
Ao assumir o legado do pai aos 21 anos, fez da excelência acadêmica uma marca do ensino cearense. O sucesso do Colégio Ari de Sá e da Arco Educação projetou Fortaleza como um dos principais polos educacionais do país.
“A educação é o serviço mais nobre que existe.” Oto de Sá Cavalcante
Oto Brasil de Sá Cavalcante, o educador e empresário que transformou um legado familiar em um dos maiores grupos privados de educação do Brasil e ajudou a consolidar o Ceará como referência nacional em ensino de excelência, morreu no domingo, 28 de junho, aos 80 anos. A morte foi anunciada pelo Colégio Ari de Sá Cavalcante, pelo Centro Universitário Ari de Sá (UniAri) e pela Arco Educação, cujo Conselho de Administração presidia. A causa não foi divulgada.
Durante mais de seis décadas, sua vida confundiu-se com a própria evolução da educação cearense. Embora comandasse uma organização que alcançou dimensão nacional e internacional, Oto nunca deixou de se apresentar como professor. Para ele, a educação era mais do que um negócio: era uma missão de formação humana, baseada na disciplina, no mérito, no exemplo e no hábito permanente da leitura.
Filho do professor Ari de Sá Cavalcante e de Maria Hildete Brasil de Sá Cavalcante, nasceu em Fortaleza, em 27 de maio de 1946. Aos 18 anos, ainda estudante universitário, começou a ensinar Matemática por incentivo do pai. Três anos depois, em 1967, enfrentou a perda que definiria sua trajetória. Com apenas 21 anos, viu morrer o pai e assumiu, ao lado da mãe e dos irmãos, a responsabilidade de preservar e expandir a obra iniciada pela família.
Concluiu o curso de Engenharia Civil na Universidade Federal do Ceará, mas jamais exerceu a profissão. Preferiu dedicar integralmente sua vida ao ensino, convencido de que ali estava sua verdadeira vocação.
Nas décadas seguintes, participou da consolidação da Organização Educacional Farias Brito. Em 2000, após a morte da mãe, iniciou um novo capítulo ao fundar o Colégio Ari de Sá Cavalcante, homenagem permanente ao pai cuja influência jamais deixou de orientar suas decisões.
Sob sua liderança, o Ari de Sá tornou-se uma das escolas mais respeitadas do país. Seus alunos passaram a ocupar, ano após ano, posições de destaque nos vestibulares mais difíceis do Brasil, especialmente no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e no Instituto Militar de Engenharia (IME), símbolos históricos da excelência acadêmica brasileira. Mais tarde, o colégio também figuraria repetidamente entre as maiores médias nacionais do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).
Esses resultados tiveram um impacto que ultrapassou os limites da instituição. O desempenho dos estudantes ajudou a projetar o Ceará como um novo centro de excelência educacional, modificando a percepção nacional sobre a qualidade do ensino produzido no Estado.
O sucesso do Ari de Sá ocorreu paralelamente à profunda transformação da educação pública cearense, que passou a liderar indicadores nacionais de aprendizagem. Juntos, ainda que em sistemas distintos, esses movimentos fizeram do Ceará um caso singular na educação brasileira: um Estado reconhecido simultaneamente pela qualidade de suas redes pública e privada.
Foi nesse ambiente de alta performance que o Ceará passou a atrair grandes investimentos educacionais. O Estado foi escolhido para receber um campus do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), uma decisão impensável décadas antes, e, mais recentemente, tornou-se destino da expansão do Ibmec, uma das mais prestigiadas instituições de ensino superior do país. Embora esse movimento tenha resultado de diversos fatores, poucos personagens contribuíram tanto para consolidar a reputação educacional cearense quanto Oto de Sá Cavalcante.
Sua influência também se espalhou pelo Brasil por meio do Sistema Ari de Sá de Ensino, desenvolvido em Fortaleza e adotado por centenas de escolas particulares. O modelo combinava material didático, formação de professores, tecnologia e acompanhamento pedagógico, tornando-se uma das principais plataformas educacionais do país.
Essa expansão abriria caminho para a criação da Arco Educação. Sob a liderança da geração seguinte da família, especialmente de seu filho Ari de Sá Cavalcante Neto, a empresa tornou-se uma das maiores companhias de tecnologia educacional da América Latina e, em 2018, abriu capital na Nasdaq, levando uma organização nascida no Ceará ao mercado financeiro internacional.
Apesar do crescimento empresarial, Oto manteve hábitos discretos. Visitava frequentemente as escolas, conversava com professores, acompanhava indicadores de desempenho e acreditava que nenhuma inovação tecnológica substituía o papel do educador. Gostava de repetir que disciplina era mais importante do que inteligência isolada e que os filhos aprendiam muito mais pelo exemplo dos pais do que por seus discursos.
Também defendia uma formação humanística. Incentivava a leitura dos clássicos, valorizava a escrita e a interpretação de texto e afirmava que o objetivo maior da educação era formar pessoas capazes de construir o próprio destino. Costumava citar Friedrich Nietzsche ao dizer que cada indivíduo precisava construir as próprias pontes ao longo da vida.
Em 2025, recebeu o Troféu Sereia de Ouro, uma das maiores distinções concedidas pelo Grupo Edson Queiroz a personalidades que contribuíram para o desenvolvimento do Ceará.
Sua morte provocou manifestações de pesar de autoridades, educadores e ex-alunos. O governador Elmano de Freitas destacou seu compromisso com a formação de gerações. O prefeito Evandro Leitão afirmou que Oto deixou um legado de amor à educação e à cultura. O presidente da Assembleia Legislativa, Romeu Aldigueri, lembrou sua liderança e sua contribuição para milhares de estudantes.
Para sucessivas gerações de cearenses, porém, seu legado será medido menos pelas empresas que construiu do que pela transformação cultural que ajudou a promover. Ao elevar os padrões de excelência do ensino privado e difundir um modelo educacional adotado em todo o país, Oto de Sá Cavalcante participou da construção de um novo capítulo da história da educação brasileira — um capítulo que colocou o Ceará entre seus protagonistas.
Oto de Sá Cavalcante deixa a esposa, Margarida Maria Porto Soares de Sá Cavalcante, quatro filhos — Ari Neto, Patrícia, Paula e Luciana —, além de netos e milhares de ex-alunos que, direta ou indiretamente, passaram por uma obra educacional iniciada por seu pai e ampliada por sua visão
Frases
“A disciplina é mais importante do que a inteligência.”
“Se eu não gosto de ler, é difícil meu filho gostar de ler. Se eu sou desonesto, é difícil meu filho ser honesto.”
“A educação é o serviço mais nobre que existe.”
“Tive um prazer imenso, indescritível, de construir esse legado.”






