Expatriados. Por Angela Barros Leal

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Expatriados. Foto: Divulgação

Os povos nômades se caracterizam por não ter habitação fixa, ensina o livro de História adotado pelo colégio A, trazendo na primeira página a esforçada assinatura do estudante B. Recolhi o livro no cesto exposto à disposição do público, em um supermercado da vizinhança, no qual são depositadas obras didáticas ou paradidáticas. Enquanto o rapaz organiza as compras no carrinho, ajoelho-me no chão (o acesso ao conhecimento exige reverências) e reviro as doações em busca de algo que interesse.

Observo a ilustração em uma página: ciganos conduzindo suas carroças, em grupos de saias e coletes coloridos, vencendo distâncias e hostilidades às margens das cidades. Em outra página, caravanas de camelos e beduínos cruzam desertos do Oriente Médio ou Norte da África, percorrendo caminhos traçados pelo vento na areia.

Quando necessário, os nômades deslocam-se de um lugar a outro em busca de condições melhores, prossegue a lição sobre essas figuras povoadoras de poemas e fantasias, desde os tempos do Romantismo. Assim viviam os primeiros habitantes da Terra, em um estilo de vida abandonado há cerca de 10 mil anos, assegura o livro.

Nem tanto tempo assim, asseguro eu, fechando as páginas e devolvendo a obra ao cesto para usufruto de algum estudante. Ergo-me a duras penas (o acesso ao conhecimento nem sempre é fácil) lembrando ter lido há pouco sobre a oficialização legislativa, em muitos países do mundo, de um novo grupo de trabalhadores: os Nômades Digitais, a quem são concedidas condições especiais para exercer seu ofício.

Encontrei a notícia na internet, fonte da informação e, ao mesmo tempo, causa do surgimento desse povo que se soma aos ciganos e beduínos, vagando pelo mundo, agora de modo oficial, em busca de satisfazer o impulso dito em francês esprit d’aventure, em italiano voglia di viaggiare, em inglês wanderlust e, em bom português, desejo de viajar.

Desejo de atender a um instinto migratório oposto à formação de raízes, poderoso o bastante para superar o apego a família, amigos, rotina, bens materiais, deixando para trás tudo aquilo que não cabe na bagagem do futuro.

Paixão tão forte, bem sei, que dá ânimo para enfrentar as dificuldades inerentes aos deslocamentos marítimos, aéreos ou terrestres; para vencer os emaranhados burocráticos de saídas e entradas; para conseguir moradia em nova cidade ou novo país, mergulhar no aprendizado básico de um idioma, da moeda corrente, entender a cultura local, construir mapas de orientação espacial, reconstruir redes de amizades e se posicionar dentro delas.

Tudo isso compondo o não tão doce prelúdio, essencial para que se possa, por fim, ligar o computador em uma voltagem diferente, abrir a janela para uma paisagem estranha – e quanto mais estranha, melhor –, respirar ares estrangeiros e começar a trabalhar.  “Dê-me um ponto de apoio e moverei a Terra”, disse Arquimedes, ao que os nômades digitais podem acrescentar: “Deem-me uma boa conexão de internet que viverei em novas terras”.

Entendo vocês, andarilhos, andadeiros, itinerantes, com ou sem apoio legal, portando ou não contratos e computadores na mochila. Entendo essa escolha de uma vida em trânsito, em movimento, ansiando sempre pelo que está por vir, os pés alados imunes a distâncias. Andejos, caminhantes, multivagos, viandantes, tomados por uma fome eternamente insatisfeita, criadores de sua própria cartografia, crentes nos vaticínios de que existe um Paraíso a aguardá-los, um passo adiante.

Andam vocês por aí, vagamundos, erradios, errantes como o judeu das lendas, nas beiras das estradas, nas salas de embarque, a vida carregada nas costas, de olho no próximo destino, olhados por nós, radicados em nosso berço, com indisfarçável despeito.

Esquecem vocês, membros dessa tribo de expatriados, de desterrados, de degredados por vontade própria, que carregam por céus e terras seus planos, e que vivenciam aquilo que nós, os enraizados, só ousamos sonhar – que não se foge do que se é, nem se evita o que se será.

E ouso vaticinar, do alto do cinismo imposto pela experiência aos mais velhos, das profundezas nas quais encravamos nossas âncoras, e do abismo onde conseguimos sepultar nossa dissimulada sofreguidão pelo assombro também de outras paragens, que vocês jamais pertencerão a lugar nenhum.

Serão sempre figuras bidimensionais, desencaixadas das três dimensões reais dos lugares nos quais se detém. E aonde quer que a inquietação os leve, lembrem que nessa barganha com a vida vocês deixaram para trás uma casa cheia de saudade, em troca de serem reconhecidos, mundo afora, como “os estrangeiros”.

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus.jor.

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