentos que considero fundamentais ao desenvolvimento psíquico, ético e moral de qualquer ser humano, da mesma forma que compreendo o debate como um dever de cidadania e que, no meu caso, como mulher e artista, assume uma dimensão de primazia, por estar intrinsecamente ligado à defesa de um dos direitos mais caros que conquistamos: o direito ao verbo, ao ato e ao pensamento dentro da construção do mundo em que vivemos.

Quando leio a pergunta “aceitamos também a mudança quando ela contraria nossas expectativas?”, várias outras perguntas ocupam meu pensamento: de que mudanças estamos falando? Quais expectativas estamos considerando contrariadas? O que estaríamos também aceitando além dessas mudanças? Por que o verbo escolhido para abrir a questão foi o verbo ‘aceitar’? E por que penso tudo isso enquanto questão?

Talvez a escolha do verbo aceitar esteja diretamente relacionada à ausência de uma demarcação mais precisa dessas outras questões implicadas à pergunta, cuja abertura deixa margem a muitos questionamentos. Aceitar, em seu dorso construtivo, precede de um predicativo filosófico cuja origem nem sempre se consegue identificar sem levar em conta os mal-entendidos e que são tão comuns nas relações. Aceitar o quê? Por quê? Para quê? Como?

Trago para a discussão, em contrapartida, outros dois verbos: respeitar e tolerar. Penso que ambos alcançam outras posições fundamentais dentro do tema, pois trazem, em seus arcabouços semânticos, o reconhecimento de posições éticas.

Em todos os casos (aceitar, respeitar, tolerar), há algo fundamental a ser considerado. Se o verbo aceitar não pode (nem deve) significar acolher cegamente qualquer coisa, sem interrogar os predicativos que sustentam essa aceitação, respeitar tampouco pode ser confundido com concordar irrestritamente, pois pressupõe o reconhecimento da existência do outro, de sua dignidade e de seus direitos.

Essa distinção ganha especial relevância diante dos discursos que temos ouvido e enfrentado, nos quais os limites entre o que se deve aceitar, o que se deve respeitar e o que não se pode tolerar voltam à pauta.

Uma coisa é aceitar ou respeitar aquilo que preserva a nossa existência, a nossa dignidade e os nossos direitos; outra coisa é aceitar aquilo que pode excluir, anular ou segregar a nossa própria existência. Como respeitar ou tolerar (sem cair na armadilha da ignorância) aquilo que exige a supressão do outro?

Reconhecer a existência de quem pensa diferente não significa legitimar discursos e práticas que ameacem essa existência, mas sim defender as condições para que possamos coexistir livremente, sob a garantia constitucional de igualdade em deveres e direitos.

O mesmo exercício de questionamento se impõe quando pensamos nas expectativas que, na questão suscitada, aparecem como contrariadas. De que expectativas estamos falando? Quais são as nossas expectativas, por exemplo, quando votamos em determinado candidato para nos representar enquanto cidadãos de uma mesma nação?

Mesmo diante da polarização que temos vivido, das “guerras de ideias” e de conflituosos posicionamentos, parece-me que as expectativas em relação ao futuro do país encontram algum ponto de convergência e que, em alguma medida, desejamos um futuro melhor, embora as concepções do que seria esse melhor possam ser radicalmente distintas.

Não há propriamente nenhuma novidade extraordinária em constatar que, quando as expectativas coletivas se vinculam às convicções individuais e são tomadas pela força da paixão, essa aparente convergência se desfaz… E isso se evidencia nos mais diversos discursos que tenho lido e ouvido.

Aquilo que, em princípio, poderia nos aproximar passa a assumir contornos muito particulares, independentemente de partido político. Cada sujeito constrói expectativas próprias, atravessadas por suas experiências, seus valores, suas identificações e suas formas de compreender o mundo.

É nesse ponto que a pergunta inicial ganha novas perspectivas… Para além da constatação que cada um precisa fazer sobre suas próprias expectativas, é necessário que se reflita que viver em sociedade pressupõe estarmos dispostos a reconhecer o outro, convivendo com as diferenças e acolhendo as decisões tomadas pela maioria, desde que determinados limites não sejam ultrapassados.

É nesse ponto que esbarramos não apenas nos limites assegurados pelo regime democrático, mas também naqueles de ordem simbólica e moral, que nos impedem de admitir, como condição de convivência, aquilo que se pretende excluir, aniquilar ou até mesmo negar a existência do outro.

O que temos ouvido em determinados discursos aponta precisamente para esse impasse: a perda de direitos (inclusive de existência) e o retrocesso em conquistas que possibilitaram o avanço de uma sociedade mais livre e respeitosa.

Ora, se a democracia pressupõe a participação da maioria para a concretização de seu exercício, ela não pode servir de justificativa para suprimir os direitos de quem diverge ou constitui uma minoria.

Quando deixo de reconhecer o outro como sujeito de direitos (e, na nossa sociedade, muitas pessoas sequer se reconhecem como sujeitos livres com direitos garantidos), atravessa-se um limite que não se deveria estar disposto a transpor: não se trata apenas de algo que não se deve aceitar, mas sim de algo que não pode ser legitimado em nome do respeito, tampouco tratado como simples objeto de tolerância.

Não se trata, portanto, da expectativa individual que será ou não contrariada, mas da preservação do campo em que ainda podemos produzir expectativas, quaisquer que sejam elas, inclusive as mais passíveis de frustrações.

Podemos nos decepcionar, achar ruim, contestar, bater o pé e continuar discordando (essa não deve ser a questão). O que não podemos é destruir as próprias condições que tornam possível essa discordância e, consequentemente, a nossa coexistência, a duras penas conquistada (basta ler a história).

Ou seja, o que está em jogo é a preservação desse campo de possibilidades de se poder criar expectativas, e não a concretização de que nossas expectativas particulares sejam atendidas.

As Trinta Gloriosas e a delirante vontade de “antropofagir” o outro
É natural que existam muitas maneiras de querer um mundo melhor para si e para os outros… E a antropofagia nos oferece uma boa metáfora para pensar esse desejo.

Um retrato de Oswald de Andrade (1890-1954), o mais radical dos modernistas que participaram da Semana de Arte Moderna de 1922.

A ideia de devorar, de comer a carne humana, do outro, foi utilizada de forma muito astuta por Oswald de Andrade, que converteu o sentido da palavra em potência simbólica. Ou seja, o movimento antropófago de devorar o que vinha de fora, assimilá-lo e, ironicamente, combatê-lo com ideias e língua própria foi absolutamente inovador e preciso naquela época.

Entretanto, proponho, para os dias atuais, uma torção crítica dessa ideia.

Já conquistamos muitos direitos e avançamos em muitas causas, óbvio. No entanto, quando as lutas perduram por tantos anos insistindo num campo ético, no nosso caso, parece-me que algumas dessas guerras têm se deslocado para uma esfera muito mais estética do que propriamente moral.

E é nesse contexto que me interessa pensar numa outra forma de movimento antropófago: o ato antropofágico, o conjugar do verbo, o antropofagir, o desejo latente de inverter a ideia primeira de engolir e incorporar.

É escandalosamente claro o modo como certas ideias e posturas vêm sendo perigosamente convertidas em ideais a serem perseguidos, como têm se tornado motivo de orgulho e até mesmo objeto de fascínio… Como se houvesse um reconhecimento embaçado do outro e um não reconhecimento de si mesmo; uma confusão de desejos de como ter aquilo que o outro tem, de usufruir dos direitos dos quais o outro goza, mas, por alguma razão, não deveria gozar…

É como se o fato de reconhecer o outro gozando de seus direitos (direitos esses que, obscenamente e em pensamento, apenas uma parte privilegiada da população deveria possuir) tornasse insuportável a coexistência numa mesma sociedade.

Então, o ato de incorporar, engolir a existência do outro, torna-se a única maneira de “reparar” aquilo que não se consegue sossegar de incômodo para tornar reconhecível a própria existência.

Resumindo, o que proponho como conjugação delirante do verbo antropofagir começa com o movimento de não mais assimilar o que vem de fora como legítimo, passando a desejar o desembaçar da vista a partir da inexistência do outro.

É genuíno desejar que o mundo melhore e que se goze de toda e qualquer melhoria, ainda que individual.

Posso citar, a título de exemplo, Les Trente Glorieuses, expressão francesa que revela um período de intenso crescimento econômico e transformação social vivido na Europa Ocidental entre 1945 e 1975.

Tempo esse que foi marcado pela reconstrução do pós-guerra, pela expansão do consumo, pela modernização e pelo fortalecimento do Estado de bem-estar social… Um ciclo que elevou os padrões de vida de parcelas significativas da população até encontrar seus limites na crise do petróleo na década de 1970.

Mas não seria imprudência não questionar as palavras dessa expressão? Trinta Gloriosas. Trinta anos… gloriosos para quem?

É fácil concluir que, enquanto se celebrava o crescimento e a prosperidade (o que é legítimo), outras realidades permaneciam à margem… Basta realizar uma rápida pesquisa para comprovar que, no mesmo período, houve uma enorme exclusão de populações imigrantes, segregação habitacional, precarização do trabalho, agravamento da desigualdade de gênero (sem falar aqui das condenações por gênero), exploração neocolonial e inúmeras outras violências dos processos de descolonização… além do custo ambiental de um modelo de desenvolvimento assentado no consumo crescente.

O que quero dizer é que, apesar de a celebração dos avanços econômicos e de todo o desenvolvimento alcançado ser justa e legítima, isso não é o suficiente para anular o fato de ser um delírio a celebração do êxito fingindo não existir a dor e o sofrimento daqueles que ficaram de fora.

Isso é o que se denuncia quando se sustenta a ideia de que determinados discursos não devem ter espaço numa sociedade democrática.

Ao que me parece (e isso esclarece a massiva e delirante vontade de “antropofagir” o outro), o que estamos vivendo hoje aponta para essa contradição: hoje, qualquer movimento que denuncie os custos do progresso corre o risco de desaparecer do campo de visão.

Não porque não exista, mas porque reconhecer sua existência exige interrogar a própria ideia de progresso.

Entre a presunção e a prepotência, o abismo das dores esquecidas
Outra questão suscitada no artigo e que também me moveu a dar continuidade ao desenvolvimento deste texto diz respeito à seguinte frase: “o uso do medo de uma ruptura institucional como argumento para a continuidade de quem governa”.

Sabemos que presumir é, de algum modo, a antecipação do que ainda não aconteceu e, muitas vezes, isso se dá porque somos movidos pelo medo, pela desconfiança ou pela expectativa de que algo ruim pode vir a acontecer.

Determinados discursos, principalmente os discursos políticos apoiados no discurso capitalista no qual estamos inseridos, sabem mobilizar essas antecipações, alimentando temores e fazendo da possibilidade uma ameaça quase factual.

A gente continua numa situação colonial” - Revista Continente
Vladimir Pinheiro Safatle (Santiago do Chile, 3 de junho de 1973) é um renomado filósofo, escritor, psicanalista e músico chileno-brasileiro.

Vladimir Safatle, ao pensar sobre a democracia e as formas de fascismo, resumiu bem ao dizer que o poder produz e modifica subjetividades.

O problema começa quando nos esquecemos de que também existem discursos que não se limitam a despertar medos ou a produzir presunções, mas que se impõem pela prepotência, carregando consigo a força de ideias e práticas que, em outros momentos da nossa história, já conduziram a humanidade a grandes abismos.

As grandes ditaduras (o nazismo e o fascismo) são exemplos do que não podemos nos permitir esquecer ou tratar de forma pífia.

Mas, voltando aos dias atuais, o que temos visto acontecer extrapola a presunção de uma ameaça. Nos discursos em que a prepotência é predominante, como no discurso da extrema direita (hoje intitulada de bolsonarismo), o que antes poderia surgir como presunção de um grande retrocesso ou como ameaça manifesta-se de maneira explícita no próprio discurso.

Ou seja, a ameaça à liberdade e à supressão de tantos direitos adquiridos não é apenas antecipada por quem a teme, mas anunciada por quem a pretende restringir.

Ainda mais relevante é o fato de que esse discurso encontra acolhida em uma grande parcela da população, cuja adesão nasce da frustração, da decepção e do cansaço em relação ao atual governo, a ponto de tornar tolerável aquilo que, em outras circunstâncias, certamente seria reconhecido como inaceitável.

Existe uma máxima latina que diz “o homem é para o homem um deus ou um lobo”, e é a partir dessa imagem que sugiro pensar no homem nem como deus nem como lobo, mas como um homem investido da delirante grandeza de um deus, valendo-se dos instintos de um lobo.

Tanto deus como o lobo são imagens capazes de despertar o medo em quem os imagina por presunção de um ataque; mas um homem investido da delirante grandeza de um deus, valendo-se dos instintos de um lobo, não apenas desperta o medo como é capaz de cumprir seu delírio coercitivo sobre quem o teme.

Eis o perigoso banquete posto à mesa dessas eleições.

A Winchester 22 e a questão filosófica que, longe de ser um problema, aponta a solução até mesmo para quem não a enxerga
É possível compreender a ideologia como um conceito polissêmico e que, dependendo do ponto de vista, se podem traçar inúmeras discussões a seu respeito.

Da mesma forma, tão óbvio quanto complexo, é que, por se tratar de um conjunto de ideias que nos insere, orienta e posiciona política e socialmente em um grupo, é natural que existam diferentes “nós” (o plural da primeira pessoa, os cegos e os direitos) e, portanto, a consequência do “eles”.

Entretanto, também sabemos que, mesmo diante desses tantos “nós” e “eles”, todos os pronomes coexistem dentro da mesma classe de palavras, cada qual com a sua forma de conjugar seus verbos.

Incontestavelmente, um “eu” só se faz a partir de um “tu”. E, nessa matemática de combinações, em que as ideias convergem e divergem, somam ou se contrapõem, o sujeito/indivíduo se constrói ao tempo em que dá corpo e movimento a uma sociedade.

Nesse contexto, havemos de concordar que a Constituição Federal de 1988, assumindo seu papel fundamental de assegurar direitos e deveres a todas as pessoas, de fato, não pertence a nenhuma ideologia, ainda que sujeita ao jogo hermenêutico dos poderes.

Faroeste caboclo e ao pé da letra para fãs da Legião | Eu & | Valor Econômico
Ísis Valverde e Fabrício Boliveira são o casal romântico de “Faroeste Caboclo”, filme que envolve violência, drogas e redenção — Foto: Hugo Santarem/divulgação

E é a partir desse ponto de partida, saindo da patente vulgar das ideologias, que me coloco a pensar sobre o que temos em nós de João de Santo Cristo e a quem serve a Winchester 22 (referência à música de Renato Russo, Faroeste Caboclo).

João de Santo Cristo é um protótipo de um cidadão comum cuja trajetória não pode ser dissociada das condições sociais que o marginalizaram.

Por não ser reconhecido como parte de uma sociedade que reserva a determinados grupos o privilégio do pertencimento, ele percorre caminhos que o conduzem ao crime.

E, aqui, não se trata de absolver suas escolhas, tampouco de reduzir sua história a uma relação mecânica de causa e efeito, mas de reconhecer que o indivíduo também é, em alguma medida, uma resposta às condições em que sua existência se constitui, operando diretamente na amarração de seus nós.

Apesar de tudo, mesmo depois de atravessado por tanta violência, João de Santo Cristo não abandona, ao longo de sua trajetória, a possibilidade de um futuro diferente… Ele persiste com a crença de que as coisas podem mudar e que, apesar de todas as dores suportadas e enfrentadas, ainda é possível encontrar uma saída, uma solução, a rendição de suas mazelas.

E nisso somos todos João de Santo Cristo, pois apostamos na possibilidade de progresso sem analisarmos nosso anacronismo, na prosperidade econômica sem cogitar a possibilidade pessoal de concessões financeiras e na construção de uma sociedade mais justa e igualitária a partir do nosso ponto de vista.

Talvez seja justamente nesse detalhe (no que guardamos de João de Santo Cristo) que resida uma das questões mais importantes do nosso tempo.

Diante de tantas decepções com a realidade que nos cerca, continuamos acreditando que alguém será capaz de mudar as coisas, de reparar o que nos parece errado e de nos conduzir a um futuro melhor.

Mas em quem depositar essa esperança? E, sobretudo, o que estamos dispostos a entregar em nome dessa promessa de mudança?

O que temos visto acontecer, especificamente no debate eleitoral de 2026, é o fato de que o bolsonarismo ocupa, metaforicamente, o triste e desesperado lugar de Maria Lúcia ao tentar salvar João… Diante do sofrimento de um povo já vulnerabilizado pelas dificuldades sociais e econômicas, pelo desemprego e por tantas outras adversidades que atravessam a realidade brasileira, apresenta-se como promessa de mudança, trazendo nas mãos uma Winchester 22.

E a pergunta é inevitável: a quem serve a Winchester 22?

João de Santo Cristo era reconhecido santo porque sabia morrer, mas não era o único que perdia a vida ou se valia dela para tentar recomeçar.

Toda normalização e banalização das coisas absurdas carece de análises, debates e, fundamentalmente, de desdogmatização. Isso é fato.

Agora, o não espanto diante do que temos assistido com as ideias, falas e comportamentos dos representantes da atual extrema direita é a parte mais assustadora disso tudo.

Como podemos, diante do que temos vivido, não estarmos indignados, escandalizados ou, no mínimo, sofridos? Será que, diante das decepções com o atual governo (sendo uma decepção legítima), podemos apostar numa saída pelo retrocesso aconchavado com a violência?

Há algo de grotesco nessa aposta: a possibilidade de que, na esperança de reparar aquilo que nos fere, acabemos por aceitar exatamente aquilo que também nos destrói enquanto sujeitos críticos e reflexivos.

Isso é uma aposta obtusa e tacanha.

Não se trata de defender um posicionamento ideológico, mas sim de defender a viabilidade de esbravejar por uma ideologia.

A arte e sua complexa simplicidade de falar através de metáforas
Tannat (@tannatoficial_) • Instagram photos and videosEncerro minhas considerações em resposta à última pergunta apontada pelo autor, a partir de sua defesa da convivência democrática entre diferentes e da reflexão antropofágica de Oswald de Andrade, relida à luz da canção Nós, da banda TANNAT, da qual faço parte:

“Se a nossa identidade depende de expulsar o diferente, o que exatamente estamos tentando preservar?”

A nossa identidade não depende de expulsar o diferente. É exatamente o oposto: depende da possibilidade de nos identificarmos com ele e, a partir desse encontro, construirmos algo novo.

A própria palavra identidade nos remete à identificação com o que ainda não conhecemos e, portanto, diferente.

Se é na relação com o outro que também nos constituímos, como pensar uma identidade que se pretenda preservar justamente pela recusa daquilo que difere de nós?

A questão, mais uma vez, arrebenta esse limite.

O que não podemos confundir é, por serem coisas radicalmente distintas, a convivência e o respeito ao diferente (e, nesse encontro com as diferenças, construirmos algo novo) com a tolerância a discursos que, em sua própria formulação, negam a possibilidade de existência da diferença.

Nossa identidade depende de um espaço livre onde possamos construí-la, e não da expulsão, explicitada em determinados discursos, do que é diferente de nós.

Construir essa identidade é também recusar a ideia de que devemos preservar aquilo que nos ameaça ou o que nos foi imposto e ensinado, afinal criamos quando fazemos escolhas diferentes e nos afirmamos em crenças, gêneros, direitos, modelos familiares, expressões e pensamentos que nos tornam fortes para sermos alguém.

Na canção Nós, da banda TANNAT, valemo-nos tanto do pronome quanto do substantivo. Em um jogo de palavras que afirma e repete essa ambiguidade, a canção nos permite pensar que não precisamos de nós, plural de nó e que faz referência a problemas sem solução, assim como não precisamos sempre dos mesmos nós, plural do pronome eu que se mantém petrificado nas mesmas ideias, opiniões e laços afetivos, apontando para o movimento e para a possibilidade de mudanças.

Não escrever poemas ou chegar ao fim das ilusões de um Carnaval são apenas partes do que entendemos como a dinâmica das possibilidades de amarração desses laços sociais.

E é fundamental que essas possibilidades existam para que se continue compondo livremente.

Referencial bibliográfico

ANDRADE, Oswald de. Manifesto Antropófago. Revista de Antropofagia, São Paulo, ano 1, n. 1, maio 1928.

CIRÍACO, Francisco Assis de Mesquita. O desafio de construir um “nós”: uma reflexão sobre suas consequências. Focus Poder, 13 out. 2026. Disponível em: https://focuspoder.com.br/o-desafio-deconstruir-um-nos-uma-reflexao-sobre-suas-consequencias-por-assis-ciriaco/. Acesso em: 14 out. 2026.

CIRÍACO, Patrícia; ALANA, Alencar; TAYLOR, Costa. Nós. In: TANNAT. O verso da língua.

FAROESTE Caboclo. Intérprete: Legião Urbana. Compositor: Renato Russo. In: Que país é este 1978/1987.

SAFATLE, Vladimir. A ameaça interna: psicanálise dos novos fascismos globais. São Paulo: Ubu Editora, 2026.

Alana G. Alencar é poeta, escritora, psicanalista, compositora e advogada, nascida em Fortaleza, Ceará. Graduada em Direito pela Universidade de Fortaleza, sua produção transita entre a literatura, a psicanálise e a música. É autora dos livros Trago do Verbo (2002), Nunca Sei Dizer Direito (2006), Detalhes da Alma de Alguém (2018), Metáforas de uma Análise (2020) e Dores Subversivas (2025). Organizou Poema Canção (2003), Eros e Tanatos (2023) e participou de inúmeras coletâneas literárias e poéticas ao longo de sua trajetória. Na música, é uma das compositoras e integrantes da banda TANNAT, com a qual desenvolve um trabalho autoral que atravessa a música brasileira, o rock, o jazz, o blues e outras sonoridades. Também atua na criação e produção de projetos culturais ligados às artes em geral. Sua escrita transita entre poesia, prosa e psicanálise, tendo como eixo recorrente as experiências do sujeito, os afetos, o desejo, a falta e as relações humanas. O Abismo das Manhãs em que Escrevo é seu mais recente livro.

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