Sucessão 2022: a batalha começa hoje

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O Anjo da Lareira ou O Triunfo do Surrrealismo, de Max Ernst, 1937: “A pintura para mim não é nem um prazer decorativo, nem a invenção plástica da realidade sentida; ela deve ser sempre: invenção, descoberta, revelação”. Sim, isso serve para a política também.

Por Ricardo Alcântara*
Em colaboração para o Focus

Depois de alguns meses de indefinição, num ambiente conflituoso, se desenhou neste domingo o quadro de candidaturas ao governo do estado no Ceará. Deu-se, ao fim, o que levantei como possibilidade numa “live” do site Focus logo surgiram os nomes dos pré-candidatos do PDT: a ruptura da aliança deste com o PT.

Nosso cálculo era simples: como Camilo Santana não viria a precisar do PDT para se eleger senador — mas este, ao contrário, precisaria dele para construir um projeto eleitoral estável — o ex-governador não abriria mão da indicação do nome de sua preferência, Izolda Cela, como candidata à sua própria reeleição. Dito e feito.

Por outro lado, dissemos naquela oportunidade também que, por força de sua candidatura presidencial, Ciro Gomes, igualmente, poderia vir a se manter irredutível na defesa de um candidato disposto a descer aos infernos com ele para garantir suas posições em seu próprio estado — considerando, ainda, um fator subjetivo agravante: a doçura de seu temperamento. Não deu outra.

Pois bem. O candidato do PDT de Ciro é o ex-prefeito Roberto Cláudio e o candidato do PT de Camilo é o deputado Elmano de Freitas. Enfrentarão, divididos, o nome já desde antes postado do deputado Capitão Wagner, em oposição ao governo que ainda subsiste (segunda-feira, 25.07) como um condomínio comum de Ciro e Camilo.

Os fatores que definem o quadro atual apontam para uma eleição dura e complexa. Não é a mesma coisa. Por óbvio, eleições duras são aquelas disputadas com chances semelhantes de vitória. É o caso. E é complexa porque não mais se constitui como uma polarização entre dois blocos de representação, progressista e conservadora.

Desde antes, alguns passaram a considerar vantajoso, para o candidato de oposição, a ruptura da aliança governista. A notícia pode não ser tão alvissareira como imaginavam: o surgimento de uma nova alternativa dispersa parte da energia concentrada no argumento de força central de sua candidatura, que acena com uma perspectiva de mudança.

Agora, também a candidatura de Elmano passa a oferecer uma porta de saída — embora menos radical mas, por isso mesmo, mais ampla e agregadora — para a parcela do eleitorado que se recusa a oferecer ao grupo liderado pelos irmãos Ferreira Gomes a permanência ad eternum no controle das decisões de Estado no Ceará.

Um novo fator de complexidade se refere às construções narrativas com que tanto o PDT quanto o PT tentarão se apropriar dos resultados, em geral bem avaliados pela população, apresentados pelo projeto administrativo comum, liderado por Cid Gomes (2007/2013) e Camilo Santana-Izolda Cela (2014/2022).

A completar o quadro, um elemento externo tende a exercer significativa influência nas escolhas dos eleitores: a polarização aquecida entre as candidaturas presidenciais de Lula da Silva e Jair Bolsonaro, acrescida, no caso cearense, pela presença de um filho adotivo da terra no cenário de disputa, Ciro Gomes.

Diz a sabedoria popular lusitana: “Quem com muitas pedras mexe, uma lhe cai na cabeça”. Pois bem. Quem for mexer com as muitas pedras que se coloca na travessia eleitoral do Ceará deste ano precisará de perícia. É jornada para cabeças experientes. O Ceará de 2022 — definitivamente — não é para amadores.

Quero concluir me dirigindo à amiga Adelita Monteiro, candidata do Psol, a quem publicamente peço: não nos tire a oportunidade final de contar com o protagonismo feminino, minoritário que seja ainda, no proscênio dessa disputa. Mantenha viva a dignidade que sua candidatura nos oferece.

*Pontos de vista de autoria de colaboradores não necessariamente reproduzem o pensamento do Focus 

Ricardo Alcântara é publicitário e escritor

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