Guerras noturnas. Por Angela Barros Leal

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No meio da noite vou pegar um copo d’água na geladeira. Os dias têm sido quentes e a reposição hídrica é necessária a toda hora. De olhos semiabertos sinto o toque levíssimo sobre meu pé direito e grito, como gritam os covardes, reconhecendo o passar veloz de uma barata.

Em sã consciência, acredito que todos nós tememos algum animal, algum inseto, algum ser da natureza. Não me refiro aqui ao receio improvável quanto ao ataque de uma fera, ou de uma não tão impossível mordida de tubarão, mas sim àquele medo irracional, injustificável, o medo vindo sem escalas do nosso sistema límbico, diretamente do interior daquela fração sombria do cérebro onde se acumulam todos os medos, desde o alvorecer da nossa história.

Não temo animal nenhum, inseto nenhum, afirmará um destemido, minimizando os que se apavoram com uma lagarta peluda ou suaves borboletas, os que recuam à simples imagem fotográfica de uma serpente, de um morcego, os que se cobrem de arrepios ao ver um sapo, uma aranha pernalta, uma letárgica lagartixa ao sol, um louva-a-Deus em prece, um raro gafanhoto, ou os que fogem de baratas. Como é meu caso.

Fato é que tenho por baratas um nojo incomensurável. Um sentimento de repulsa impossível de ser posto em palavras. Uma rejeição sem justificativas, que quase me impossibilita de enunciar ou mesmo de escrever esse nome. Há muita coisa negativa nessa palavra de consoantes alongadas – bilabial, linguodental, alveolar – intercaladas com uma vogal única, falsamente familiar.

O que senti sobre meu pé não era a barata filosófica e metafísica de Clarice. Não a barata gauche de Sartre, muito menos o inseto indefinido e metafórico de Kafka. Era uma autêntica barata de ralos e esgotos, da classe periplaneta americana, cascuda, asas marrons, antenas móveis, da mais baixa classificação já descrita pelo naturalista Lineu.

Os sentidos em alerta, recordo subitamente ter lido, na parede do elevador do prédio, um aviso sobre a presença de uma equipe de dedetização. Devem elas ter sido escorraçadas de seus ninhos, exterminadas em seus esconderijos, expulsas de seus abrigos pelos gases mortais. E alguma das sobreviventes pode ter buscado refúgio na minha cozinha, de onde meu grito não foi ouvido, na paz sonolenta da casa. Ninguém desperta. Luz alguma se acende. Dormem todos prazerosos, em sonhos indiferentes.

A barata me encara de um canto da cozinha, onde foi parar quando a espantei do meu pé. Não posso imaginar os planos presentes em sua cabeça de barata e dou um passo para longe de onde ela está.

Outros insetos costumam correr quando você se aproxima deles, fogem espavoridos, buscam lugar seguro. A barata não. Ela enfrenta com ousadia, avança em sua direção com as piores das intenções. Acostumada a lutar pela sobrevivência, ciente de que ela e sua espécie herdarão a Terra, carapaça protetora à prova até mesmo de ataques nucleares, não é uma chinela de pano o equipamento ideal para fazê-la desistir.

Armo-me de uma vassoura. O relógio da cozinha marca 4:12 de uma madrugada intranquila. Lá fora dormem um sono entrecortado os vigias, os porteiros. Reviram-se na cama os insones, ocupados em preocupações sobre o dia de amanhã. Afastam-se e aproximam-se os maridos e mulheres. Aqui dentro, na cozinha, estamos despertas, a barata e eu, armazenando coragem para um corpo a corpo decisivo do qual apenas uma sairá com vida.

Não sei de onde me veio tanto pavor. Que traumas de infância desencadearam tamanha reação. Aliás, nem sei se ainda são atribuídas a traumas de infância freudianos as culpas rotineiras, ou se os medicamentos cerebrais de ponta, hoje tão burocraticamente receitados, trataram de enviar tais escusas para um limbo temporário.

Logo que amanheça buscarei os livros de sonhos, de interpretações de símbolos, signos e sinais, a semiologia acadêmica e popular que justifique esse pânico. É possível que apresentem o inseto como o meu id à solta no meio da cozinha, fugindo ao comando racional de um superego que tenta controlar meus impulsos humanos à deriva, arroubos emocionais desgovernados entre a geladeira e o fogão.

Que seja. Posso me vangloriar de ter contribuído com uma barata a menos para repartir a herança do planeta.

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus.jor.

Nota do editor: os pontos de vista assinados por colaboradores não refletem necessariamente o pensamento do Focus.jor, sendo de total responsabilidade do(s) autor(es) as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.

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