Reputações destroçadas

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Por Fábio Campos
No O Povo deste domingo
Há mais de duas décadas escrevendo artigos, que por 15 anos eram a cada edição do O POVO (exceto às segundas-feiras), foram várias as vezes em que alertei para o devido cuidado no trato das denúncias oriundas do Ministério Público em seus diversos patamares. Uma denúncia, mesmo que bem formulada e cercada de provas, não poderia ser tratada como fato consumado para condenações antecipadas.
Durante esse tempo, vi horrores acontecerem. Vi pessoas e famílias destroçadas por denúncias que, em muitos casos, eram rechaçadas ao primeiro olhar de juízes mais atentos e imunes ao alarido.
Lembro de ter comentado um caso relacionado à contratação de shows do Réveillon de Fortaleza. A denúncia de um procurador, que suspeitava de irregularidades, pedia ao juiz, entre outras coisas, para tornar indisponíveis os bens de mais de uma dezena de “envolvidos”. Como se isso não implicasse inviabilizar a vida das pessoas.
Claro que o caso virou manchete da imprensa e os nomes dessas pessoas foram expostos à humilhação pública. No tapetão do Judiciário, a denúncia foi arquivada por falta de provas e elementos confiáveis que justificassem sua sequência. O arquivamento sequer foi mencionado pela imprensa. Mas, aí o destroço já estava feito, não é?
Os procuradores (estaduais, federais e da Fazenda) são sempre boas fontes para o jornalismo, mas é um grande erro tomar suas palavras como a manifestação final e absoluta da verdade. Durante anos e, principalmente depois da Constituição de 1988, que as elevou quase à condição de intocáveis, o jornalismo se alimentou dessas fontes sem mastigar, sem cheirar e sem analisar os fatos com o devido cuidado.
A Lava Jato está repleta de situações assim. O caso JBS é o mais vistoso, configurando um escândalo sem referência na área. Vi e ouvi alguns depoimentos de delação gravados. Um ponto em comum: os delatores trataram tudo como propina mesmo que fosse doação de campanha, caracterizando que houve orientação nesse sentido. Um desserviço. Ali, buscava-se muito mais criminalizar a política do que descobrir os malfeitos.
SIM, HAVERÁ DISPUTA NO CEARÁ
Enfim, o Ceará parece ter entrado em pré-campanha eleitoral. Parece que já há mais que as candidaturas de Camilo Santana, à reeleição, e a do franco atirador Ailton Lopes, pelo Psol. Um fato novo nos últimos dias mudou o tom modorrento da nossa política. No caso, a apresentação do general da reserva, Guilherme Cals Theóphilo, como potencial candidato ao Governo do Ceará pelo PSDB.
Experiente no ramo, Tasso Jereissati parece ter movido uma peça capaz de exercer forte influência nos rumos do jogo. Afinal, em tempos de paz, chegar ao generalato de quatro estrelas, é para poucos. Tal condição compõe uma candidatura com credenciais relevantes. O problema do general tucano será outro.
O comando geral da Amazônia e a gestão logística do Exército em um País com as dimensões do Brasil foram as duas últimas funções de relevo do general. Porém, o currículo não alonga o curto tempo da campanha que se avizinha. O general vai ter que se dedicar com afinco a se tornar conhecido e a conhecer as questões estratégicas do Ceará. Muitas cascas de banana surgirão. Um escorregão pode ser fatal.
Quanto a Camilo, a zona de conforto ficou para trás. É fato que o governismo trabalhou com afinco para eliminar a concorrência. O poder de fogo da máquina e da caneta, unidas à capacidade de articulação própria da política, quase que esvaziaram a oposição.
Mas, nas circunstâncias de hoje, um nome de oposição, mesmo que sem grande dimensão, já seria capaz de sair da disputa contra com uma faixa entre 30% a 40% dos votos válidos. É usual. Porém, o fato novo pode criar circunstâncias novas. O governador sabe bem onde o sapato lhe aperta e produz calos em profusão.
O fato de o general ser um nome desconhecido impõe à oposição uma tarefa hercúlea. Porém, esse obstáculo é, por outro lado, um facilitador. Afinal, trata-se de um nome sem desgastes e sem máculas que ingressa em um sistema político e partidário muito mal avaliado pela população.
Uma curiosidade: em outubro de 2017, o governador Camilo Santana e o prefeito Roberto Cláudio foram apresentados ao general e mantiveram uma conversa de cunho administrativo. Guilherme Theóphilo levou aos dois gestores o projeto de instalar em Fortaleza uma unidade do Instituto Militar de Engenharia (IME). O excelente desempenho do Ceará na aprovação para o IME e o ITA credenciavam o Estado. Infelizmente, o projeto não prosseguiu.

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