Falsas memórias. Por Angela Barros Leal

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Em 1989 dei uma carona a você, lembra? Quem pergunta é um primo querido, dono de invejável poder para retenção de fatos. Você estava na rua Costa Barros, esperando um táxi. Era de tardezinha, chovia forte, e eu vi você toda encolhida, com um vestido preto, embaixo de um guarda-chuva também preto, lembra? 

Claro que não lembro nada desse episódio, que soa banal, há tantas décadas acontecido. A única certeza que tenho é quanto ao nome da rua, endereço das redondezas. Mas esperando um táxi? Na chuva? Vestida de preto e com guarda-chuva também preto? Em 1989? Nada relacionado a isso me vem à mente.

A memória do primo é implacável. Ele recorda com detalhes o diálogo que mantivemos depois que saí do desconforto da chuva, e encontrei abrigo dentro do carro dele. Você estava triste. Me falou sobre um médico muito bom, me passou o contato, foi quem praticamente me salvou, sou paciente dele até hoje, insiste o primo, lembra? 

Faço cara de paisagem. Não tenho a mínima ideia de quem seja o médico a quem ele se refere, nem quem seria aquela pessoa escura e molhada a entrar no carro dele, da qual não tenho uma gota sequer de lembrança. Quem sabe, brinco com ele, talvez isso tenha acontecido em uma vida paralela, no metaverso das nossas existências, no qual nos desfazemos em camadas, como a pele velha das cobras, sepultando as minúcias do dia a dia sob o peso de outros fatos e fardos, considerados de superior importância.

A questão de memória compartilhada tem sido para mim uma constante sucessão de mistérios. Parentes, amigos, conhecidos, de vez em quando desenterram dos baús acontecimentos dos quais eu teria participado, em fases diferentes da vida, e que não ressoam sininho algum no meu arquivo de recordações. 

Como as fotos antigas que recebemos, postadas em grupos de conversa, nas quais de repente encontramos nosso próprio rosto tão jovem, em preto e branco, coadjuvante de algum evento, entre um grupo de ilustres desconhecidos. Eu fiz isso, você se pergunta, eu estive lá, você se indaga, assombrada com uma prova concreta que recupera uma peça perdida, desencaixada do seu próprio quebra-cabeças existencial. 

Ou como a referida carona em um dia de chuva, transformada, por parte do primo, em relevante recordação. Recuso com firmeza, até porque em grande parte daquele ano ao qual ele se refere eu não residia no Ceará, sendo impossível, portanto, me encontrar sob a chuva cearense na rua Costa Barros, num sombrio final de tarde.

Ele se espanta com a negativa. Tem certeza da data, por ter sido o ano em que ele casou. Pode ter acontecido antes da sua viagem, arrisca. Ou depois da sua chegada. Nego com firmeza essas possibilidades. Se a recuperação de eventos concretos me surpreende positivamente, não me agrada colaborar para a cristalização de (possíveis) falsas memórias, em especial quando de alguma maneira parecem incômodas, ainda por cima usurpando o nobre papel de alguém – uma irmã, outra prima, quem sabe.

Nossas recordações se chocam como espadachins em um duelo. Viajei em um mês de agosto sem chuvas e retornei no ano seguinte, em um ensolarado mês de julho, garanto a ele. (Porém reflito calada, no abraço sigiloso dos parênteses: é possível, sim, que isso tenha se dado em março ou abril, antes da viagem, mas alguma coisa daquela lembrança me deprime, e não quero me colocar naquele lugar, naquele papel anterior ao resgate providenciado por ele).

Será que você se projetou de lá para cá, meu primo apela com humor, ainda não convencido, recorrendo ao derradeiro recurso, investindo na hipótese de haver meu ectoplasma cruzado terras e mares para receber ajuda e, ao mesmo tempo, prestar auxílio, meu ser físico transformado em uma entidade imaterial molhada e altruística, protegida por um guarda-chuva que nunca possuí.

Argumento de volta, resguardando meu direito de não deixar que o quadro pintado por ele sobre mim persista como real, e que daqui a décadas, na memória familiar, eu permaneça como essa criatura soturna e dispensadora de bênçãos, que não desejo ter sido. Somos teimosos, os dois. Temos o mesmo sangue. É uma questão de honra perseverarmos alguns minutos nesse foi-não-foi estéril, incapaz de levar a lugar algum. 

Ele é o primeiro a desistir. Fala sobre a mulher, filhos, trabalho, e enveredamos por uma trilha de conversa prática. O dano, porém, já foi causado: suspeito que a (talvez) falsa memória dele já esteja se insinuando em minha própria memória, aparentemente mergulhada em uma composição gelatinosa de melancolia, deprimente inseto pré-histórico a ser preservado em âmbar. E pressinto que vou acabar recordando os motivos e razões que antecederam aquele (suposto) encontro, em uma tarde de cor cinza-escuro na rua Costa Barros.

 

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus.jor.

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