O senhor das flores. Por Angela Barros Leal

COMPARTILHE A NOTÍCIA

Flores. Foto: Freepik
Flores. Foto: Freepik

Toda semana chega para mim uma flor. Uma só. Não um buquê, não um punhado de flores, mas tão somente uma, que me chega todos os domingos. Religiosamente.

E não se trata de uma flor comum, uma a mais dentre as nossas simpáticas florezinhas caseiras, domésticas, triviais. As flores que me chegam, uma a uma, provém quase sempre de localidades exóticas, inusitadas, alheias ao nosso ambiente tropical.

Já recebi uma petúnia vermelha, admirável a partir do nome: petúnia, com a sonoridade de tambores indígenas. É uma flor que desabrocha na primavera e no verão, e que pode vir vestida de azul, rosa, laranja, salmão – ou de vermelho, como a que chegou para mim um tempo atrás, acompanhada pelo desejo de uma ótima semana.

Veio em seguida uma nativa da Austrália: a roda-de-fogo, uma flor de formato circular, assemelhada a fogos de artifício explodindo no céu em vermelho e amarelo. É muito rara entre nós, embora seu desenho possa parecer tão familiar, pelo rendado caprichoso de suas pétalas e pelo entrançado de círculos que ostenta desde seu centro, expandindo-se, repetido, até suas margens, como se criado em uma almofada de bilro.

O manacá-da-serra chegou do Sul do país, flor tão criativa que em apenas em um galho pode oferecer três diferentes cores.

A minha era lilás, desdobrando-se como um lírio no meio das folhas verdes. Com o miolo de amarelo vibrante, coroado por uma multitude de pétalas branquinhas, recebi uma margarida branca, originária das Ilhas Canárias, a flor que brinca com o bem-me-quer, mal-me-quer. Há duas semanas, veio uma inusitada campânula azul, a flor-de-sino, que me tocou pela elegância europeia, uma flor refinada, avessa à luz e ao calor.

Parecia uma estrela de cinco pontas, mergulhada no mais puro anil. Semana passada chegou uma gardênia branca, num turbilhão de pétalas, que sempre associei à trilha musical do tango, mas que descobri ser originária da China. E esta semana me veio a mesma gardênia, só que no excepcional tom de azul que por vezes assume, ambas donas de um perfume que dizem ser assemelhado ao jasmim.

Afirmo “que dizem ser” porque nenhuma das flores que recebo possui aroma. Recebo as flores, embora não o perfume delas, chegadas a mim depois de colhidas, por mãos gentis, nos pixelados jardins do Google.

Semanalmente agradeço a quem me manda as flores: um senhor de quem não posso me dizer amiga, mas a quem tenho profundo respeito. Ele me remete por pura delicadeza, talvez por termos passeado, juntos, nos campos acessíveis da sua iluminada memória, respondendo às minhas questões quando o entrevistava para um livro.

O livro foi impresso, e devidamente lançado. E sei que chegou às mãos dele, justamente pelas flores que comecei a receber, uma por uma, acompanhadas das mesmas palavras: Ótima semana.

É tão raro suceder algo assim, que precisei me manifestar aqui, nesse pequeno espaço no qual me deixam cultivar palavras. E talvez por ser época de Natal, quando nosso cinismo se desvaloriza um pouco, e nossos corações de pedra tendem a tomar a consistência do algodão doce, talvez por isso a atenção dele tenha me tocado tanto.

Pode ser que ele proceda de igual maneira com as pessoas amigas – ou quase amigas, como eu –, distribuindo flores digitais todas as semanas. Não me parece questão a considerar. Coloco-me esses dias entre aqueles dispostos a acreditar que, quanto maior o número de pessoas felizes, melhor se vive no mundo.

Pode ser que vejam como trivial, como coisa desimportante essa colheita digital nos algorítmicos jardins do Google: um clique aqui, outro ali, um toque para enviar e pronto. Não é dessa forma que vejo. O que me emociona é a persistência da lembrança, em um tempo que passa em rugido veloz, “de par em par”, como cantava Cazuza, com tantas demandas a atender que qualquer desvio de rota pode ser um luxo.

E o que me alegra é a satisfação de alimentar a expectativa de receber desse senhor das flores, semanalmente, uma flor diferente, de um ponto diferente do mundo, uma flor solitária acompanhada pelo desejo de uma ótima semana.

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Genial/Quaest: Lula segue com desaprovação maior que aprovação e perde fôlego entre independentes

Lula lidera, mas Flávio encosta e vira principal rival, aponta Genial/Quaest; Polarização se mantém

Jogo aberto: PT acena ao centrão em movimento que mira a disputa do Ceará

Sánchez e a coragem de dizer o impopular; Veja instigante artigo do líder espanhol em defesa moral e econômica dos imigrantes

Cearense Pedro Albuquerque assume como CFO do Grupo Pão de Açucar

Pesquisa para o Senado: Wagner lidera em cenários movediços; Veja as simulações

Líder com folga em três cenários, Lula ancora o voto no Ceará

Nova pesquisa: Elmano lidera com a direita fragmentada e empata com Ciro em confronto direto

Série protagonistas: Romeu Aldigueri como fiador da estabilidade

A reorganização da direita e o estreito caminho até o centro

Luiz Pontes e o método do poder silencioso

Sombra ou fantasma: o que Cid Gomes realmente diz sobre Camilo deixar o MEC

MAIS LIDAS DO DIA

PPP do Esgoto no Ceará: R$ 7 bilhões para universalizar saneamento em 127 cidades

Maílson da Nóbrega: o Brasil precisa de um partido de esquerda moderno