Ruptura e continuidade. Por Rui Martinho

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Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

A realidade comporta continuidades e rupturas, a despeito de Heráclito de Éfeso (540 a.C. – 470 a. C.), para quem “nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio, pois na segunda vez o rio já não é o mesmo, nem tampouco o homem”, alegando que tudo muda, nada permanece.

Também não procede a teoria do imobilismo, de Xenofanes de Cólon, aperfeiçoada por Parmênides (570 a. c. – 475 a. c.) que negava a mudança e a transformação, atribuindo tudo ao engano dos sentidos e a compreensão superficial. Mudanças e continuidades, porém, são realidades. O ritmo das mudanças pode ser lento bastante para escapar ao observador, ao modo que Fernand Braudel definiu como longa duração histórica, ao lado de outros ritmos de média e curta duração, que evidencia as transformações.

É inegável que a revolução verde, quando desenvolvemos a agricultura, deixando a vida nômade de caçador-coletor e nos tornamos sedentários, é uma mudança. Os anovulatórios, ao permitir um relativo controle da gravidez, trouxe mudança na vida da mulher. Solucionar problemas pode promover mudança. A longa duração é mais comum na cultura, em certos aspectos da organização social, com mudanças aparentes. Hierarquia, controle, vigilância são exemplos de longa duração, sem embargo de mudanças aparentes, como alegoria da “Revolução dos bichos”, de George Orwell (Eric Arthur Blair, 1903 – 1950).

O ponto de vista do observador pode perceber a mudança ou a continuidade. Não há (re)início partindo do zero, na ordem política, social, jurídica ou cultural. Herbert Marcuse (1898 – 1979), na obra “Eros e civilização”, discorre sobre a inevitabilidade da renúncia ou procrastinação da satisfação na vida civilizada, no que guarda alguma semelhança com Sigmund Schlomo Freud (1856 – 1939), na obra “O mal-estar na civilização”.

O Estado patrimonial foi muito bem descrito por Raymundo Faoro (1925 – 2003), na obra “Os donos do poder”, desde a origem do Estado Português. A corrupção e o abuso de autoridade na burocracia e no Judiciário foram descritos detalhadamente com farta documentação e indicação de fontes por Stuart B Schwartz (s/d), na obra “Burocracia e sociedade no Brasil colonial”. As duas obras relatam fenômeno de longa duração que passaram por mudanças que excluíram a continuidade. A revolução Francesa de 1789, republicana, gerou um império apesar do mar de cabeças guilhotinadas. A revolução bolchevique gerou nomenklatura. Na Iugoslávia a revolução igualitária gerou uma elite que Milovan Djilas (1911 – 1995) descreveu como a nova classe, em obra assim intitulada.

O Brasil atravessa um momento que tem sido descrito como tempestade perfeita. Crise econômica, sanitária, política, institucional e claramente uma crise moral. Os velhos vícios do patrimonialismo descrito por Faoro; a corrupção e o abuso de autoridade foram duramente golpeados no âmbito de ações judiciais, até que os processos chegaram no STF. A sociedade rompeu com o monopólio da desinformação da grande imprensa. A desinformação foi democratizada. O protagonismo de amplas parcelas dos brasileiros, talvez a maioria até então silenciosa, escapou ao controle dos ativistas, autênticos vaqueiros da boiada cidadã e quebrou o monopólio das ruas.

Falta, todavia, organização, projeto, liderança. A exacerbação de ânimos dificulta o diálogo, seja pela quebra de confiança, seja pelo conflito de interesse ou pela incomunicabilidade dos paradigmas, como explica Thomas Kuhn (1922 – 1996). A dinâmica que se estabeleceu é de antagonismo crescente. Não temos bons augúrios.

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