Liderança feminina: Renata Santiago avalia a atuação da mulher executiva no mercado cearense

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Renata Paula Santiago, Vice-presidente do Ibef Ceará e líder do Ibef Mulher | Foto: Dijorge

Ludovica Duarte
luduarte@focuspoder.com.br

Pesquisa divulgada pelo LinkedIn e Bain & Company, no relatório “Sem atalhos: transformando o discurso em ações efetivas para promover a liderança feminina”, de autoria de Luciana Staciarini Batista e Luiza Mattos, mostra que a representatividade da mulher em cargos de liderança ainda é baixa. Os dados de 2019 revelam que “apesar de 57% dos alunos universitários serem mulheres e dessa proporção se manter semelhante entre a população ocupada com nível superior, meros 3% dos presidentes e 5% dos presidentes de conselho das 250 maiores empresas brasileiras são do sexo feminino— mesmo patamar de 2013”.
Quase 1.000 profissionais participaram da pesquisa realizada no Brasil, no primeiro trimestre de 2019, pela Bain & Company, em parceria com o LinkedIn. Destes, 82% das mulheres e 66% dos homens acreditam que a paridade de gênero deve estar entre as prioridades estratégicas de suas respectivas organizações. Porém, a percepção dos entrevistados é que as empresas ainda dão pouca atenção à questão. A falta de oportunidade para participar e ter sucesso em tarefas desafiantes é mais impactante na confiança das mulheres do que a dos homens.
A pesquisa revela que, em comparação com os homens, “mulheres como um todo são 22% mais propensas a ter a confiança minada por falta de oportunidade”; que 17%  das mulheres que ocupam cargos juniores estão mais predispostas a “acreditar que precisam ter habilidades necessárias para manter confiança”; e que 43% das mulheres em lideranças sênior são “mais propensas a necessitar de uma rede de apoio pessoal e profissional para manter o nível de confiança elevado”.
Renata Paula Santiago, gestora da BSPAR Incorporações, vice-presidente do Ibef Ceará e líder do Ibef Mulher no estado, considera que os dados da pesquisa refletem um cenário semelhante à realidade das mulheres executivas no mercado cearense. Em conversa com o Focus, a executiva apresentou uma análise com base nas ações que são desenvolvidas pelo Instituto, através do Ibef Mulher.
Focus: Como você avalia a atuação da mulher executiva no mercado cearense?
Renata: Olhando o mercado cearense, em especial, o mercado de Fortaleza e região metropolitana, enxergo a mulher executiva muito qualificada, com um senso de propriedade dos negócios bem acima da média que constatamos no profissional do sexo masculino. A gente vê uma grande dominância da mulher ocupando cargos de nível de suporte até a média gerência. Mas, quando a gente começa a subir na hierarquia começa a perceber um número significativamente menor de mulheres.
Focus: Qual seria o entrave para a mulher ser mais representativa nos altos cargos de gestão?
Renata: A pesquisa divulgada pelo LinkedIn e Bain & Company cita três problemas que eu, particularmente, concordo muito com dois deles quando a gente fala de Ceará. O primeiro é o que ela chama de “prioridades conflitantes”. E qual é a grande prioridade conflitante quando a gente fala da mulher executiva? A gente está falando da maternidade, da família, do momento que ela tem que parar por que está em uma gestação ou no pós-gestacional. E o segundo são os aspectos culturais. Ainda há muito a mentalidade de achar que a mulher, justamente, por conta da prioridade conflitante, não vai se dedicar tanto ao negócio como se fosse o homem.
Focus: Estes aspectos seriam observados no Ceará ou é um cenário a nível nacional?
Renata: Isso eu acho que é a nível mundo. Claro que cada região tem isso mais forte ou menos forte. Acho que o Ceará se comporta em extensão com o que acontece no país. Às vezes, um pouco mais, porque a gente ainda não está nos grandes centros econômicos como Rio e São Paulo. Claro que há uma discussão, e eu particularmente faço parte deste movimento no Ibef Mulher, que a gente quer mostrar que diferente do que muita gente pensa, a mulher tem uma grande capacidade de dedicação ao negócio. Não é porque ela tem um filho pequeno, que ela cuida menos da empresa ou do seu negócio do que um homem. Pelo contrário, a mulher tem um aspecto de personalidade muito mais forte do que um homem.
Focus: Nestas discussões, você sente que o mercado está mais receptivo para a mulher de negócios? Houve uma evolução nestes últimos anos?
Renata: Eu acho que isso tá mudando, mas ainda a passos lentos. A gente vê hoje o assunto maternidade sendo tratado de forma mais natural, porque antes maternidade era um empecilho. Maternidade agora é tratado como uma benção. Aos poucos vai mudando, mas não que seja uma pauta que esteja sendo tratada nas empresas. Enxergo melhorias, mas são movimentos naturais que estão acontecendo.
Focus: Com relação à formação profissional, a mulher tem buscado se capacitar mais para se posicionar melhor na empresa?
Renata: Esta mesma pesquisa divulgada pelo LinkedIn e Bain & Company apresentou um dado interessante a nível Brasil. Hoje, 57% dos universitários são mulheres. Então, pelo menos a nível de graduação, a mulher está se preparando mais. A mulher tá procurando conhecer mais, principalmente, neste cenário tão volátil, de tanta velocidade. A mulher tenta acompanhar este movimento. Mas, ainda, o que se percebe é o que poderia ser uma concorrência normal entre homens e mulheres, para o homem parece mais natural, já para a mulher ela precisa se impor e dizer “ei, tô aqui e vou concorrer a esta vaga”. E nem toda mulher se sente preparada para se impor. Recentemente, participei de uma mentoria com mulheres do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa, em que a executiva Heloísa Rios apresentou uma pesquisa de Harvard. Os dados mostram que o homem para se candidatar a uma nova função, em média, ele tem 60% das qualificações necessárias pra vaga. A mulher se candidata quando ela tem, em média, 90%. Ou seja, a mulher pra achar que tem condições de ocupar um cargo melhor, ela vai com a sensação de segurança muito maior do que o homem. O homem ele vai. A mulher #sejoga!
Focus: E como o Ibef Mulher tem contribuído para mudar este perfil?
Renata: A gente tem que trabalhar isso. O movimento do Ibef Mulher quer colocar isso em discussão. As vezes, a mulher não sabe nem fazer networking. Até para ir para um evento, para se atualizar e ser vista, ela precisa de um incentivo.
Focus: Em 2019, ainda se faz muito necessário debater o papel da mulher no mercado?
Renata: Demais. E, principalmente, colocar a discussão para as empresas. Tanto para as mulheres, para irem à luta por seus espaços, quanto para os homens, para que cada vez mais a gente possa construir empresas melhores, uma cidade melhor, um Brasil melhor. Sem demagogia. Mas, é preciso que a gente aprenda a lutar por nossas conquistas e não ficar apenas aceitando. O que a gente quer é discutir o estilo de liderança feminina.
Focus: E como é que as lideranças, tanto masculinas, quanto femininas, podem contribuir para a formação e valorização destas novas lideranças femininas?
Renata: Devem incentivar a mulher a ocupar seu espaço. E a gente pode fazer isso no nosso dia-a-dia. O Ibef, no dia 10 de setembro, vai contar histórias de mulheres de sucesso no evento Diálogos Ibef Mulher Ceará, com o tema “O Papel da Mulher no Mundo Corporativo”, buscando influenciar com histórias marcantes. Histórias que estão aqui do nosso lado, não é aquela referência distante. Então, acho que de certa forma criar ambientes pra aumentar a diversidade nas empresas e nos mais diversos locais.
Focus: Este ambiente propício para as lideranças femininas está próximo de ser realidade na maioria das empresas?
Renata:: Acho que a médio prazo. São transformações pequenininhas que acontecem a médio prazo. Já caminha para uma aceitação. Eu mesmo trabalho em uma organização que dos cinco diretores, três são mulheres. Já é um avanço. Tem muita empresa no Ceará que você já observa muitas diretoras. O próprio Ibef é recheado. A construção civil aqui em Fortaleza, eu até brinco, que vou fazer um evento só para as mulheres da construção civil. Nós temos muitas mulheres no comando. Então, tem um movimento e o que eu acho que é só se mobilizar para inspirar outras e aí é onde entra a diversidade. De gênero, de cor, de crença. Nós precisamos viver o momento da diversidade.
Focus: O cenário econômico é propício para que as mulheres se destaquem como líderes?
Renata: Nós temos muitas mulheres preparadas para enfrentar as adversidades da economia. Nós vivemos uma crise econômica há mais de cinco anos, tendo que segurar o manche de muita empresa com zelo que só mulher que tem isso no seu DNA consegue avançar com mais qualidade. A mulher na sua essência tem total condição de enfrentar esta crise econômica e criar alternativas para sair desta situação.

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