O tempo certo. Por Angela Barros Leal

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O menino vem correndo pela grama fake do campinho de futebol. Corre em câmera lenta, braços e pernas descrevendo no ar semicírculos exagerados. Antes de entrar de trave a dentro, gira no chão em cambalhota, da qual se ergue vitorioso, os punhos para o alto, celebrando o gol de corpo inteiro. A mãe grita com ele, estridente e cheia de razão, temendo danos crânio-cervicais.

Estou sentada por perto, na única cadeira de braços disponibilizada pelo condomínio. Faço companhia às babás, aos carrinhos de bebê, ao zelador molhando os jarros de plantas, aos cachorros domésticos. E me pergunto, imersa no ócio, qual a atração irresistível dos movimentos em slow motion, ainda que em uma exibição modesta e mal acabada, como essa do filho da minha vizinha.

Os filmes documentais sobreviventes do nosso passado em preto e branco divertem, sem querer, pelo passo apressado dos que neles aparecem. O caminhar em passos rápidos e miúdos dá aos personagens uma comicidade que eles, com certeza, não possuíam, como se depreende a partir da sisudez do vestuário das mulheres e dos homens.

Os homens deviam ser pessoas sérias, compenetradas em seus afazeres, antecipando o caminho com o toc-toc pausado de suas bengalas, consultando lentamente seus relógios de algibeira, as mãos enluvadas erguendo cartolas da cabeça ao cruzar com uma dama. Que, por sua vez, seria mulher irrepreensível, santificada pela lida doméstica e pelo zelo tranquilo com os filhos, sempre muitos.

O menino continua exercendo seu direito a se movimentar em câmera lenta, contornando o campo. O que será que se passa pela cabeça suada dele, me pergunto, até para me distrair do berro de um dos bebês por perto. O que será que se passa com o menino que corre devagar, para ignorar assim as leis do movimento humano, que nem chega a tanto nem a tão pouco.

O jeito como ele circula o campinho me traz de volta a memória dos videoclips pré-históricos, produzidos para as canções românticas da MTV, sobrevivendo em um ou outro filme capaz de causar danos irreversíveis aos diabéticos, dado o elevado teor de açúcar neles contidos.

Quem não viu essas cenas hoje clássicas, me questiono, os braços apoiados nas laterais da cadeira onde me encontro entronizada, usufruindo o que resta da tarde de folga.

Os amados avistam-se à distância, quase sempre no cenário de pôr-do-sol em praia deserta. Apesar da urgência incontrolável de se aproximarem, acham de avançar, um ao encontro do outro, em injustificada câmera lenta. Isso apenas até o abraço giratório, após o qual o efeito desaparece para todo o sempre, dando espaço ao compasso da vida real.

Perdura ainda, a lentidão dos movimentos, nas cenas cinematográficas em que a mocinha, futuro objeto de afeto do rapaz, é avistada a primeira vez pelos olhos encantados dele. Ela entra na sala, ou no bar, no restaurante, ou simplesmente se materializa diante do personagem masculino, e é como se o girar da Terra travasse os freios ABS.

O cabelo dela, quase sempre dourado, por trás do qual o sol nasce e desaparece, se agita fio a fio como ondas de luz, na cadência de uma mecha por minuto, encobrindo e revelando aos poucos o rosto. As pálpebras se elevam em torturante lentidão. Os olhos se erguem na mesma vagareza com a qual o carvão se transforma em diamante – e pronto: lá está o coração do rapaz, voando para fora da tela, esfacelado em um milhão de minúsculos pedaços.

O menino, que corria lentamente pelo campinho, se chega agora para a garrafa d´água oferecida pela mãe. De alguma maneira, antecipara a beleza existente na vagarosidade. Ou já suspeita que os minutos e as horas que tem pela frente irão passar rápido demais, e intui ser importante retardar a marcha dos dias.

Fato é que engatinhamos, andamos, corremos – e como corremos, na idade adulta. O mundo dos adultos exige urgência. Os compromissos pressionam. Os deadlines se fazem fatais, acelerando o voo das horas nos relógios digitais. Nada pode ser deixado para amanhã, e a data do atendimento às cobranças se impõe no já familiar “para ontem!”.

Na velhice, vamos nos aproximar, a contragosto, do slow motion voluntário ou não, imposto pela legislação irreversível da natureza sobre nosso corpo.

Ainda divagando, devagar, reconheço, em minha vã filosofia, que posso me dar ao luxo de continuar sentada na cadeira de braços, até quando quiser. O menino e eu desaceleramos os movimentos. Não nos curvamos à ligeireza daqueles filmes em preto e branco. Hoje sei o que ele pressente, ao preferir o slow motion: para que tanta urgência, se existe um tempo certo para tudo.

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