Na própria companhia. Por Angela Barros Leal

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Digamos que você tenha ido hoje, logo cedo, colher sangue para um exame solicitado pelo médico. Em jejum. E que, finda a coleta – um minúsculo curativo escondendo a picada da agulha na curva do braço –, você tenha resolvido tomar o café da manhã em uma padaria, perto da clínica. Você senta sozinha à mesa.

Ao lado você vê casais. Famílias. Homens de negócio. Todos conversam entre si. Você não tem com quem falar. E apela para o salva-vidas de sempre, o aparelho celular, melhor amigo em momento como esse.

Não há conexão.

Você chama o rapaz que atende a mesa. Antes mesmo de fazer seu pedido você pede o mais urgente. A rede de internet. A senha de acesso. Em resposta, escuta que está havendo uma dificuldade temporária no sistema. Logo vai se resolver. Você suspira e pede chá, uma fatia de bolo de milho, uma cestinha de pães.

O pedido foi feito. A informação tecnológica foi dada. O que fazer agora.

Você se encosta na cadeira de madeira, desconfortável e nada ergonômica. Dela você consegue ver, através da vitrine, o topo dos veículos que transitam na rua. Um táxi. Um carro de polícia. Um capacete de motoqueiro. Nada que estimule a imaginação.

Sua audição volta-se para os lados e para trás. O casal troca cochichos de amor, talvez após uma noite insone. Você não é voyer, e baixa os olhos para sua mão esquerda, onde reluz a aliança de ouro. Sua mente se ocupa alguns minutos em pensamentos relacionados a eventuais riscos à segurança, quanto ao uso dela em locais públicos: assaltos, violência, o dia a dia.

As famílias conversam assuntos variados, envolvendo personagens e fatos que você desconhece. Você pensa na sua própria família. Um certo sentimento de urgência, não fundamentado, se instala em seu espírito.

Você afasta suas costas da cadeira não ergonômica. Novamente tenta conexão com a internet. Quem sabe se o prazo temporário foi vencido. Não conectado – repete o breve texto do informe.

Do outro lado da rua há várias lojas, e você vê as fachadas delas. Um barbeiro. Uma loja especializada em vender produtos made in China. Uma para depilação a laser. Uma loja de vinhos, outra de roupas infantis.

Sua mente divaga entre uma e outra. Embora nenhuma delas seja de seu especial interesse, nesse período de forçada espera você imagina se as crianças na China vestem também o uniforme maoísta; se a loja de vinhos vende taças especiais para portadores de bigode; se causaria espanto ao barbeiro atender a uma Mulher Barbada de circo; se ainda existem mulheres barbadas em circos, havendo, como há, serviços de depilação em toda esquina.

Sem o desejo de passar em vista sua vida passada, sem um livro, uma revista, sem um solitário jornal, sem lugar para aprofundar seus olhos e ocupar a mente, você repousa os cotovelos sobre o tampo da mesa. Que é de fórmica amarelada, imitando o mármore travertino. Você quer consultar o Google para saber a origem do mármore travertino. Seu celular continua desconectado. Sem informações sócio-econômicas-culturais disponíveis, sobra tempo para um bocejo.

O grupo de homens de negócio, ao lado, eleva a voz rumo ao caixa. Parecem planejar a abertura de uma padaria como essa. Ou disponibilizar novas opções no cardápio de uma já existente. Um deles sugere induzir o cliente à montagem de produtos um tanto fora da rotina (“Coloque uma fatia de pão de um lado e um pote de Nutella do outro”), ou de uma culinária multicultural (“Pense no rolinho primavera, recheado com queijo coalho e doce de goiaba!”). Você baixa a cabeça, envergonhada de ouvir o que pode se configurar como espionagem industrial.

Chegam por fim sua xícara de chá, a cesta de pães e um pedido de desculpas. O atendente ameniza a falha ao trazer, também, a notícia de que a conexão de internet está de volta. Você analisa o fundo da xícara, qual vidente. E avalia, com sentimento crítico, sua intensa sensação de alívio ao se saber reconectada. Será isso a tal “dependência tecnológica”, você se pergunta, a picada da agulha arroxeando na curva do braço.

Vem à sua mente a frase do psiquiatra francês Gaétan de Clérambault, lida no livro O grito da seda (no qual não se sabe quem necessita mais ajuda, se os analisados ou o analista suicida): “A obrigação de ter a si mesmo como companhia é uma provação à qual muitos cérebros não resistem”. Humildemente, resta a você, e a tantos de nós, dar o devido crédito a essa sofrida constatação.

 

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus.jor.

 

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