O Apple Vision Pro vai pegar? Façam suas apostas. Por Pádua Sampaio

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Os não tão jovens – para não ser indelicado logo na primeira linha – devem lembrar: Penélope Charmosa, Dick Vigarista, Peter Perfeito e vários outros personagens correndo em seus veículos nada convencionais, passando um por cima dos outros, para ganhar uma corrida fora de qualquer padrão esportivo.

As big techs também têm vivido uma corrida igualmente maluca, tal qual o desenho da TV: a busca pelo substituto em vendas do nosso querido, amado e intocável celular. Inventado na década de 1970, o celular se popularizou mesmo como telefone móvel nos anos 1990, com duas funções básicas: fazer ligações e jogar o jogo da cobrinha.

O primeiro ciclo evolutivo foi até previsível: e se esse telefone enviasse e recebesse mensagens de texto? E se tirasse foto? E se fosse possível escutar música nele? E se tiver uns joguinhos? E se acessar a internet, mandar e enviar e-mails? E se permitir acessar o banco e fazer compras?

O segundo ciclo requer um pouco mais do que aglutinar funções, trata-se de diminuir a dependência de algo que hoje é imprescindível. Estimo que será muito estranho para os nossos netos quando tirarmos um smartphone do fundo de uma gaveta, empoeirado, e contarmos que dependíamos dele para quase tudo no começo do século XXI. “Como assim não existia chip implantado na pele?” Talvez contestem.

Dentre os possíveis substitutos, os óculos têm ganhado bastante atenção e investimentos. A indústria da tecnologia vem apostando pesado nesse tipo de acessório. Há quase 10 anos, o Google lançava o seu alardeado Google Glass. Foi um festival de demonstrações e uma cachoeira de futurismo em sites, redações de jornais, palestras e conversas de botequim.

Não faltaram gurus prevendo que muito em breve estaríamos todos ensimesmados e embevecidos com essa ferramenta que prometia livrar as nossas mãos e aposentar os celulares. Viveríamos em um universo paralelo com os nossos óculos ultra high tech. No fim das contas, a invenção da Google apresentou vários problemas, incluindo a usabilidade. Não foi dessa vez.

Depois veio a popularização dos óculos de realidade virtual. Embora não tivessem a pretensão de competir com o celular – alguns modelos, inclusive, funcionam de forma integrada ao aparelho – abriram-se novas possibilidades, incluindo estar presente em ambientes digitais, com possibilidade de interação.

Óculos para visitar digitalmente apartamentos que nem saíram da planta ainda, compras num supermercado virtual, passeio por museus famosos, simulação em montanhas russas ou safári na África rodeado de bichos eram algumas aplicações.

Em 2020, o mundo é atingido por uma pandemia e adivinha: lá estamos nós comprando alimentos e matando a saudade, sem poder sair de casa, pelo bom e velho celular e seus aplicativos. Claro que no decorrer desse tempo alguns outros óculos ganharam certo protagonismo, caso do Meta Quest, de Zuckerberg. Mas ainda sem muita popularidade.

Recentemente, o mercado da tecnologia ficou em polvorosa pelo lançamento do Apple Vision Pro. Você deve ter visto, foi notícia em todos os portais, inclusive com direito a meme, comparando usuários ao mascote da Sadia. Como tudo que a Apple faz, esse lançamento promete revolucionar o mercado do consumo de informação e produção de conteúdo, absorvendo funções do computador e vislumbrando a substituição da queridinha das salas de estar: a televisão. Promete, mas vai cumprir?

Segundo o vídeo de demonstração da própria companhia, a tela é projetada virtualmente, onde o usuário estiver. Ele interage e tem acesso à, basicamente, os mesmos aplicativos que já existem no IOS. As mãos manuseiam objetos inexistentes, a la Tom Cruise em Minority Report.

É cedo ainda para cravar se teremos um novo Iphone em vendas e prestígio. Até porque o preço não é nada convidativo: os óculos custam em torno de três mil e quinhentos dólares, frente aos mil e quinhentos quando do lançamento do Google Glass. Os olhos da cara, só para não deixar passar o trocadilho.

Talvez o preço nem seja o ponto crucial e determinante do sucesso. A questão central reside na limitação de algo que parece ser inerente ao ser humano: a necessidade de socialização; de dividir espaços, experiências e de não viver isolado num universo particular.

O mundo pós-pandemia mostrou que, verdadeiramente, nenhum homem é uma ilha. Os bares e estádios continuam cheios, amigos continuam querendo se ver, os cinemas seguem frequentados; as reuniões podem ser virtuais, ok, mas sabemos que ao vivo rendem muito mais. A passos largos, o novo normal tem ficado cada vez mais parecido ao antigo normal.

Não é querendo botar água no chopp, mas talvez o problema desses aparelhos seja justamente ir de encontro à natureza humana. Em essência, somos seres gregários, mesmo quando damos aquela mergulhada no Instagram na mesa do restaurante.

Tudo bem que a gente passa boa parte do dia com a cara no celular. Mas botar o celular na nossa cara parece ser um pouco demais.

Três perguntas para mexer com o seu juízo:

1) Qual o grau de dependência da sua empresa, sob a ótica do marketing, dos meios digitais?

2) A relação com seus clientes também inclui experiência física? Em que medida?

3) Físico x Digital tem feito parte das discussões do board da sua empresa?

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