
Tão logo fechada a chapa majoritária da aliança governista, com seu nome constando como candidato ao senado, Cid Gomes deu, como primeira declaração pública, o vaticínio da derrota da candidatura de seu irmão Ciro para governador. Quis não deixar dúvidas sobre a decisão tomada e o fez.
Sublinhou, com gosto, que fazia ali “uma conta de engenheiro”, sua formação acadêmica, o que significa dizer: objetiva, numeral, cartesiana. E acertou em todos os aspectos de prevalência levantados em sua argumentação que dava, como fatura antecipada, a vitória a Elmano.
Estava certo? Numas. Ao fim, o otimismo determinista de sua avaliação não se confirmou com a largueza e antecedência que sugeria com serena convicção: a vitória, de fato, se deu nas horas finais da disputa – com margem estreita e não sem ajuda de fórceps (contém ironia), pois muitos apoios locais se ativaram, na medida esperada, sob pressão.
Ao fim, o chamado de Ciro – “União para mudar” – se mostrou muito mais resiliente do que o imaginado. Em parte, sim, pela base de apoio, desde a largada, oferecida pelo anti petismo bem articulado pelos bolsonaristas. Mas muito dessa solidez foi mérito próprio.
Compreensível: Ciro foi candidato a presidente e, portanto, entrou na disputa com prestígio acumulado de ser figura com expressão nacional. Isso pesa. Também é longeva – primeiro, como tucano e, depois, como aliado do lulismo – a evidência de que seu nome esteve associado, pelo menos até 2024, ao movimento progressista. É um herdeiro legítimo da “Nova República”, o que fez com quem nele o carimbo novo de direitista aparecesse “borrado” – nunca incontroverso.
Tudo isso para dizer que, apesar de suas terríveis contradições, Ciro surpreendeu em força. Deu um trabalho dos diabos e vendeu caro a derrota. Por isso mesmo, merecia, de si mesmo, um tratamento melhor em autoestima do que o lamento inconformado da nota que emitiu, com percebido delay, na qual agradecer os votos recebidos, razão maior da manifestação, tornou-se um mero detalhe. Lamentável.
A nota comete gols contra em série: a) Repete pesadas acusações sem o zelo da prova; b) Se vale de números já contestados para despolir os méritos do adversário vitorioso e, c) Apela, ao final, para a inteiramente infundada queixa de ilegalidade na decisão que reparava, tardia e prejudicialmente, um dano abusivo causado a Elmano logo na última semana de campanha.
Afirmou-se “roubado” – logo ele, que foi eleito prefeito de Fortaleza (1988) sem ser sequer eleitor na cidade e protagonizou, na primeira eleição de Roberto Cláudio (2012), um dos mais controvertidos episódios de “boca de urna” – digo assim para não perder a elegância – de que a crônica política do estado do Ceará guarda memória. O Círo de sempre: condenando pecados que cometeu e deitando lama nas calçadas que frequentou.
Para concluir. No lançamento de sua campanha, Ciro Gomes, ao citar um conterrâneo seu, disse que “perder eleição é pior do que comer bosta”. Pois que não tome a metáfora ao pé da letra, pelo menos. “Ao vencedor”, já predisse o bruxo, “as batatas” da pesada missão. Ao vencido, paciência: esfria a cabeça e segue o jogo.







