Tarefa de Casa. Por Angela Barros Leal

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Tarefa de casa. Foto: Divulgação Google

Tarefa de casa dos dois netos. O orangotango – que o menor, de 5 anos, insiste em chamar “morangotango” – surgiu entre 12 e 15 milhões de anos. Vó, você já tinha nascido? – ele pergunta por detrás dos óculos, com olhos inocentes nos quais enxergo certa malícia: deve desconfiar que não nasci há 15 milhões de anos. Mas há 12 milhões, isso sim, seria bem provável.

A tarefa não é dele, e sim do irmão mais velho, de 7 anos. Não mude de assunto, e essa não é sua tarefa, repreendo, ofendida e em vão. O dever de casa dele é um trava-língua envolvendo um rato e um rei de Roma. Sua vez vai chegar.

Macaco, gorila, chipanzé, orangotango, todos fazem parte do grupo de primatas, que têm conosco um parentesco próximo. Vó, me mostra o morangotango na vida real, pede o pequeno, surdo às minhas aborrecidas recriminações.

É constante, essa preocupação demonstrada com a vida real, em contraposição à fantasia que eles consomem aos goles na televisão e nos jogos digitais. Resolvo que é hora de dar uma pausa (ou “pausar”, verbo para a ação que exercem com maestria nos comandos da TV) e busco as imagens no celular.

Não há como esconder os traços do parentesco que têm conosco. Um dos orangotangos é inteiro um senhor idoso, mergulhado em meditação, mastigando um talo de grama. Outro é um bebê espantado, agarrado ao corpo peludo da mãe. Mais uma imagem mostra um pequeno grupo reunido em conciliábulo, debatendo talvez as melhores rotas para transitar na floresta. Nossos avós, nossos irmãos.

Atendida a curiosidade já posso “despausar”, conjugando o mesmo verbo utilizado pelos dois. Ainda sinto o peso dos milhões de anos sobre meus ombros e encaro o neto pequeno com uma certa ferocidade simiesca.

Os primatas vivem na selva, assegura a lição. E no mar também, ele interrompe novamente. Você deve estar confundindo primatas com piratas, resmungo. E já falei que essa não é a sua tarefa.

O mais velho não se incomoda com as constantes interrupções do irmão. Pelo contrário, aproveita cada momento para despausar a TV, aumentar o volume e dedicar atenção a um estranho jogo, no qual um cachorro se atira de uma montanha e o jovem blogueiro, cabeleira da cor de laranja elétrica, contabiliza quantos ossos do animal foram quebrados na queda.

Tomo o controle da mão dele e parece que, com isso, aciono o botão do choro. Primatas, piratas, cães e ratos são esquecidos por alguns momentos, enquanto tento entender o que diz o mais velho, o que literalmente perdeu o controle. Ele quer guardar o equipamento em algum esconderijo, ao qual o pequeno não tenha acesso.

Ele pensa que o controle é a coisa mais importante da vida dele, denuncia o irmão menor, com surpreendente maturidade, desconhecendo os duplos sentidos. O outro ameniza as lágrimas, um tanto encabulado. Retomo o meu autocontrole para finalizar as tarefas.

Os incêndios na floresta estão destruindo a morada de animais como o tamanduá-bandeira. Quero ver o tamanduá-bandeira na vida real, exige o pequeno. Você devia estar mais preocupado com o rato e o rei de roupa roída, repreendo, a paciência encurtando.

Mesmo assim, mostro na tela do celular o dito tamanduá, com seu focinho faminto fuçando formigueiros, e antecipo a tarefa de trava-língua do mais novo, visivelmente inquieto com a espera.

Trata-se de uma folha única, ilustrada por desenhos de grande simplicidade. Vó, isso não é um rato, é uma caveira. Olho com atenção e vejo que ele tem razão. O crânio. Os espaços das órbitas onde estiveram os olhos. As perfurações do que foi nariz. Os pelos do focinho assemelhados a ossos cruzados. O conjunto completo para ilustrar uma bandeira pirata.

Ora vejam só. Deve ter sido esse rato encaveirado, mais a bandeira do tamanduá, que reforçaram no pensamento dele a conexão pirata/primata. E o mais velho ainda não concluiu sua tarefa, à qual retornamos com reduzida disposição. O fotógrafo registra a vida dos animais na floresta, ele lê, sílaba por sílaba. Vó, me mostra o fotógrafo na vida real, cobra o pequeno, e eu sinto que ele tinha razão desde o início da tarefa: a essa altura, 12 a 15 milhões de anos é uma boa estimativa para minha idade.

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus.jor.

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