
Equipe Focus
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A Ata de lançamento da pedra inaugural da Avenida Vinte e Cinco de Março, em Baturité, foi assinada em maio de 1893 por autoridades civis, militares e eclesiásticas presentes ao ato, incluindo Marcos Franco Rabelo, presidente da província. O intendente municipal, Joaquim de Alencar Matos, louvou a planta traçada pelo engenheiro Guilherme de Capanema, e solicitou que uma cópia da Ata fosse colocada dentro de uma caixa de cobre, contendo algumas moedas, esta dentro de uma caixa de madeira, e o conjunto “dentro do alicerce que fica por baixo do pontão, lado do poente, perto da Igreja de Santa Luzia”.
Para encantamento de pesquisadores e curiosos, cápsulas do tempo, como essa, devem continuar existindo na base de muitos dos nossos prédios públicos ou religiosos. Veja-se, por exemplo, o que noticia o jornal A República, de 2 de novembro de 1895: “Na demolição que se está procedendo nos alicerces da Praça do Marquês de Herval [Praça José de Alencar] para preparo do terreno para construção do Teatro [José de Alencar], foi encontrada a pedra fundamental do mercado que ali se pretendia construir”.
A notícia prossegue, com o uso das medidas da época: “Essa pedra tinha uma cavidade de uma polegada de altura e 0,25 em quadro, dentro da qual foi encontrada a importância de 3 réis em moedas de prata, níquel e cobre”. E finaliza, constatando o triste estado do material impresso ali colocado, que não resistira ao tempo: “Jornais e outros papéis estavam completamente diluídos”.
Muito antes, em dezembro de 1839, “com a maior reverência” foi colocada a pedra fundamental da capela de Nossa Senhora da Conceição da Prainha, hoje conhecida como Igreja da Prainha, sendo na dita pedra inscritos o dia, mês e ano de sua fundação. Nada de valor material, explicitando o “dar a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”.
O Teatro Santa Tereza, de 1864, que seria construído na Praça do Patrocínio, “a mais espaçosa da capital”, teve sua primeira pedra aposta com as bênçãos de Dom Luiz, o primeiro bispo do Ceará. O engenheiro contratado para a obra, Antônio Gonçalves da Justa, recebeu um pequeno martelo e uma colher de pedreiro, ambos de prata, e com eles assentou a dita pedra “com as formalidades do costume”, debaixo da soleira da porta central do teatro.
Além de colocar um pergaminho em uma cavidade retangular da pedra, incluiu moedas circulantes no Império. De ouro, uma de 20 mil reis, outra de 10 mil. De prata, quatro moedas no valor de 2 mil reis, mil e 500 reis. De cobre mais duas, uma de 40 reis e outra de 20. Sobre esse mostruário completo das moedas do tempo depositou uma chapa de cobre com a inscrição “Esta primeira pedra do Teatro Santa Teresa foi lançada no dia 11 de fevereiro de 1864”. Fechando o pacote para a posteridade, colocou sobre a cavidade outra pedra com iguais dimensões e forma.
Em 1881, a obra para a Escola Normal, situada na Praça Marquês de Herval ao lado do prédio onde então funcionava o Liceu, e na esquina com a rua 24 de Maio, teve depositada a 1,20m de profundidade, “em meio justamente do alicerce da frente do edifício”, a pedra previamente abençoada. Abaixo dela, o jornal Gazeta do Norte informa ter sido posto o conteúdo, “fechado em uma urna de madeira, encerrada noutra de chumbo, acompanhado dos jornais do dia, de um exemplar da Constituição política do Império, e de algumas moedas de ouro, prata, níquel e cobre”.
Caminhamos sobre essas e outras cápsulas do tempo, em meio a nossos afazeres. Nossos pés não deixam marcas. E a terra conserva seus segredos.
Angela Barros Leal é jornalista e escritora. Autora de 18 livros.






