Que amanhã o Brasil seja a Argentina*

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Por Fábio Campos
*Texto originalmente publicado no O POVO, edição de 05 de novembro (Veja aqui)

A Argentina serve em algo como referência política para o Brasil? Esta é uma velha questão. Historicamente, prevalece lá um cenário talvez mais complexo que o brasileiro. A intimidade dos argentinos com o populismo é ainda mais enraizada do que aqui. O mesmo com o autoritarismo. Não fosse, é certo que a prosperidade plena já teria alcançado a Argentina.

O jornalista Clóvis Rossi tem larga experiência na cobertura da política do nosso vizinho. Em seu último artigo publicado na Folha de S.Paulo, Rossi lança algumas luzes sobre a questão que abre esse texto. “Tomara que continue valendo o efeito Orloff, aquela pressuposição dos anos 1980 de que o Brasil de amanhã seria a Argentina de hoje”, afirma.

Certamente, os mais jovens não vão entender a relação entre uma consequência política e o nome de uma vodca. Explica-se: na década de 1980, uma propaganda da bebida ressaltava a ideia de que a Orloff não provocava ressaca. No comercial, um sósia muito bem disposto dizia “eu sou você amanhã” para o sujeito à mesa de um bar logo após pedir uma dose da bebida.

O slogan foi apropriado pelo jornalismo político em forma de um conceito (“efeito Orloff”) que passou a ser usado em analogias entre o Brasil e a Argentina: hiperinflação, escândalos de corrupção, a gangorra do dólar, planos econômicos mirabolantes eram comuns aos dois. Naqueles tempos, o que primeiro acontecia em um país acabava se reproduzindo no outro.

O “efeito Orloff” não deixou de acontecer até hoje. Quando o populismo tomou conta da Argentina, o Brasil seguiu essa linha anos depois. Os Kirchner lá. O petismo cá, mesmo que, com Lula, principalmente no primeiro mandato, isso tenha se dado em menor grau.

Para Rossi, se o efeito Orloff continua valendo, “então o presidente argentino Mauricio Macri acaba de pôr na roda uma agenda revolucionária que, se copiada no Brasil para a campanha eleitoral de 2018, pode alçá-la a um patamar enriquecedor”.

O experiente jornalista avalia que “Macri está oferecendo aos argentinos um conjunto de reformas (trabalhista, tributária, previdenciária, entre outras) com nítido fundo liberal. Como no Brasil, aliás, mas com muito mais profundidade e com um amparo popular de que não goza seu colega Michel Temer”.

Lá como cá, nem o capitalismo e muito menos o liberalismo vigoraram em algum período de suas histórias. No entanto, a Argentina já apresentou longas fases de prosperidade que permitiu ao País uma qualidade de vida similar a países da Europa. Isso, antes do  populismo peronista, claro.

Daí Rossi citar o filósofo Santiago Kovadloff que, em artigo no La Nación disse o seguinte: “Não creio que, na história da América do Sul, haja outro país que se tenha exposto à decadência nos termos em que esteve a Argentina…Seus notáveis acertos sociais e econômicos viraram fumaça”. Pois é.

Agora, como escreveu Clóvis Rossi, parece haver uma “mudança no estado de espírito” ao ponto de um liberal como Mauricio Macri apresentar agenda que vai além das reformas pontuais: “O ponto de chegada do programa do presidente é uma profunda reforma do Estado, o que é igualmente revolucionário. Na Argentina (como no Brasil), há uma fortíssima coligação de amantes das gordas tetas do Estado, no empresariado, no sindicalismo e, claro, na política”.

Continua o jornalista: “Seria formidável se a campanha eleitoral de 2018 debatesse o formato da sacudida. Um ponto é essencial: a obsessão de Macri é reduzir a pobreza, chaga permanente no Brasil e que, na Argentina, só sangrou devido à decadência”. Sendo assim , que o “efeito Orloff” se precipite entre nós.

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