Impasse e oportunidade

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Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

Por Rui Martinho Rodrigues
rui.martinho@terra.com.br
O cenário político brasileiro, a semelhança de uma encruzilhada, apresenta o caminho do impasse e a estrada da esperança. Os argentinos optaram pelo impasse há mais de meio século, escolhendo a decadência. Os nossos jornalistas, quando retornavam de alguma missão naquele país, emitiam elogios à politização do seu povo. Taxistas, porteiros de hotel, populares nas ruas discutiam os intrincados problemas nacionais. A perseverança com que os nossos vizinhos do Sul perseguiram o desastre foi o resultado disso.
Povo “politizado” era povo tomado de paixão partidária e ideológica, manipulado pelos (de)formadores de opinião, por sua vez iludidos por aquela que alguns gregos chamavam de “Bem-Aventurança” e outros preferiam chamar deusa Mentira, que prometia estrada e cama macia, além do direito de colher sem precisar semear.
As paixões manifestas na forma de ânimos exacerbados se instalaram no Brasil, à semelhança da Argentina. Nos tornamos um deserto de líderes e de partidos dignos deste nome. O nosso povo, outrora havido como cordial, revelou uma intolerância extrema, criando uma atmosfera política envenenada. A continuidade do presidencialismo de cooptação, o aparelhamento das instituições de ensino e dos órgãos de informação prosseguem de modo cada vez mais acentuado. A insegurança jurídica decorrente da politização do STF e da judicialização da política alcançou níveis surpreendentes. As reformas necessárias foram demonizadas pelo populismo. Este é o caminho do impasse, já percorrido pelos argentinos e cujos resultados conhecemos.
Mas nem tudo está perdido. As redes sociais contornaram a barreira do aparelhamento dos órgãos de informação e das instituições de ensino; a maioria silenciosa parece despertar, apesar do desânimo diante do deserto de líderes e partidos; os escândalos desmascararam os falsos vestais da República e as religiões políticas, abalando a hegemonia do “ópio dos intelectuais” (Raymond Aron, 1905 – 1983); a recessão começa a bater em retirada; já existem vozes que ousam defender as reformas e dizer que não existe almoço sem cobrança da respectiva conta.
Talvez o mais importante sejam os indícios do surgimento do ânimo de participação na vida pública por parte de novos atores, estranhos no ninho da política. Os baixos índices, obtidos pelas novas figuras nas pesquisas eleitorais têm pouco significado, pois eles ainda não são conhecidos e só os veteranos estão fazendo campanha. Mas isso deverá mudar no curso do certame eleitoral, quando os novos nomes se tornarem conhecidos e forem expostos os laços dos profissionais da política com a interminável ciranda de escândalos. A inevitabilidade das reformas, por sua vez, poderá sensibilizar parte significativa do eleitorado; e o efeito da calamitosa situação da segurança pública sobre a campanha política ainda está por ser devidamente avaliado.

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