O poder das ilusões. Por Rui Martinho

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É enorme o poder das ilusões. Napoleão Bonaparte (1769 – 1821) esperou uma iniciativa do czar Alexander I, propondo algum acordo, até o inverno chegar. Japoneses atacaram os EUA achando que bastaria formar um perímetro de defesa, tendo no seu interior, abundância de recursos naturais e os americanos iriam propor algum acordo. Tais expectativas não eram razoáveis. Barbara W. Tuchman (1912 – 1989), na obra “A marcha da insensatez”, registrou numerosos casos de planos quiméricos levados a diante apesar de reiteradas advertências.

A política internacional dos EUA lembra a marcha da insensatez. Invoca a defesa da democracia como o modelo político dos EUA. Todos os povos deveriam adotá-lo. Existem outros objetivos, como o interesse em recursos naturais ou interesses geoestratégicos. O argumento democrático levou ao abando de algumas ditaduras aliadas, logo substituídas por ditaduras inimigas, como Cuba e Nicarágua. Os EUA exigiram moderação do Xá do Irã, que foi destituído e deu lugar a uma ditadura inimiga dos EUA. No Egito o presidente Muhammad Hosni Mubarak (1928 – 2020), abandonado e contido pelos EUA, caiu e deu lugar a ditadura da Irmandade Muçulmana, hostil aos americanos, afastada posteriormente pelos dólares da diplomacia Saudita.

Na África dizem que os EUA compram os inimigos e vendem os aliados. Recentemente “venderam” os curdos para contentar a Turquia e abandonaram aliados afegãos. Ucranianos renunciaram ao arsenal nuclear herdado da URSS, acreditando na garantia de proteção dos EUA e perderam a Crimeia. Compram os inimigos, mas não recebem pelo que pagam. A Turquia não agradeceu o abandono dos curdos. A China ganhou acesso ao mercado americano, teve a proteção dos EUA quando a URSS planejou atacar os chineses para destruir instalações nucleares e outros objetivos, segundo relato de Henri A. Kissinger (1923 – vivo); e recebeu um dilúvio de investimentos sem oferecer nada em troca. Não reconheceu fronteiras marítimas com Japão, Malásia, Brunei; nem a independência de Taiwan.

Despesas de guerra são mais custosas que comprar os itens de interesse comercial ou estratégico. Guerra como pretexto para produzir armas não faz sentido. Conflitos como os Iraque, Afeganistão e Síria geram despesas logísticas e de bens de baixa tecnologia, que obrigam a cortes nos programas caros, como os F-22; B-2; helicóptero Comanche; mísseis de cruzeiro hipersônicos. A base industrial de defesa (BID) dos EUA encolheu. Em meados dos anos cinquenta os EUA tinham uma dezena de fabricantes de aviões de combate, hoje tem dois. Os bens civis são mais lucrativos. Material bélico tem especificações técnicas que elevam custos e reduzem os lucros. Acionistas da BID também são acionistas de fabricas de bens civis. A recessão consequência das guerras no terceiro mundo trouxeram desemprego e queda do consumo de bens civis mais lucrativos.

Foi ilusão achar que a industrialização da China iria democratiza-la e que a nova divisão internacional do trabalho seria entre produtores de conhecimentos e fabricantes de bens materiais. Engenheiros chineses, ao fabricar bens, assimilam o conhecimento tecnológico e fazem tecnologia reversa. O furto da propriedade intelectual, na era dos computadores vulneráveis (exceto os do TSE) o conhecimento se difunde. Povoaram as universidades americanas com estudantes chineses. Distinguir desejo de realidade é o remédio contra ilusão. O desejo de grandes negócios; e de um mundo democrático e pacífico confunde cabeças brilhantes, como a de Kissinger, que agiu como Frankenstein ou prometeu moderno, do romance de Mary Shelley (1797 – 1851), criando um monstro.

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